Georges Braque, Carnets Intimes
Mon corps était plus immense que la terre et je n’en connaissais qu’une toute
petite parcelle. J’accueille des promesses de félicité si innombrables, du fond
de mon âme, que je te supplie de garder pour nous seuls ton nom.
René Char, Fureur et Mystère, Éditions Gallimard, 1962
O Nocturno com Gatos recebeu esta distinção. Não me interessa se o jogo terminou em Julho e tão-pouco sei que blogues foram os finalistas. Alegrou-me por vir a recomendação do José Matias Alves.
Uma visita ao terrear – espaço de referência na blogoesfera dos professores e sítio onde se afirma por muitas formas o propósito de inventar dias mais claros – permite perceber melhor a razão desta entrada, ainda que tardia, e a minha satisfação.
de intenções: directamente da porta do frigorífico para o blogue. Com um agradecimento à Ana.
À claridade das pedras e das árvores, eleva-se, num silencioso gesto de presença, a figura germinal de uma alegria terrestre.
António Ramos Rosa, Clareiras, Ulmeiro, 1986
Ne cherche pas les limites de la mer. Tu les détiens. Elles te sont offertes au même instant que ta vie évaporée. Le sentiment, comme tu sais, est enfant de la matière; il est son regard admirablement nuancé.
René Char, Poèmes des Deux Années , GLM, Paris, 1955
As tranças da noite ficaram brancas
À passagem do tempo, como eu?
Ou derramou-se no céu um jardim de lírios?
Ibn as-Sid, em Adalberto Alves, O Meu Coração é Árabe, Poesia Luso-Árabe, Assírio & Alvim, Lisboa, 1980
Eclipse em 3 de Março de 2007
E eu peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
Herberto Helder
Lembro-me da Fiama quando era eu jovem universitária e frequentadora assídua da biblioteca do Centro de Linguística. Também, durante um ano lectivo, tomei parte, com um pequeno grupo de alunos, num seminário sobre Filologia que ali decorreu. A Fiama juntava-se-nos, às vezes.
Numa das sessões, a convite do professor, foi ela quem dirigiu o seminário – nessa tarde acerca das duas edições princeps d' Os Lusíadas – apresentando uma leitura cabalística do frontispício das edições. Sorrio ao recordar essa tarde, longa e talvez chuvosa, de uma tão antiga 2ª feira.
Lembro-me da mulher bonita e esguia, com cabelos lisos e pretos apartados ao meio, o sorriso doce, o ar tranquilo. Parecia-se com a poesia que escrevia.
Tudo isto aconteceu há muito tempo. Breve – como todos nós – só a memória permanece.
DO AMOR
Esta vista de mar, solitariamente,
dói-me. Apenas dois mares,
dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte da natureza pede
o amor em dois olhares.
Fiama Hasse Pais Brandão, As Fábulas, Ed. Quasi, 2002
Vi-a em Pasárgada, à pequena romãzeira, toda fechada no seu mistério, entre a prata das oliveiras e o dourado evanescente da folhagem dos carvalhos. Afirmação de vida e beleza - o inverso do exílio - ganhou voz; e uma casa nasceu sob a sua égide: aqui.
Que 2007 nos reconcilie com a esperança.

Matisse, Árvore da Vida

Luís Castro Lopo, Manta de Trapos
Cantam, cantam.
Onde cantam os pássaros que cantam?
(...)
Trinta e Duas Canções de Juan Ramón Jiménez, tradução de Manuel Bandeira
«Quien dice que se olvida? No hay olvido» - Luis Cernuda
Cartaz de Calsina, La Barricada, 1936
Cartaz de Enric Cluselles Albertí
Tho' you are singing somewhere still
I can no longer hear you
Leonard Cohen, Nightingale

Klee, Remembramce of a Garden, 1914
«Arrakis ensina a atitude da faca ― cortando o que é incompleto e dizendo: Agora está completo porque acabou aqui».
Frank Herbert, Dune, Edições Livros do Brasil, Colecção Argonauta Gigante, Lisboa, 1985

foto de Keith Carter
«Este coração, este pequeno ruído que há tanto tempo me acompanha, como imaginar
que ele parará, como imaginá-lo sobretudo no próprio segundo...»
Albert Camus, Primeiros Cadernos, Ed. Livros do Brasil, Lisboa, sd
Neste Natal, um meu amiguinho, de nove anos, escreveu no postal que me endereçou, a par das felicitações da quadra, alguns excertos de um livro que a mãe lhe dera a ler e que ambos acharam eu gostaria de ler também. Não se enganaram, o Gonçalo e a mãe. Não só li com prazer o postal, como procurei por minha vez o delicioso livro. É dele que retiro os excertos abaixo. E os dedico à Eliana, do Reflectindo. Para que sorria.
«Porque é verdade que as palavras se organizam em tribos, como os humanos. E cada tribo tem o seu ofício.
O principal ofício é o de designar as coisas. Já visitaram um jardim botânico? Em frente de cada planta rara, espetaram um cartão, uma etiqueta. É o principal ofício das palavras: colar um rótulo a todas as coisas do mundo, para que sejam reconhecidas. É o mais difícil dos ofícios. Há tantas coisas e coisas tão complicadas e que mudam tão constantemente! E no entanto todas têm de ter uma etiqueta. As palavras encarregadas deste terrível ofício chamam-se nomes. A tribo dos nomes é a mais importante, a mais numerosa. [...] As outras tribos de palavras tiveram de lutar para ocupar um lugar.
Por exemplo, a minúscula tribo dos artigos. [...]
Os nomes e os artigos passeiam-se juntos, de manhã à noite. E a sua ocupação favorita consiste em encontrar uma roupagem ou um disfarce. Como se se sentissem nus, caminhando assim pelas ruas. Talvez sintam frio, mesmo à luz do sol. Portanto passam o tempo nas lojas.
As lojas estão a cargo da tribo dos adjectivos. [...]
Deliciosos adjectivos, indispensáveis companheiros! Como seriam sensaborões os nomes sem as prendas que os adjectivos lhes dão, o sainete que lhes conferem, a cor, os pormenores...
E, no entanto, como são maltratados!
Vou dizer-vos um segredo: os adjectivos têm uma alma sentimental. Acreditam que o seu casamento durará para sempre... É por conhecerem mal a infidelidade dos nomes, verdadeiros rapazes, esses, que mudam de qualificativo como quem muda de camisa.
[...]
As palavras são seres vivos, reunidos em tribos que mereciam o nosso respeito, que viviam, se as deixássemos em liberdade, uma existência tão rica quanto a nossa, com a mesma necessidade de amor, a mesma violência oculta e ainda mais fantasia jovial.»
Erik Orsenna, A Gramática é uma Canção Doce, ilustrações de Bigre, Edições Asa, Porto, 2003
Um sorriso traquina para celebrar o primeiro aniversário de Ao Longe os Barcos de Flores. Que navegue longamente, aportando a terras férteis, onde a poesia e os amigos floresçam.

Virgem Glykophilousa (Virgem da Ternura), segundo modelo monástico do século XIV
Hoje há festa aqui.
E deve também espreitar-se ali.
Et pour cause, um campo de papoilas:

foto de Ian Britton
Ontem, na Livraria Lello, no Porto, teve lugar o lançamento do livro Por Favor, um Blues, de Silvia Chueire.
Tínhamos pensado que seria a oportunidade, há muito aguardada, de nos reencontrarmos. O acaso não dispôs assim. Por Favor, um Blues inicia, solitário, a sua odisseia.
Lamentando a ausência da minha amiga no lançamento do próprio livro, alegro-me porque ela se estreia em Portugal. E alegra-me o livro que agora vem à luz, o talento assumido, a límpida humanidade da mulher e da poeta. Essa coragem de mergulhar nas águas mais silenciadas e dar a ver o que se viu, como afirmou um dia Eugénio de Andrade.
A Silvia escreveu-nos:
Amigos
É quase quatro de novembro e não saberei dos vossos olhares. Minhas palavras viajaram longe e suas pernas e braços não se cansaram.
Não são eu mesma, são as muitas de mim e nenhuma delas. Esta é a minha liberdade. São minha procura, meu afeto. São minha esperança e minha desesperança depositadas na linguagem. Numa linguagem que quer pensar o mundo, olhá-lo, atravessá-lo, refleti-lo. Desprezar as categorias lógicas da linguagem. Elevar o significante à altura da viagem, da melodia. Buscar forma e música, conteúdo e visão de mundo, a minha, a vossa. Sim, vossa. Sempre há esta transição quando lemos.
Proponho que o poema pense, provoque, viva, toque. Toque a pele, a alma, os músculos, a vossa vida, mesmo que por um átimo. E que acima de tudo, subverta. Nada é mais subversivo do que o contato conosco mesmos. Este impacto. Esta possibilidade de (re)criar espaços de pensamento, de emocionalidade, de verdade pessoal.
Meus poemas hoje vos recebem, nus. E é aí que a minha presença é dispensável. É aí que eu não importo aos poemas, ou à (vossa) leitura deles. É aí que atravessada pelas palavras, desapareço. Sem deixar de existir. Ainda que eu gostasse de receber os amigos, de agora e futuros. Ainda que eu gostasse de os abraçar. De os conhecer.
[...]
Estes são poemas de uma mulher que nunca publicou antes, que não é portuguesa, e que começou a escrever tarde (demorei a encontrar minimamente as palavras que buscava, na verdade ainda as procuro). Um conjunto de contra-sensos. Editá-los seria o cúmulo da loucura, do atrevimento? Talvez seja isto: é preciso que as pessoas enlouqueçam, atrevam-se, para que a vida se mova.
[...]
Agora amigos, Por Favor, Um Blues deixa de ser meu, é vosso. Sejam muitíssimo bem-vindos !
Meu grande abraço com a promessa de uma visita próxima,
Silvia Nogueira da Gama Chueire
Rio de Janeiro , 03 de novembro de 2005
A filha do oleiro Dibutades que amava um jovem recortou com um estilete a sombra do perfil dele sobre uma parede. Seu pai, ao ver o desenho,descobriu o género de ornamentação dos vasos gregos. O amor está no início de todas as coisas.
Albert Camus, Primeiros Cadernos, Edição Livros do Brasil, Lisboa, sd
Foto de Robert Doisneau, cit. de Guilhaume Apollinaire
I sit beside the fire and think
of all that I have seen,
of meadow-flowers and butterflies
in summers that have been;
Of yellow leaves and gossamer
in autumns that there were,
with morning mist and silver sun
and wind upon my hair.
I sit beside the fire and think
of how the world will be
when winter comes without a spring
that I shall ever see.
For still there are so many things
that I have never seen:
in every wood in every spring
there is a different green.
I sit beside the fire and think
of people long ago,
and people who will see a world
that I shall never know.
But all the while I sit and think
of times there were before,
I listen for returning feet
and voices at the door.
Songs and Tales from J.R.R. Tolkien's work
cronológica de surpresas felizes:
- recebi duas prendas: podem ser vistas aqui e aqui; obrigada, Ricardo e Manuel.
- um amigo emergiu do casulo e abriu as asas; bem vindo, b.
Agradecendo a umblogsobrekleist a gentil e bem humorada referência e o contributo para a Arca da Jade , aqui fica um gato. Francês, naturalmente.
foto de Jean-Didier Risler, Trocadéro, Paris
A saudade assume uma forma:
os verdes pinhos da serra distante
que tapa a minha vista
a flutuarem numa névoa de lágrimas
Saiónji Sanekane - séc. XIII
Não voltará - o que dele me ficou
é como no inverno entre cortinas
de chuva um tímido fio de sol:
ilumina mas não aquece as mãos.
Eugénio de Andrade, Pequeno Formato, em Antologia Breve, Fundação Eugénio de Andrade, 7ª ed, Porto, 1999
Ficava surpreendido, contra a minha vontade, pela extraordinária insignificância das nossas faltas mais graves, pelo escasso lugar que ocupariam na nossa vida, se o remorso não as prolongasse no tempo. O nosso corpo esquece como a nossa alma; talvez isso explique, nalguns de nós, renovadas inocências. (...)
Venci. À custa de recaídas miseráveis e de mais miseráveis vitórias, consegui viver um ano inteiro como teria desejado viver toda a minha vida. (...) Não pretendo exagerar o meu mérito: ter o mérito de se abster de uma falta é uma maneira de ser culpado. Dirigimos por vezes os nossos actos; não tanto os nossos pensamentos; não dirigimos os nossos sonhos. (...) Assim, eu amara a vida. (...) Mas detesta-se a vida, quando se sofre. (...)
Tornei-me duro. (...) Receava o amolecimento proporcionado pelas sensações suaves; acabei por detestar a natureza, devido às carícias da Primavera. (...)
O Inverno a seguir foi um Inverno chuvoso. Apanhei frio. (...) Esse resfriamento, que não tratei, veio debilitar-me ainda mais: voltei a adoecer, e desta vez com muita gravidade. (...)
Quando melhorei, quando consegui erguer-me na cama, o meu espírito, débil ainda, continuava incapaz de reflexões muito prolongadas; foi por intermédio do meu corpo que me chegaram as primeiras alegrias. Revejo a beleza, quase sagrada, do pão, o humilde raio de sol em que eu aquecia o rosto, e o atordoamento que a vida me causou. Até que um dia pude assomar à janela aberta. Morava numa simples rua pardacenta dos arredores de Viena, mas há momentos em que basta uma árvore despontando atrás de um muro para nos lembrar que existem florestas. Tive, nesse dia, através de todo o meu corpo espantado por voltar a viver, a minha segunda revelação da beleza do mundo. (...) chorei só de pensar que a vida era tão simples, e seria tão fácil se nós próprios fôssemos suficientemente simples para a aceitar.
Marguerite Yourcenar, Alexis ou o Tratado do Vão Combate, Difel, Lisboa, 1988
na corrente, respondo ao repto da Linha de Cabotagem e das Musas Esqueléticas .
Não podendo sair do "Fahrenheit 451", que livro quererias ser?
Os que já sou: alguns poemas de Eugénio de Andrade, Camões, Pessanha, Pessoa, Cesário, Manuel Bandeira, Leonard Cohen, René Char...; fragmentos de "Os Lusíadas", "Menina e Moça", "Dune". Talvez houvesse lugar, no universo do "Fahrenheit 451", para um livro não especializado.
Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?
Sim. Por todas as personagens que me interpelam, ou me comovem, ou me batem familiarmente no ombro. Tantas... Ao acaso da memória: Quióaqui, de Mishima; Alexandre Magno, de Mary Renault; João da Ega, de "Os Maias"; Lazarus Long, da "História do Futuro", do Heinlein; o protagonista de "Os Despojados", da Ursula K Le Guin; Mersault, de Camus; o próprio Camus, nos seus "Cadernos"; Zenon, Adriano e Dona Anna, de "Anna Soror", da Yourcenar. Em tempos mais remotos, o herói, cujo nome já não recordo, de "Uma Aventura na Escócia" e "Catriona". Mais recentemente, encantei-me com o jardineiro de "Três Cavalos".
Qual foi o último livro que compraste?
"Poemas de Mário de Sá-Carneiro", em edição de Teresa Sobral Cunha; "Duelo", de Luís Quintais; e "Don Quijote de la Mancha" (9,5 euros, edição da Real Academia Española).
Qual o último livro que leste?
Excepção à poesia, cuja leitura vou fazendo em permanência e intercaladamente, o último livro que li de uma assentada foi "As Lições dos Mestres", de George Steiner.
Que livros estás a ler?
"A Mancha Humana", de Roth, "À Procura da Língua Perfeita", de Umberto Eco e "Aventuras de Tom Bombadil", de Tolkien, estão aqui, juntamente com vários livros de poesia, a Bíblia, e umas quantas e díspares gramáticas da língua portuguesa.
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Nenhum. Incapaz de escolher entre tantos, ficaria como o burro entre os dois fardos de palha. Por outro lado, a leitura, ainda que actividade a sós connosco, é uma prática cultural. Sozinha, numa ilha deserta, sem a referência do Outro, não teria sentido ler.
A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Ao Rogério Santos - pelo seu interesse específico nos fenómenos da blogolândia.
Ao Sete Sóis - porque temos cruzado leituras e para passar testemunho à geração mais jovem (e porque ele está a preparar-se para me bombardear, em breve, com muitas e difíceis perguntas, vingança antecipada).
Ao Adair - porque é poeta, meu amigo e está do outro lado do mar, no Brasil.
Em agradecimento a todos os amigos, em especial ao Zef, que animaram o Nocturno com Gatos por ocasião da 20.000ª visita, e pedindo desculpas pela ausência da anfitriã, ofereço uma casa que canta e umas flores de Van Gogh.
ramo de amendoeira
ESTA CASA
Gosto dela assim: ainda vibrante dos passos
que a deixaram a sós comigo
desobrigada
de abrigar seus moradores
Comigo é
diferente:
não me limito a usá-la
a habitá-la:
namoro com ela
Comigo
abandona-se a seus mais íntimos rumores
e cheiros
e aliviada do dever de ser útil
em silêncio
canta
Teresa Rita Lopes, Afectos, Editorial Presença, Lisboa, 2000
Nevou na minha terra. Eu não estive na minha terra.
Perdida a conjunção que um dia fez delas uma única, complexa, permanecem simples, as duas pequenas frases. Desgarradas, e possivelmente sem esperança de encontrar conector.
Contudo (sempre se arranja uma adversativa, e sem queixumes) há outras terras que são minhas.
Não sei se nevou em Salamanca, já não resta ninguém que mo possa dizer, a avó, os tios, os primos, nem a velha casa com janelas de sacada existe mais. Mas a Praça sim.
Salamanca, Plaza Mayor - a mais bela de Espanha. Com os meus agradecimentos a Rogério Santos, por partilhar esta fotografia onde a pedra se faz luz, e o mesmo encantamento pela velha Praça.
à blogolândia um amigo que é um poeta admirável, e cujos poemas me movem desde o primeiro, lido na internet há quase seis anos, e foi então como um reconhecimento.
No Nocturmo com Gatos há dois poemas do Adair - um deles do seu último livro, Desencontrados Ventos, título que deu também ao blogue.
Quis celebrar a sua vinda, mas o Weblog não mo permitiu. E hoje que finalmente acedo ao menu de edição, dou por mim a agradecer-lhe um gesto de afecto. E a lembrar. Por exemplo, este é um poema de que muito gosto. E que "vi" nascer.

Perecimentos
Não sei se o rio
que banhava minha cidade
ainda corre
para o mar.
Nem se as paredes
da casa onde vivi ainda
estão coloridas.
Não sei se o asfalto já
ocultou as pedras
onde viajou o primeiro fusca
de meu pai.
Nem se cresceu mato
ou edifícios brilhantes
no lote vago onde brincávamos.
Faz tempo esqueci
de quais tios sobrinhos e primos
nasceram ou morreram.
E minha cidade não é
mais sequer um retrato
na parede.
Longe cada ano mais
me distancia
dos meus primeiros dias
da mamadeira no chão da sala
dos canarinhos amarelos
das goiabas e do limoeiro.
Longe cada dia mais
me distancio do que
fui ou poderia
e vou me esquecendo
pelos corredores cada vez mais vazios
deste meu minúsculo mundo.
Adair Carvalhais Júnior
Jeane Vogel, raposa do deserto
«Do desespero, meu amor, trouxe o cestinho mais pequeno
que se pôde entrelaçar em vime.»
René Char, A Companheira do Cesteiro (excerto), em Furor e Mistério, Relógio D'Água Editores
Para a Helena Roque que, no seu digitalis, publicou uma excelente selecção de materiais – próprios e de outros, reflexões filosóficas, representações pictóricas, referências musicais, poemas – sobre a morte, a que chama «estado desejável de eterno vazio», definição que me agrada, nem tanto pelo estado em si, mas por supor inconsciência de tal estado. Aliás, por não haver consciência de todo. Que a gente também se cansa, como no poema de Ruy Belo citado no digitalis. E neste que aqui deixo. Para a Helena, com admiração.
PREPARAÇÃO PARA A MORTE
A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.
Manuel Bandeira, Estrela da Tarde, in Estrela da Vida Inteira, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993
que o Nocturno com Gatos se mudou para o Weblog e se tornou público, depois de duas atribuladas e sigilosas semanas no Sapo.
Para os amigos e para os companheiros do universo virtual que me têm visitado e ajudado a transformar o Nocturno num espaço de afectos e aconchegos, Nuit sur La Mer, de um pintor que me acompanha há muitos anos.

Paul Delvaux, Nuit sur la mer - 1976
Ao Astrophil, ao Groze e ao Sete Sóis, com carinho e admiração.
Pela terna insistência do Sete Sóis.
Pela verve brilhante do Groze.
Pela apaixonada serenidade do Astrophil.
Pelas palavras e pelo riso.
Pela poesia. Pela música.
Pela noite que se fez navegável.
Um poema de que gosto, palavras ou «relâmpagos/que hão-de chegar saltando de uma ilha para outra ilha». Como as conversas. E as cerejas:-)
Em torno do Imponderável
O mais seguro abrigo
é o que oscila um pouco
como se oscilássemos
sobre a matéria viva
ou no coração do espaço.
Ramos Rosa, Uma Rã que Salta, Ed. Limiar, 1995

Nenhum outro poeta-músico me acompanha há tantos anos e tão intimamente. Nenhum foi tão central na construção da minha mundividência.
Hoje faz 70 anos. Field Commander Cohen.

Esta entrada é-lhe ternamente dedicada. E a um amigo comum - outro pássaro no arame.
I'D LIKE TO READ
I'd like to read
one of the poems
that drove me into poetry
I can't remember one line
or where to look
The same thing
happened with money
girls and late evenings of talk
Where are the poems
that led me away
from everything I loved
to stand here
naked with the thought of finding thee
Leonard Cohen, The Energy of Slaves
Nocturno com Gatos vai a banhos.
Noah Grey
Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.
Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.
Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.
Manuel Bandeira, Estrela da Manhã
«Aconteça o que acontecer, não chegueis nunca a odiar-vos.» Esta sua suprema admonição põe-nos em guarda contra o pecado mortal da paixão levada ao extremo, depressa virada contra si própria e transformada em ódio, em rancor, ou, o que é pior, em irritada indiferença. A felicidade alcançada e a dor aceite salvam-nos desse desastre.
Marguerite Yourcenar, Anna Soror, em Como a Água que Corre, Difel, 1983
O amor é um castigo. Somos punidos por não termos podido permanecer sós.
Marguerite Yourcenar, Fogos, Relógio D'Água, 1988
226
Mon corps était plus immense que la terre et je n’en connaissais qu’une toute
petite parcelle. J’accueille des promesses de félicité si innombrables, du fond
de mon âme, que je te supplie de garder pour nous seuls ton nom.
René Char, Fureur et Mystère, Éditions Gallimard, 1962
Política
Da História encarrega-se o tempo.
Mas quem se encarrega das pessoas?
***
A experiência diz-me: estou longe
e estou sozinha.
***
Moral?
Não é Deus, é o homem
que está cheio de zonas interditas
I. K. Centeno, Irreflexões, Edições Ática, Lisboa, 1974
Eu vi a luz em um país perdido.
Camilo Pessanha, Clepsidra
Toda me entreguei, sem fim,
e de tal sorte hei trocado,
que é meu Amado para mim,
e eu sou para meu Amado.
Quando o doce Caçador
me atirou, fiquei rendida,
entre os braços do amor
ficou minha alma caída.
E ganhando nova vida,
de tal maneira hei trocado,
que é meu Amado para mim,
e eu sou para meu Amado.
Atirou-me com uma seta
envenenada de amor,
e minha alma ficou feita
una com seu Criador.
Eu já não quero outro amor,
que a meu Deus me hei entregado,
meu Amado é para mim,
e eu sou para meu Amado.
Santa Teresa de Ávila, Seta de Fogo, trad. de José Bento, Assírio & Alvim, 1989
Como se houvesse um incêndio de giestas para atravessar, eu não dormia.
Eugénio de Andrade, Limiar dos Pássaros, Ed Limiar, Porto, 1976

«Desculpem - mas jogar futebol assim é também poesia :)
Feliz, após jogo impróprio para cardíacos...»
Amélia Pais dixit.
Eu concordo
Agora sei que houve um só lugar onde acendi o lume.

fotografia de Larry Towell
Vinha de terras altas, conhecera a sede e
a água dos trigos de março, os pés habituados
à poeira lentíssima da eternidade.
O rigor da neve veio vindo depois.
Eugénio de Andrade, Memória Doutro Rio, Limiar, Porto, 1978
El sentimiento de la desposesión radical – no poseer lo que se tiene, no vivir la vida sino su remedo o aparencia –, la percepción del tiempo como una amenaza destructiva, la experiencia de lo que podríamos llamar ajenidad – percibir la existencia como algo lejano que nunca será nuestro del todo; ni siquiera nuestros cuerpos y almas los sentiremos como proprios.
Ángel Rupérez, El Mundo como Meditación, Introduccion a Luis Cernuda, Antología Poética, Espasa Calpe, Madrid, 2002

© Zoe Zimmerman
Não pedi para viver.
Esforço-me por aceitar sem espanto e sem cólera
tudo o que a vida me oferece.
Partirei sem ter interrogado ninguém
sobre a minha estranha estada na terra.
Omar Khayyam, Rubaiyat, Odes ao Vinho, Trad. de Fernando Couto, Moraes Editores, Lisboa, sd

Suzanne
Suzanne takes you down
to her place near the river
you can hear the boats go by
you can spend the night beside her
And you know that she's half crazy
but that's why you want to be there
and she feeds you tea and oranges
that come all the way from China
And just when you mean to tell her
that you have no love to give her
then she gets you on her wavelength
and she lets the river answer
that you've always been her lover
And you want to travel with her
you want to travel blind
and you know that she can trust you
for you've touched her perfect body
with your mind
And Jesus was a sailor
when he walked upon the water
and he spent a long time watching
from his lonely wooden tower
and when he knew for certain
only drowning men could see him
he said All men will be sailors then
until the sea shall free them
but he himself was broken
long before the sky would open
forsaken, almost human
he sank beneath your wisdom like a stone
And you want to travel with him
you want to travel blind
and you think maybe you 'II trust him
for he's touched your perfect body
with his mind
Now Suzanne takes your hand
and she leads you to the river
she is wearing rags and feathers
from Salvation Army counters
And the sun pours down like honey
on our lady of the harbour
And she shows you where to look
among the garbage and the flowers
There are heroes in the seaweed
there are children in the morning
they are leaning out for love
they will lean that way forever
while Suzanne holds the mirror
And you want to travel with her
you want to travel blind
and you know that you can trust her
for she's touched your perfect body
with her mind
Leonard Cohen, Stranger Music - Selected Poems and Songs, 1993

Mosteiro de Alcobaça - nave central
Entrava em casa, numa destas raras noites sem brumas. Cassiopeia abria os braços do outro lado do horizonte. Da Ursa, só a carreta, cauda perdida atrás dos prédios. Não sei por onde andaria a Lua, quase cheia, que subira a serra horas antes, ainda o céu desmaiava. Mas acima do telhado, em glória, o cinturão de Orion. Acode-me o Mattina de Ungaretti. Por segundos, ensaia-se um regresso.


Não consigo publicar comentários no Nocturno, há uma falha qualquer no weblog, respondo-vos aqui.
Lembram-se do filme "Esplendor sobre a relva"? Assim se tornaram para mim os sobreiros: os ícones de um irrepetível fulgor. Essas árvores que eu via na planície alentejana, no Algarve, mas distraidamente, pois que não eram as minhas, as que julgava ancestrais.
Quem me havia de dizer que anos depois, olhando-os da minha janela, de dois sobreiritos haveria de fazer uma floresta inteira - para alegria e sobrevivência do olhar?
Agradeço a todos os que me leram. E hoje destaco o Groze pela sua gentileza e por nos encontrarmos assim, contra todas as probabilidades, excepto a que um querido amigo comum representa nestes jogos de acaso.
E ao Carlos, à Márcia, ao António, à Amélia, à Adelaide, ao Nuno, à Louise, ao Wilson, à Eugênia, à Sara, ao Fernando, ao Manuel, ao Mário, ao Rui, à Joana, à Diana, à Eduarda, ao Sete Sóis, ao NorMal... a quem por aqui passa e volta, ou não, um beijo.
o Nocturno com Gatos, o meu muito obrigada a Rogério Santos de Indústrias Culturais.
Como bem nota, afinidades e ternura são os elementos centrais deste salão semi-público onde recebo os amigos, nem todos virtuais.
E também eu existo :-)
após um breve interregno natalício, agradeço aos amigos e visitantes que passaram pelo Nocturno com Gatos, e a todos desejo um excelente ano novo.
E se 2004 não for o que desejamos, para nós e para o mundo, que ao menos conservemos esse olhar "à Eugénio de Andrade", capaz de aquecer-se ao sol da esperança, na contemplação das coisas mais elementares.
que nos acompanham a vida toda.
Famous Blue Raincoat
It's four in the morning, the end of December. I'm writing you now just to see if you're better. New York is cold but I like where I'm living. There's music on Clinton Street all through the evening. I hear that you're building your little house deep in the desert. You're living for nothing now. I hope you're keeping some kind of record. Yes, and Jane came by with a lock of your hair. She said that you gave it to her the night that you planned to go clear. Did you ever go clear?
The last time we saw you you looked so much older. Your famous blue raincoat was torn at the shoulder. You'd been to the station to meet every train but then you came home without Lili Marlene. And you treated my woman to a flake of your life. And when she came back she was nobody's wife. I see you there with a rose in your teeth, one more thin gypsy thief. Well I see Jane's awake. She sends her regards.
And what can I tell you, my brother my killer? What can I possibly say? I guess that I miss you. I guess I forgive you. I'm glad that you stood in my way. If you ever come by here, for Jane or for me, I want you to know that your enemy is sleeping. I want you to know that his woman is free. Yes, and thanks for the trouble you took from her eyes. I thought it was there for good, so I never tried.
And Jane came by with a lock of your hair. She said that you gave it to her that night that you planned to go clear.
Sincerely, L. Cohen.
Leonard Cohen, Songs of Love and Hate