a música acende
as partículas
pouco
mudámos –
ao som da viola
outra vez
dezasseis anos
e a boca
comme un fruit sous la pluie
Soledade Santos
passa uma musiquinha triste
na rádio a gata dorme o aconchego
da melodia casa vazia
uma cesta e o girassol amarelo
é quanto lhe basta para ser feliz
eu não me contento com tão pouco
um girassol amarelo a musiquinha
uma cesta tem mais do que eu
a gata não espera nada e tem
me a mim também
Soledade Santos
A tarde cai num silêncio de cansaços
do sul as nuvens chegam
como flâmulas
e sobre nós respiram
leves as folhas
de sobreiros e acácias
que perduram
sobre o muro
esquecido
aberto o livro:
«não conheci o desvario do amor senão quando me esforcei
de todas as maneiras por curar-me dele»
eu amava estes lugares onde as sílabas fulgem a floração do corpo
mas as palavras já não têm tal rosto
na tarde que finda
compõem ainda uma gramática –
a do silêncio
Soledade Santos
"De vez em quando paramos de crescer"
é das raízes afundadas na terra doce
do sol esplendendo só por esplender.
De vez em quando voltamos a crescer
não cabemos na casa da pele do olhar
ruímos para dentro tudo por fazer outra vez.
Entre um dia e outro somos só caminho
vigília breve na terra áspera
e mãos transidas de luar.
Soledade Santos
Sou as palavras e os segredos que guardei
e um estrito reservar-me nunca soube porquê
se tão completa me entrego as vezes que me entreguei.
Sou a lembrança que se vai diluindo
em olhos que julguei perenes e consanguíneos.
Sou canções poemas e tantas
malbaratadas luas. E a música e os livros
e a varanda que um arquitecto desenhou
sem saber que era p'ra mim. E que perdi.
Sou o teu sono, minha gata, redondo ainda
e já inclinado ao fim. Sou árvores, o rio que amei,
as giestas, uma pouca de terra que o vento dispersa.
Soledade Santos
«Tantos nomes que não há para dizer o silêncio»
Herberto Hélder
Às vezes quando estou só
acendem-se na lembrança
ao fim do dia
as luzes dos autocarros –
paciência de cidade grande
na estreita melancolia
de um autocarro de dois andares, verde
como então eram os da Carris.
Acendem-se
pois as luzes ao fim do dia,
e todas as ruas todos os rios
ficam repletos de solidão.
Soledade Santos
Manhãs de sol e frio –
caminhar com intuito,
saudar quem se cruza comigo, pontes
de humanidade nos dias sem história.
Suga a humidade da pele o ar limpo,
mas devolve ao olhar um brilho
que só o frio conhece
na córnea lavada das madrugadas.
E ao fim do dia regressar –
tem outra qualidade o ar
do crepúsculo
e às vezes anuncia,
se o vento se aquieta,
a geada da noite
e a vinda de uma lua forasteira
que se molda à curva do meu sono.
Soledade Santos
Janela aberta e a manhã entra no quarto
cinzenta
o céu as ondas as gaivotas
planando na tempestade
ao nível do olhar.
Os pingos de chuva tangem
a pele e atravessam a memória –
nunca estive aqui.
Sem linha-guia respondo
com o que invento
a polpa dos dedos o espanto.
Não me interrogo
e se o fizesse não quereria respostas.
Soledade Santos

Eis que chega a lua de Outono:
nos jardins adormecidos
galhos de prata – cordas tensas –
mal vibram no sumir-se o vento.
Soledade Santos
No cimo do choupo restam três folhas
solitárias, só três:
quietas e cinzentas ao vento, à chuva
como de vidro denso.
Olhando-as, sei que outro ano passou.
E eu, que farei eu da minha fidelidade?
Soledade Santos
Passaram mais de quatro anos. O Nocturno com Gatos começou com poemas como este:
Retrato
comecemos pela ternura das mãos
pela minúcia dos dedos
pelas magnólias verdes dos teus olhos castanhos
contemplemos todas as batalhas
efémeras que perdeste
e os arroios que então se abriram
na espessura do teu corpo
e a boca lavrada pela sede incessante
e a glória da voz em vitral lento
consideremos também o teu nome
e para ele haverá que achar metáforas
estrelas em céu de agosto
por fim busquemos no fundo
da memória a chave
para o texto que ainda não decifrámos
enquanto isso
a ninguém direi dos pássaros
que moram na tua cintura
Soledade Santos
«A terra é boa; ao meu ouvido
volta a dizê-lo»
Eugénio de Andrade
Há tanto tempo que não te encontro
nem às coisas que partilhámos –
as águas, a brisa, a sede,
a erva tenra afligida
pelo esplendor de um corpo aceso.
É quase Inverno. Os diospiros ardem;
e trazem um cheiro a fumo
as névoas, velando o entardecer.
Lembrei-me de ti: o lume, a cadência dos versos,
um peito moreno entrevisto
entre a brancura da camisa e as palavras
de um poema.
Fica, fica ainda um pouco. Afasta
o deserto, o lamento, a sombra,
onde o silêncio mastiga o tempo tenebroso.
Soledade Santos

Jeane Voguel
Chuvisca a espaços e quando
não chove o sol toca brando
a mesa folhas soltas chávenas
de café e o prato
que foi de amêndoas em páscoa de aldeia.
Os amigos chegam –
trazem os sons de fora, adiam a morte.
Soledade Santos
nuvens pequenas no céu alto e familiar
faixas cinza no tejo manso e um cheiro
a castanhas assadas – lisboa
percorrida como não tendo outro
destino que desaguar na tarde
pastorear as crianças no parque ouvir
os desvarios agudos voltar a ser assim mas
onde os céus fossem estranhos e eu não
soubesse a que cheira o entardecer
a que sabe uma castanha adoçada de saliva
lisboa à noite é uma praça de província
a voz insegura um homem no palco chora
a miragem do amor e do império a minha
história margarita nos lábios
sais ribeirinhos de impulso vão
Soledade Santos
atravessar a tarde
ver as crianças os bichos
ancorar o olhar
partir enfim
em qualquer sítio adormecer
sem poemas nem luas
sem mais explicar
o que por mim só vive
e comigo findará
Soledade Santos
Gauguin
Não é a melancolia de outono
as brumas que adoçam a tarde
nem o tempo que meço
estreito. Não sei o que me liga a ti.
O mais íntimo dos luares
palavras a música
o mar tudo te é anterior e nada
mudou quando chegaste.
Só a falta cresceu e perderam
sentido os gestos pequenos
que iluminavam os dias.
Soledade Santos
vem chegando o outono
volta a fixar-se
nas cores do país solar
sobem do vale as neblinas
e abre rasgões o crocitar
dos corvos na tarde
uma ânsia qualquer detém o vento
Soledade Santos
Era maio, o homem chegou e rompeu os equilíbrios.
As mulheres vieram no solstício de inverno
e devolveram o passado.
    Como se tudo houvesse de ser revisto
    e a vida urgisse a consistência perdida.
E voltaram mágoa, esperança, assombro.
Soledade Santos
Qualquer mirante ou falésia
de onde olhar o mundo, o mar
sem palavras e os olhos
alongados em sua
privada visão da distância.
Tão pouco se reparte. E dizer amor
já não é uma coisa simples.
Soledade Santos
No fundo da ternura há um som de lágrimas –
água clara onde o sol do entardecer
odoroso se deteve;
vem das lembranças, cristais de sal,
chispas na pele esfolada pelos jogos
infantis e as perdas
de que a vida nos preencheu os dias.
Companheira amável do desencanto,
outra forma, afinal, de dizer mágoa.
Soledade Santos
Chega ao fim outro dia
na inclinação do sol
que terno insiste ainda
em fulgores de azul
em cirros sem destino
revérberos de luz.
Ignorando-o recolho
maceradas estrelas
sílica de orion
e cassiopeia dança
o perfeito contorno
do silêncio do sono
que às vezes não vem.
Sei os teus olhos cheios
de objectos nenhum deles
o temporão pirilampo
que ardendo vai subindo
na fronteira da noite
desta janela os vidros.
Sei dos teus gestos breves
e a área viva do corpo
sabendo nada sei
calando me adormeço
em vão fluem meus rios
e derivam para sul.
Soledade Santos
Se atrás dos vidros fechados
a casa se arredonda
e o vento agreste chama,
sobem da noite as crinas salgadas:
frontões pilares colunas
deste bravio coração nosso.
Do mundo lá fora
o vento limpa a amargura –
e eis que a manhã nasce
claríssima sunion inabitada.
Soledade Santos
Nicolas De Satel
CONSOLO
posso arranjar consolo
nas coisas mais insignificantes
o rapazinho que tem o teu nome
e mora na minha rua
gosta de fazer pequenos recados
em troca de um chocolate
Soledade Santos
Que faço em dia de tranquilas inspirações,
dia de brumas cálidas e horizonte próximo?
Entre a mão e o objecto permanecem
inexcedíveis cumes do tempo e da distância.
Levei pelas noites uma ânsia côncava
que a manhã alisou. Agora plana de vazio,
não me acha ocupação o gume desta quilha
a que as águas do sono anularam o fio.
Procuro a beleza das agonias na manhã baça,
responde-me um eco de verões extintos e o harpejo
das fissuras geladas do inverno, um eco
que as brumas adormecem como algodão em rama.
Soledade Santos
Sai um sol fraquinho entre chuvadas
e as aves aproveitam-no;
eu desperdiço-o encostada à vidraça.
E vêm-me à ideia
uns versos de Camões sobre a mudança.
Parece que neste
universo em permanente
revolução
só eu me fixo a nada.
Soledade Santos
espera um pouco sei
que é branca a luz que bebo
nas sílabas dos sulcos dos teus olhos
e nem rasgões da boca acesa
podem contra ela
pouco me resta a dizer-te mas
espera ouve
a fala exausta prende-se perde-se
nada
maremoto algures
fonte
da respiração de
cantar sons
palavras
deixa
vai tenho
a fala presa
à vegetação deste lugar
Soledade Santos
Fecho os olhos deslumbrada
na brancura que a música traz –
alguma coisa embota o gume do sentir.
Mas a cantora abandona o círculo
e ao som do piano baixa
escuridão que cheira levemente a ti.
Soledade Santos
Abril cai sobre a cidade e abre-a,
podia ser um fruto Lisboa
ou um gato muito grande que enlanguesce
sob a luz e uma lembrança
à margem do Tejo.
Em Abril a cidade é lisa,
e bem vejo que se derrama
como cristais coloridos nas colinas.
Por isso lhe invento cumes
declives de uma ascensão –
em baixo copas de pinheiro manso
e ao fundo as rugas incandescentes
do oceano que acolhe o sol, a eternidade
e os devolve,
fechada a noite no círculo
dourado da lua cheia.
Soledade Santos
Traço em ouro fatigado os planos
de um rosto a elipse do olhar.
E a chuva escorre
sobre o lápis diluindo o limite das formas.
Apelo então às palavras
mas o poema recusa-se quando digo
era capaz
de inventar alfabetos
qualquer coisa
por um vislumbre do teu rosto.
Soledade Santos
Que extraordinária bagagem trazemos do passado
quando já de um ponto alto podemos olhá-lo
com esse desdém carinhoso de que um dia me falaste,
os gestos livres de intento
os dedos ao sabor de não importa que brisa desgrenhada.
Tinha havido um tempo tranquilo
e as mãos traçavam tão diários gestos
que na linha cadente das tardes não percebi
o avizinhar dos jardins – eu, que julgava
todas as fissuras suturadas.
Mas eis que a memória é tocada,
olhos reconhecem-se e chega-se
esplendorosa e estranhamente a casa.
Simples, como captar nos ventos da tarde
o aroma fugidio das glicínias ou da pele amada.
E no entanto, tão próximos no sangue
no riso na sede, tudo às vezes é esquivança.
Tão complicado. Estranhos, vulneráveis.
Como um rapazinho que nunca chegasse a crescer.
Soledade Santos
(em redor de Eugénio de Andrade)
Direi que amo
direi mel
saliva
Direi ferida
lábios
madressilva
Direi febre
flancos
ambarina
Direi
e sob as palavras oiço
nenhum rumor de lume
Soledade Santos
Fim de tarde, a luz deserta,
da bruma avultam cruzes de metal.
E se os olhos vagueiam, palavras
antigas tornam, um esplendor.
Mas fechadas, nada lhes dá corpo.
Não mais se dirá da chuva de ouro,
imagem que o silêncio vela
atrás das pálpebras baixas.
Soledade Santos
Pétalas afagam
os meus dedos
quando te recordo
Lágrimas flutuam
ou estrelas
onde o silêncio desagua
Soledade Santos
Primeira madrugada do século –
ramalham os sobreiros
oblíquos à chuva que escorre nas vidraças
dissolvendo a nitidez do olhar e o vale
envolto em brumas e distância
(foi assim também dezembro
mês nocturno atravessado
pelo fogo de palavras esquivas).
Estendo os pés ao calor para lembrar
gestos da ternura
e rostos que o tempo levou de mim.
À luz que nasce amortecem
os últimos ecos da festa
e só o aroma do chá
subindo da chávena branca incandesce
os acordes desabridos
do vento e da chuva.
No silêncio olheirento da madrugada
abafo o lume corro as cortinas
e guardo nos olhos o espólio
do século que findou:
poeira de noites mal dormidas
e as estrelas
resgatadas ao cotão da eternidade.
[Pôr-do-Sol, Janeiro de 2001]
Soledade Santos
outono chega
aos olhos –
neblinas mornas
beijos primeiros
perdidos
como o cheiro no banco
vermelho
dos livros da escola
Soledade Santos
Sem caminho de regresso
ao pequeno incêndio mal cuidado.
Lembra-te do rosto à chuva e à soalheira de agosto,
dos amigos, dos vagabundos e dos velhos familiares.
Como era certo então
tudo o que hoje perdes entre dedos breves.
Lembra-te da casa aberta,
canções em volta da mesa grande,
as cerejas, as crianças, sons no adro.
E o aroma da figueira.
Todo o amor
conhece fim, mesmo o da terra.
Soledade Santos
De calçada os teus cursos predilectos
rotas sonolentas de lisboa velha
que se ama ao rés dos beirais
no murmurar da folhagem
e se contempla não do céu
mas dos mirantes
tranquilos de domingo.
Tudo te cabe nesta cidade
o cheiro do capim que trouxeste
e umas saudades
de áfrica e outro tempo
em que as asas mais facilmente
te sustentavam no ar
rarefeito e agora denso
de poemas e lembranças.
Tranquila a tua voz
quando em tardes de lisboa
sem destino ao pé do tejo
falavas da tua gente
e de versos e de sonhos.
E eu escutava
a clara humanidade
que povoa o teu olhar.
Soledade Santos
Era ainda cedo
vivíamos em tendas
só tínhamos
o que sabíamos transportar:
duas pedras de calcite
numa bacia de água com sal,
o cacto aéreo, desenraizado
como nós,
um jovem gato,
as lembranças guardadas
na bolsa de patchwork
que havíamos costurado.
E o coração nómada
nómada nómada.
Intimorato.
Soledade Santos

Adèle Vergé, Petit Enroulement blanc
Julho, esta luz de vento arrepiada
e o pardal de sempre na janela.
Um dia passa e outro dia e tudo
se conglomera – eu tinha-te dito:
o amor é um estado
de concentração diabólica.
Soledade Santos
Enchem-se as mãos de asas, são para ir.
Antes, deixa-me dizer:
esta é uma terra inclemente e falham
as palavras também. Nem ânsia
de beleza ou amor, nem estrelas, infância –
não há esplendor inocente. Só o ar
ondula incerto outra vez.
Soledade Santos
Trago-te o canto
da chuva que ainda goteja
e os cirros vermelhos
que pintaram o fim da tarde,
pequenos devaneios —
a paisagem pueril
dos amantes sem história.
Soledade Santos
Solicitam-me e eu olho perto o mundo:
espessa oliveira torcida de eras, luras,
florescências idas (oh avó sozinha
ao canto da chaminé escura).
Encima-a escassa rama pobre em folhas,
tão baixa entre os choupos ― esguios jovens chicotes ―
e a adolescente copa dos pinheiros mansos.
Isto trago no olhar: o vário estranho mundo.
Outro dia vem, o sol desce em face da varanda,
aflora os cumes da serra e carmina fugaz as nuvens.
Na tarde um pipilar de pardais, e outra ave
em silêncio plana austera.
Soledade Santos
Verão.
Outra vez eclodimos
cegos e simultâneos.
Soledade Santos
Difícil não é chegar ao cimo da serra —
o difícil é estar lá.
E alargando o olhar
pelas encostas saber
que um dia o oceano ali chegou;
e tudo o que agora resta é a mina de sal gema
e o recorte duvidoso
das Berlengas afogadas na neblina.
Soledade Santos
«L’acte est vierge, même répeté»
René Char
Há um silêncio que não tivemos tempo de construir.
Tudo foi estrondo
avenidas que se rasgaram e perpendiculares ao rio
clarearam a cidade.
Mas o silêncio do longo olhar,
as mãos germinando quietas
às luzes da cidade que o outono terá acendido mais cedo -
o silêncio, não.
Eventualmente regresso:
manhã velada, tranquilo azul, ao fundo o rio.
Tudo aqui. Excepto lembrança
de amoroso silêncio que não tivemos tempo de construir.
Soledade Santos
A casa já não é um círculo nem as vidraças
se abrem ao esplendor do mundo.
Essas devolviam
a luz o vento os sons da ramaria
de aves e o mar distante - altas janelas
da casa morna habitada só
pela ternura dos dias lisos
e o curso de astros no céu de verão.
Esta agora impõe seus ângulos
rectos -
chama o vento e ela fechada
em rigorosa esquadria.
Só à noite, às vezes à noite,
em vigília se faz círculo,
diminuto centro do silêncio.
E descem
das estrelas ou ascendem
da terra funda do planeta vozes –
labareda de humana substância
aquecendo paredes tão duras:
um primeiro rio, areias da beira-mar,
o jardim das delícias e dos enganos,
quanto clareia a mágoa
vinda da infância já;
e a linha de fogo que miraculosa ondeia,
rareia adensa e chega
de Homero e outros até mim.
Mas vai findando o tempo das casas circulares.
Afasta-se o primeiro incêndio das palavras
e os grilos cantam uníssonos
ao piscar das turbinas eólicas.
Gargalha um Prometeu desonesto
e nada acompanha o tempo humano,
grande solidão de ferrovia,
correndo,
sob a lua cheia,
tal um quadro de Delvaux.
Soledade Santos
Sopra o vento nítido erguendo
nuvens de pó na serra ao longe, e vibra
a alegre conversação das folhas.
Árvores acodem
de todos os sítios da lembrança e do olhar agora.
O peito esquece a hora em fuga,
fala o vento a luz o corpo imediato.
Soledade Santos
Estar imóvel, negar sonhos perdidos
como se os não tivesse sonhado;
jogar ao tempo sem destino,
viajante da nau imensa
ou de um comboio sem paragens
que atravessa o continente do insulamento.
Conforta estar assim:
aceitar que a vida nunca teve rumo
é outra forma de duração,
como voltar a ser criança
e não vir de lado nenhum e não ir para sítio nenhum
porque chove e nos dói
vagamente e para sempre a garganta.
Soledade Santos
Chego ao hotel e peço
o quarto mais barato que tiverem
uma cama limpa e sem vestígios de humanidade
Quero um quarto sem cortinas
porque a lua vai cheia e as cortinas não fazem falta
também não desejo aquecimento e odeio ar condicionado
Quero tudo reduzido à expressão mais simples
não preciso de espelho para lavar os dentes
não quero telefone nem televisão
O cinzeiro deixem-no ficar
ainda que eu não fume propiciará
o justo ritual de um auto-de-fé
Soledade Santos
Dirás ter sido o verão mais longo do que pensaras?
Estivais até os dias breves que a friagem clareava?
Lembro o hino da cascata no lago encrespado ao vento,
amáveis águas, lumes pedrinhas ao sol de inverno.
Agora tardes, outro vento nem bem triste, poeira solta
dos jardins que amámos. Doce aventura Doce / A Vida.*
* Elytis, Orientações
Soledade Santos
não sou a imagem que buscas fixar
na objectiva do espanto não me vês
porque não podes
a quietude é uma velocidade vertiginosa
entre um oscilar de pálpebras e outro
orbitei o universo
regressei ao ponto de partida
e não são meus
os aromas de bosque no espaço
onde antes fui eu
Soledade Santos
estou sozinha no silêncio da sala vazia de outra
respiração que não a minha pois o meu amor partiu.
deu-me beijos ao partir mas foi como se a porta de vidro
se corresse e os beijos ficaram do lado de fora.
ele dorme a esta hora abraçado a cinco travesseiros
a face sobre a mão e uma perna diante da outra ei-lo
que dorme e no sono se afasta de mim e eu não posso
entrar devagarinho no quarto puxar o lençol e substituir-me
aos travesseiros porque o amor é uma criatura de hábitos.
então sento-me no chão da sala e entro em meditação.
Soledade Santos
é menos duro aqui o azul
e a curva da noite menos funda
(é preciso um frio que rache pedras
para que a lua dê costas à noite e se acenda)
mas eis que o orvalho chega e tremeluz
e inaugura um jardim de brumas
há algo aqui talvez para calmar o peito
e chegar ao poema
Soledade Santos
rumor agita o silêncio da turfa dura
o vento dorme ainda na geada da manhã
e eu vejo rostos de pedra no labirinto
olhos da minha gente feitos de terra
como os meus
claros em sua rara eternidade
estilete de prata fere os dedos
e vai à boca
é de lava na arca do peito
e por instantes afecta
o tecido frágil da memória
e a respiração
mas já o vento vai acordando
e despenteia
os crisântemos amarelos
Soledade Santos
O homem ocioso na esplanada olha o mar,
as areias incólumes da manhã
e o azul
que sobrou dos silêncios nocturnos.
As ondas sobem, os túneis longos são
como algo em mim irregular
mente compressor.
A desordem da espuma.
O sol vai crescendo enquanto
o homem oferece ao afago
indiferente da calma a pele;
um ciclista toureia
no paredão as ondas que às vezes o galgam.
Será colhido.
Escuto o riso do homem solto na limpidez da manhã,
irisiando-a –
vidrinhos coloridos em jogo de caleidoscópio.
Depois tombam – e dissolvem-se –
cristais ainda mas de ácido,
no tecido fibroso do coração.
Também o ciclista molhado regressa,
pago o preço –
traz a bicicleta à mão.
Soledade Santos
Novembro chega
com seus cães de lama e mágoa.
E todos os jardins se encheram
de ausência e luz apagada.
Aonde nos levam as mãos doentes?
Aonde? Esta paciência,
devagarinho os olhos fechados.
Soledade Santos
para Amélia Pais
Distância verde
nos pinheiros
que anoitecem
Macio afago
do som de água
que ao longe flui
Náutila concha
que encerra o lume
de estar sem mim
Soledade Santos

a noite passada dormias
e eu entrei em casa
sentei-me a teu lado
dormias
a linha da testa
os olhos fundos
afogados
a boca que já foi
lugar de amor
mas a chuva na vidraça
Soledade Santos
para t.m.
Telefonas na manhã sem esperança
parado no trânsito e praguejas.
Quem te dera em Lisboa dizes,
no Campo Grande sem chapéu-de-chuva
e com um saco de pão para atirar aos patos.
Há tantos anos ― domingo em Lisboa,
nós dois vindos de muito longe,
submerso o parque em chuva,
no lago os remos lentos e as lembranças
da terra longa. Amávamos então
a cidade a música e cada um
de nós a sua criatura urbana.
Mas também os lugares se esgotam.
E na diáspora dos afectos dos lares
que sucessivos ergueste e perdeste,
oiço-te, amigo,
como antes ferido de incompreensão,
desfiando as lembranças
dos nossos antigos impossíveis futuros.
Soledade Santos
A glicínia serpeia no tronco velho
e o dossel chama as abelhas na tarde quente.
Ninguém perturba o seu afã de insectos
eficazes.
As rolas soltam arrulhos mas não convidam à sesta
e não caem coa calma aves nem bocas de amantes.
Tudo é mudo e branco. Nada significa.
Soledade Santos
reedito um poema dos primórdios deste blogue.

fotografia de Terri Weifenbach
A CHUVA VOLTOU
a chuva voltou esta noite
no lamento do vento nos vidros
nos meus olhos a chuva voltou
é tudo quanto soa
e sabe bem ouvi-la
ter um pretexto
para o silêncio dizer apenas
ouve como canta nas telhas
e desagua
no pó
Soledade Santos
Silenciou-se o tropel
e outros sons povoaram a casa:
os pardais chiam na madrugada
e à tarde instalam-se as crianças
vozear de tragédia fácil;
na cozinha a alcofa das compras
som de fibras descoradas
e o frigorífico exala
um rumor de saciedade.
Mas o tempo fechado mora melhor na sala
nas janelas abertas ao vazio
aos dias luminosos e completos
de uma perfeição sem objectivo -
comer uma pêra folhear um livro
regar hortênsias arrumar gavetas
queimar um pau de incenso
esperar que a noite desça.
Soledade Santos
O tempo pára feito luz desmesurada
sobrevindo no pinheiro
em vénia longa curvado à terra.
Foram ventos que o dobraram ou propósito
no coração da semente, germinando sonhos
de amor e cavalgadas?
Riem connosco os pardais. Olha-os de cima:
burel de penas, mendicantes, o vivo olhar -
que faz esta alegria
entre as sombras que há na terra?
Já se erguem do rio névoas,
mas sobre nós a luz
e persiste a boca manifesta.
O crescente não fulge ainda,
excepto no teu olhar que a lua circunda.
No mais tudo é solar, e o pinheiro
oferece o tronco a cabeleira em reverência
como se as coisas e as circunstâncias
se dispusessem porque um dia
viríamos juntos os dois.
Soledade Santos
ao João
Abandonado o livro
reflecte na erva o clarão do sol.
A água lucila nos pés da criança
dada à calma. Ela sonha
antes de entrar completamente
no espelho azul.
Recortadas asas de milhafre
planam no alto verão.
Silêncio encrespado
por trinados apenas e lembranças.
Soledade Santos
"Lily, aime-moi..."
Apelo do velho filme invade
o curso vário da lembrança
e altera-lhe o fluxo.
Agora és tu Lily.
E sou eu quem cruza o mar na tua sede eu
sou a aguadeira que desce ao fundo do poço
e recolhe a água num açafate.
Soledade Santos
Quando leio os teus versos acode-me a estranheza
das palavras conduzidas à brancura
pelo exercício difuso da beleza.
E assombrada vislumbro as flores
cujo aroma perdi há muito
despontando em mecanismos
que sempre desconheci.
E onde o verso se alonga sem pressa de pousar
ou a palavra se fixa
como esfera de luz rolando
no eixo da nostalgia -
é aí que coincidimos.
E então tudo vem à superfície
e tudo se hasteia ao vento e eu entendo
que estou de volta e já não preciso
de relógios nem calendários.
Soledade Santos
ao toque terminante saímos todos
apagado o quadro limpa-se o pó de giz nas mãos
e percorrem-se diários corredores
das ternas tarefas sem glória
e lá fora o dia
que esmorece devagar no horário de verão
e uma proposta para sair
fica tão perto a foz é sexta-feira
podemos ver o sol ir-se no mar
através das vidraças tomar um vinho e conversar
há quantos anos nos encontramos
e partilhamos esta garrafa de vinho
sem acrimónia nem paixão
umas quantas simpatias discórdias várias
afluímos dos quatro cantos do país
e é certamente por acaso a nossa reunião
à beira-mar e da idade e de todos os projectos
que iniciámos e deixámos por metade
e também dos sonhos que perseguimos
sem pejo e longe
do fulgor fácil dos primeiros anos
e escurece a lagoa e de longe as ondas batem
para lá do areal do tinir de louças e talheres
se as cristas alcançam o dorso das dunas
brevemente acendem-se ao luar
Soledade Santos
a perfeição é do sol ao vento
tão claro o dia o calor da pedra
na varanda sob os cotovelos
e os cheiros
a pequeno domingo ou feriado
dia em que nada se espera
tempo parado na calma
os cabelos na dança do vento
e a tarde quente na varanda
onde florescem sardinheiras
rua imóvel sob a folhagem
dos sobreiros ao longe a serra
justa moldura do dia
o primeiro deste verão
perfeito igual aos outros
Soledade Santos
Em tempo de acertar contas
reviro as algibeiras
à procura das coisas que eu levei:
coisas bravas de olhar limpo
e a elegia do sangue sob a pele,
viração ligeira de jardim
erguendo poeiras que o sol
perpassava; uma canção,
ou lembrança de havê-la entoado sempre
a teu lado,
e um riso primeiro doirando
a erva célere da tarde
de que trouxe
a beleza friável de flores
secas agora
entre as folhas de um caderno e as palavras
inúteis que depois inventei.
Soledade Santos
distraída folheio o livro de poemas
a capa um pouco partida as folhas
envelhecidas das mãos descuidadas
que foram as minhas há anos atrás
numa das páginas onde secaram
flores de macela de que restam
as manchas amarelas e um vago
cheiro a rio alguns versos cintilam
e nas palavras um pouco ácidas
familiares de as ter entoado
tantas vezes acordam vindos
do passado sons cheiros emoções
tardes de verão no jardim acabado
de regar a caleira transbordando
uma criança a soluçar e a lua
pendurada na janela da cozinha
mas o que busquei no poema
ou as respostas que encontrei não
descubro agora pois das águas fundas
da memória irrompem e rebentam
como bolhas de ar o jardim
o choro a chuva a lua mas quem
os sentiu perdeu-se e eu já não sei
o que me disseram os versos do poema
Soledade Santos
Água e terra tomam-se
na fúria do princípio,
morre-se escondidamente algures
em silêncios que ninguém deplora
e o tempo é de risadas
ígneas sem pudor.
Aqui nada – silêncio da manhã que nasce
como as outras:
doçura envenenada dos dias
e tudo tão quieto excepto
o peito
e o ensaio de um poema.
Não serve para nada o poema:
não resgata não limpa não sara.
Antes um vidro quebrado e o corte
limpo da aresta suja
no centro do peito
ou do mundo.
Soledade Santos
Há dentro de mim uma cidade de avenidas monótonas
onde podes perder-te
que nenhuma se percorre duas vezes igual.
Cobre-a, aos olhos sitiados de angústia,
devagar uma patine ―
escamas cor de rosa, sonhos erodidos, torres
cerces ao chão.
Houve um rio? Jardins? Chuva estival? Uma vontade?
Lua e estrelas desenharam o ciclo das estações?
Esta cidade onde nada contraria a força da gravidade.
Soledade Santos
Encontrámos o alicerce
a pedra do lar e o poço
no espaço improvável
onde os sonhos se tecem
e construímos a casa
palafita aberta
aos rumores do mundo
e julgámo-nos seguros
Deslizou mansamente
sobre traves minadas
a cobertura do tempo
e eram só palavras
armas incapazes
contra as cerejas de Junho
pequenos punhos rubros
da realidade
Soledade Santos
as palavras brilham
mas furtam-se
ficam impassíveis
se as toco
e não vibram se as trago
aos lábios
como folhas vermelhas
dispostas num jardim de areia
reluzem de malícia
Soledade Santos
Canta o granizo na janela
e os fios de água constelam
olhos de vento e de inverno
que jardins breves invadem;
depois somem-se na lembrança – que represo.
Fica esta sala agora aqui:
a janela a mesa livros o esfumado
auto-retrato de um pintor. Muito frio.
E do rádio na cozinha uma cantiga
Santa María, váleme, ai Señor!
de Afonso Dez de Castela.
Soledade Santos
Inspira e fixa-te ao lume familiar:
a planta que junto da mesa se alçou
arbusto em anos de fixidez
à terra exígua do pote
e ao silêncio rosado na casa;
o Modigliani ao alcance dos olhos,
as mãos de Alice vê um dia foram as tuas
assim pousadas sobre um vestido
intemporalmente azul;
o vale flutuante para lá das vidraças
e os sobreiros que podes ouvir
ao vento mas daqui não vês.
E cobrindo tudo
a abóbada da música.
Essa é a moldura estás em casa
agora senta-te e escreve.
Pode ser que o poema venha de soslaio,
rumor meditativo de palavras soltas
chamadas pela ondulação da música
e do vale ao longe. E pode ser
consigas evitar o ponto
em que não deves tocar, esse
onde outras palavras jazem
cheias de fúria e perplexidade.
Soledade Santos
Tantas horas as palavras afloram
os dedos e a comissura dos lábios
e se afogam inseguras no silêncio.
E o tempo vai. Fogachos brilham
e extinguem-se. Extingo-os. Memórias
acutilam a decisão. Repito gestos –
refaço o perímetro do mundo.
Soledade Santos
Outra lua encheu e começa a minguar,
imensa lua de Inverno branca
em desmaiado azul de antemanhã.
Que luz se entranhou nas mãos
e abriu fissuras,
no coração cala o canto
e nos olhos, do choro faz calmaria.
Tão pálida, tão alta. Aprende-se a olhá-la
como fragmento de nós ausente,
espelho de mundo sem espessura.
Uma lua
como se não tornasse a haver Verão.
Soledade Santos
Da janela da cozinha vejo a rua
que sobe desigual cinzenta
como as ruas da minha infância –
de ambos os lados casas
pequenas moradias descuidadas
jardinzinhos
e além das casas o pinhal
e além dos pinhos o céu
Todos os dias paro nesta janela
bebendo chá ou sem pretexto –
e as nuvens passam como
buscando outro hemisfério;
no passeio o bando estrídulo
crianças
uma explosão e cheiros
a mãos sujas de barro e giz
Da janela aberta à luz aos ventos
à lua às linhas
desalinhadas dos dias
sem acidentes nada se evade –
o movimento dos astros é circular
e os gatos que no outro lado
da rua emboscam os pardais
de todas as vezes falharão o salto
Soledade Santos

Gauguin
«Porque la vida es solo
el premio de una apuesta
contra el dolor y el tiempo.»
Felipe Benítez Reyes
As mulheres olham-se no espelho íntimo da tarde
e dizem as palavras simples lancinantes.
Há silêncios feitos de orvalho.
Fogem um momento, vagueiam
para lá da vidraça os olhos, e tocam
os salgueiros a velha praça a fonte o granito o centro.
Emergem os cabelos da memória longos,
risos claros vorazes,
e a ternura, o choro, a escrita, e mais que tudo
a exactidão do entendimento.
Eis-nos em presença – ensaiando futuros
buscando deslaçar as malhas do fugitivo tempo.
Tu traças um desenho na água. De que é feito?
Do teu riso que enfrentou a morte?
Dos teus barcos na madrugada demandando a foz salgada do rio?
Das tuas mãos que vejo sobre a mesa, brancas, infantis
ainda? Mal as pincelou o tempo, e reconheço
claramente as tuas
pequenas capazes mãos. Há tantas décadas…
Eu conto-te
da minha cegueira. Vejo, mas são vagos os meus olhos
e creio que tu o sentes.
Desvendo-te o meu rosto e a aptidão para a vida
perdidos ambos algures, num tempo cego também.
E ainda os anos mornos, sem desígnios,
tempo lento de sobreiros e modestas alegrias.
A falta que me fizeste…
E eu sempre perto
em fuga urdindo estranhas formas de constância.
Soledade Santos
Lua suspensa na janela da cozinha -
miro-a sentada
na pedra do lava-louças que brilha
sob a luz apagada ao clarão
do luar em dourados fugazes.
Tudo aqui se ancora
os objectos a memória
os armários os cactos
no peitoril eriçados de um branco silêncio.
Sem outro fito além de estar
lentamente deixo que o ar saia
e volte voluntariamente omito
meus dóceis perdidos navios.
É fugaz o tempo da lua na pedra.
Soledade Santos
Cada dia: algum oásis luminoso,
e vagas alheadas planuras,
e poços de treva ardente,
e muros de tijolo.
Em cada dia eu sei da morte –
o sobressalto e o consolo.
Soledade Santos
Oiço o grande fragor das pedras que renunciaram a ser inertes
e abrem corações negros como o princípio do tempo.
Mais alto, peço, e a voz da soprano grita pedras pedras
agonia da metamorfose e vai crescendo o som
densíssima muralha de notas de sólidos de arestas agudas
caem não sobem soterram mais alto peço um apocalipse
todo meu que ofusque a violência do luto.
Soledade Santos
Sou as palavras e os segredos que guardei
e um estrito reservar-me nunca soube porquê
se tão completa me entrego as vezes que me entreguei.
Sou a lembrança que se vai diluindo
em olhos que julguei perenes e consanguíneos.
Sou as canções e os poemas e tantas
desperdiçadas luas. E a música e os livros
e uma varanda que um arquitecto desenhou
sem saber que era p'ra mim. E que perdi.
Sou o teu sono, minha Jade, redondo ainda
e já inclinado ao fim. Sou árvores, o rio que amei,
as giestas, uma pouca de terra que o vento dispersa.
Soledade Santos
amanhã talvez amanhã
eu volte a dizer amo-te
e os sons inaugurem
na escassez permitida
o arco voltaico
a insígnia da vida –
um arranhão apenas
de bordas azuis
Soledade Santos
Abrimos caminho para as velhas casas
tal como para as pessoas.
Algumas aceitam-nos e deixam
que desvelemos esconsos
os murmúrios de vida
e a argamassa do tempo.
Quietas por trás das roseiras
parecem dormir.
Mas podem ser os acidentes
visíveis nos caminhos
de quem nunca regressou.
Assim a casa do cimo.
Em volta da mesa da cozinha
sentam-se só mulheres.
E no cheiro da salsa que picamos
miudinha para os ovos verdes
alguma coisa ali se aquieta,
alguma coisa que tem raízes
numa parte ignorada,
numa outra casa onde imperava
sobre um bando de rapazes
uma rapariga que não tinha
mãe irmãs nem primas.
Não se pode mudar de luz
nem outros espelhos além dos primeiros
nos aceitam o rosto.
Mas há casas assim densas
de um calor de estábulo onde os cheiros
e a vibração das madeiras
e a gota que pinga
da torneira mal fechada
nos vestem
contra as injúrias do tempo e o frio
que nem sabíamos sentir.
Soledade Santos
Uma bela prenda de aniversário substitui a anterior edição. Mantêm-se o poema, a fotografia e os comentários. Mas agora o texto projecta-se, tendo em fundo o pinhal que evoca.

Soledade Santos
o amor chegou na madrugada de um dia de semana
veio não de todo imprevisto na crista da insónia
e começou por afectar a disciplina respiratória
depois mudou gestos que a rotina ritmara
e inaugurando silêncios novas escalas de som
hasteou-me no ponto mais alto da levitação
agora tão perfeitamente quanto posso vê-lo
o meu amor é uma transparência incandescente
ou uma nascente e ninguém sabe como começou
Soledade Santos

foto de Miguel Costa
Os ciclos do tempo e a órbita dos planetas trazem
de novo o outono e é como todos os outros —
os da infância seus ventos seus cheiros
a terra úbere, e os da cidade
embaciados lentos.
Os corvos crocitam de novo
ao fim do dia sobre o pinhal as cores
em pastel morno e tudo está
diante da minha expectativa um pouco triste.
Um paladar menos nítido
no saborear dos dias nos compassos
de espera e conjunção
em poemas que já não escrevo
ou raramente.
A doçura de outonos idos é uma cesta de castanhas
para lá do vidro na montra
de uma loja que se enche de poeira
e o desejo mesmo de as comer
vive na lembrança, sobretudo não chega às mãos.
Soledade Santos
Havia uma coisa que doía e eu não podia contar-ta.
Não era a distância que a voz sabe enganar.
Nem, perdidas as folhas, os ramos do choupo,
frágeis gumes de outono, golpes no meu olhar.
Nem céu e serra chamarem-me e ser em vão.
Uma nuvem pousada nos cumes, a mesma nuvem
há dois anos - isso custa. Ouvir rinchar e surgir
o cavalo pigarço, delícia fortuita para o olhar.
As ermas oliveiras, o prado, os pinheiros, tudo o que vejo.
E os jardins também que aqui não há.
Tu sabes, eu tenho este modo costuro padrões,
ligo os fios do tempo e de coisas pequenas,
emolduro o céu, a serra, uma colina de areia,
os dois cavalos que descem o prado, aquele
que relincha e parece puxar a lua atrás.
Eu olho e vejo e digo-te estas coisas. E rimos,
animaizinhos, crianças lascivas desabrigadas
(não são inclinados à melancolia os nossos jardins).
Mas há uma coisa que dói e eu não sei contar-ta:
o baralho está marcado - não temos como ganhar.
Soledade Santos

acordo sem saber o que me despertou
um som é improvável talvez o silêncio
quente da casa talvez o frio buscando
frinchas os dedos aguçados do Inverno
não encontro motivo para ficar desperta
nem razão para voltar
ao aconchego da cama oscilo assim
sonolenta à beira de uma revelação
nos sobreiros lá fora levanta-se o vento
é a voz do desamparo quantas vezes
o dissemos nenhum som
é mais triste na noite do que o vento
soprando lembranças das viagens
sem regresso quase todas as que fiz
caminhos que já não sei
lá fora o vento sopra pudesse eu dormir
Soledade Santos
a casa é uma aguarela
no clarão do crepúsculo
a casa e eu dentro dela
vagando na calma grande
de não estar à tua espera
Soledade Santos
«Si, la tierra está sola, bien sola con sus muertos»
Luis Cernuda
escolheste morrer em setembro
e a terra dava ainda frutos
dizias não era má escolha
para ti que a encontrarias macia
mas é um ofício triste o da terra
e nunca encontrei palavra
que resgate dessa asfixia
nesse ano partiram tantos
da tua geração e eu tardei
em lamentá-los parecia que iam
porque tinhas ido nada mais natural
uma revoada de pardais
fartos das rédeas dos dias
encabritados para voar
mas não foi de todo assim
só para mim e poucos mais
se mudou o curso do universo
nesse verão e bem vês que ainda
estou aqui e em velhos vícios
componho o poema uma atitude
enterro mesmo as mãos no chão
Soledade Santos
Parece inverno chove – a terra triste
como as aves pobres que não migram
como a gamela das ceias comunais
garfos de estanho
o fumo a candeia a pedra negra a casa
de telha vã
Soledade Santos
Sítios de onde olhei estrelas
e foram tantos se os lembrasse –
meridianos da minha vida
um mapa o fio
de Ariane
à primeira das terríveis alegrias.
Desta falésia quantas vezes
barca branca apontada ao sul
estrelas que convocámos
e na proa o braço erguido -
claridade
de um deus gentil meu irmão.
Que é voltar?
Verões foram, arderam
estrelas em mar e céu
extraviou-se a via láctea
e o deus partiu.
Como se nunca houvera existido.
Apelo silente dos fundos do mar
longas plácidas ondas, fosforescências
da vida breve.
Colho o vento o tempo o riso
agudo
de outras crianças pequenas lanças de alegria.
Soledade Santos
eternas são as tardes
em que o cheiro da maresia
encrespa os cabelos molhados
pelo suor amável do dia
e a doçura de alfarrobas
no verniz escuro da vagem
trincada nos lábios é como
outra boca selvagem
Soledade Santos
nos afectos da manhã
nos encontramos
e desvendamos lumes
e arranhões que podem
voltar a sangrar
uma inflexão de voz
o trajecto breve da íris
a mão em volteio de ave
tudo significa e abre
portões ou escassas frestas
e enquanto o sol vai trepando
aos lençóis com a preguiça
de um felino mimado
nas pegadas amarelas
é a voz que reverbera
Soledade Santos
Querido amigo gostava de enviar-te
o canto lavado dos pássaros
nos plátanos de Alcobaça
do mosteiro o silêncio coalhado
no sono púrpura de Inês e Pedro
da luz a mais desvelada, a da Foz
por onde o mar regressa
chapinhado de infância e sal
enviar-te enfim o pequeno país íntimo
adjacente ao litoral do coração
porque um dia entraste na minha casa
e inesperadamente
todas as janelas se abriram
Soledade Santos
Trazemos-te da quinta uma cesta de amoras
aninhadas nos pedúnculos folhas-espinhos.
Sorris da túrgida perfeição e antecipas
com prazer o suco que há-de tingir-te
de roxo os lábios e as mãos vorazes.
Mas as amoras logo te aborrecem,
não te apetecem e o entusiasmo foi breve,
já não podes ir à quinta e nem te alegram
as notícias das árvores transplantadas.
Começaste a falar menos, cansas-te e talvez
já não te interesse o que virá depois,
até a curiosidade pela lavoura do teu corpo cessou.
Ultimamente dei-me conta de que todos falamos menos,
é difícil falar sem projectar o futuro,
para o ano, dizíamos, ou neste Inverno vamos,
mas agora sabemos que te irás com o Verão
e por um pudor desajeitado quase deixámos de falar
como se o mundo se fosse acabar nestas três semanas
que o teu prognóstico desenha.
Ainda disseste precisava de mais um ano,
mas aceitaste o tempo contado sem protestos
e começaste logo a desabitar a casa,
o lugar no topo da mesa,
como um inquilino bem comportado.
Enquanto isso florescem
as árvores que plantaste,
as crianças que geraste dão fruto também
e no silêncio em que te acolhes eu começo a confundir-te
com a terra vermelha do teu último Verão.
Soledade Santos
Joan Miró
Voltei aos jardins mas nem sombra
de nós vi na face das coisas –
somos filhos do instante. E no entanto
que longos me vão os dias.
Por aqui tudo arde. Secretamente.
E uma raposa desceu
das terras altas.
Morde-me os dedos se tento afagá-la.
Soledade Santos
cravei os pés na terra dei fruto
e alimento sonhos alheios:
cada dia devorada.
agora tão exaurida
súbito novembro chega –
passa o vento e é frio.
acenam do sobreiro as miúdas folhas
e só eu as vejo – trama de horas de longes da falta
que um amigo me faz. elas voam
perto as rolas.
e fita-me do parapeito um pardal singular.
Soledade Santos
Também lá se ouviu a cotovia
em manhãs claras e os corvos
à tarde quando sentada
no muro de xisto o calor se casava
aos cheiros da vinha e do milharal.
Era a mesma cotovia estou certa
de antigamente. Os corvos não sei,
presto-lhes agora mais atenção
pois agradei-me da labareda
retinta das penas
entre o verde dos pinheiros e a arruaça
de quem tem o papo cheio.
E à noite chegavam os pirilampos
tão brilhantes como dantes
e o coaxar das rãs na ribeira,
clamores da terra ou de versos
na materna língua que acende o Verão.
Soledade Santos
Talvez precisasses da luz oblíqua
e da esperança incumprida
como outrora da escassa janela
para as divagações nocturnas.
Nada agora diz grande coisa.
Prazer morno encurta os dias
laçados na ciência estrita
dos anos turbulentos idos.
Soledade Santos
Soledade Santos
Não sei como será o poema
que começo a escrever.
Não há intenção definida no gesto
da mão sobre a folha. Há um silêncio
e no corpo da noite a monotonia da espera.
Enquanto demoro o vento chega
enfola a rede na janela e leva
em espiral descendente a folha o poema
começado que fica no chão.
Com o vento vem também a gata os olhos cheios
de mistério viu a lua e perseguiu
na varanda os pirilampos. São coisas assim –
a lua cheia no céu de Junho
um tremor de rio no pulsar
gelado dos pirilampos
a mão em concha e um cheiro
a musgo seco e à pedra que liberta
no frescor da noite o calor
acumulado durante o dia
são essas coisas dizia
vindas dos confins da infância com seu gosto
a lágrimas e a azul talvez feliz
que as mãos do poema anseiam.
Soledade Santos
À Rita, João, Afonso, Catarina, Rafi e Júlia – pela sua ordem de chegada às nossas vidas.

uma criança trepa aos rochedos
para ver o mar
os olhos
não sei que vêem
das cores
a que lhe pinta a bochecha
é a única que eu vejo
inteira
como qualquer coisa
verde um fio
de cabelo
um filho –
será breve
que não seja só
Soledade Santos>
O horizonte abre-se na cal que maio lava
e no entanto o dia é fundo
de armários, invernos e cheiros
a madeira encerada.
No côncavo de maio existem
antigos sons de respiração,
crianças perdidas no escuro
procurando saídas que não encontram
nunca mais. Lembro-me –
eu brincava no vão da escada
e vieram dizer (seria maio
ou julho talvez) a mãe morreu.
Soledade Santos
As palavras são navios e a respiração lhes dá corpo.
Elas florescem nas amarras dos dias tranquilos
e laceram pequenas certezas.
As palavras, à tarde: morno rebanho branco
cintilando na sombra das encostas da serra
– e os olhos passam e desfalecem no velo dócil.
Arde baixo a voz, o dia dividiu-se em antes e depois.
Soledade Santos
Cheira a mar esta manhã,
no céu branco vogam brisas de sal
e lembranças de uma pureza,
de um estar ininterrupto.
Por instantes o sol assoma –
coado por brumas altas revela
traços de cor, marcas de jogos
no alcatrão da praceta.
Todas as janelas estão quietas;
no céu volteiam muito alto pássaros
que planam; do quintal vizinho nem
um pio: as galinhas os perus
os patos e as pombas, esses outros
habitantes do meu bairro
que em tardes morosas embalam ecos
de sestas e dias coloridos, silenciosos
também eles e submersos
na breve eternidade da manhã marítima.
A espaços um crocitar distante.
São os corvos. Perfuram assim
a quietude e centram-me outra vez
no meu destino. Vejo-me
habitante casual, consciência
iluminada por pontes que só
eu atravesso. Que faço aqui?
Tão perto das coisas que as tornei
humildemente minhas: sobreiros,
linha do pinhal que se alteia
sobre a intimidade do vale,
buganvília do jardim projectando-se
para novo esplendor de Abril, e as aves.
Mas de verdade eu não sou daqui.
Nem de sítio nenhum que reste.
A minha rua, esta manhã,
é uma marinha –
fragor e ásperos aromas encrespam
de humidade os cabelos e de ânsias
melancólicas o coração. Mas aqui não chega
o som. Só a neblina
que cheira a sal que lava a rua e empalidece
se o sol desponta. Longe longe
duas crianças sobem a rua, somem-se
na distância. Vão ver o mar
e flutua por instantes o azul
das camisolas iguais –
eram de lã caseira, lembro-me,
e picavam na pele do Verão.
Soledade Santos
primeiro os amigos mudaram de rosto
alguns vieram connosco mas distraídos
e no esporádico da esquina
os filhos cresceram e reproduzem
tão fielmente os rostos que tivemos
de outros mal recordo o nome
e custa quando me ocorre
que um deles foi o primeiro rapaz
que beijei e nem sei já
de que cor tinha os olhos
fútil querer saber de que cor os terá agora
primeiro foram os amigos a mudar de rosto
mas depois as folhas dos sabugueiros
tornaram-se indiferentes também
sobre o rio pendem como dantes
mas pouca aspereza lhes resta
do acre odor a verão
assim se esfarelaram os dias
enquanto nos olhos bebíamos
a seiva que não reverdece
e quase nada acontece agora
se atravessamos a ponte e afundamos
os pés na terra negra dos lameiros
mas nada se perdeu digo-vos
onde havia um muro e um rio
e uma canção de vidro escuro
como rasgões cada pedra ostenta
ecos de risos ímpetos os sulcos
empoeirados do crescimento
e tudo é como foi – imperfeito
e a seu modo permanece
Soledade Santos
A estrada conduz a esta bacia,
o ponto mais baixo da geografia
que abraçam as encostas da serra.
Daqui partem rotas de ascensão
aridez onde inscrevi
pinheiros e rios imaginários,
falsificação de outra natureza.
Mas hoje não subo aos cumes.
Sento-me à beira da lagoa
no cheiro doce que o vento empurra
e toco a água com os dedos,
gesto que é só esse gesto,
não a renda melancólica
de querer estar em outro sítio.
Pois o que há de melhor no mundo –
estar aqui e haver cabelos
e um vento que os ensarilha
soprando sobre eles?
Soledade Santos
Toquei incertamente a brandura
e o que ardia na placidez da tarde – o olhar.
Ah, como Bandeira, minha grande ternura,
mesmo que ninguém precise dela.
Soledade Santos
deram-me o nome
da mãe
da avó
e de outras ancestrais que não conheci
a avó fez jus ao nome
e de Andaluzia onde foi menina
trouxe a espantosa solidão
da cama desabitada
dos filhos
perdidos
na guerra
a mãe foi artesã
da alegria
(da minha – não da sua)
e passou breve
cisne ao sol
sacrificado
e agora
eu herança
no longe dos seus olhos
Soledade Santos
em louvor de Bernardim Ribeiro
a única verdade é a linha que puxo na extremidade da agulha
ponto a ponto desenho
a paciência refaço os gestos
das minhas avós
quantas coisas se passavam na cabeça das mulheres em seu estrado
em seus olhos dobrados
e eu que nunca tive
paciência
mas quem fui bem vedes que o não sou já
e pois que não tenho armas para ofender
faço desenhos de flores brilhantes com linhas
de seda paciente
é tudo o que posso fazer
com os olhos dobrados
na noite
que não pára de crescer
Soledade Santos
vamos deixar que esta chuva caia
tal como chegou em pleno verão
a gata desce do telhado bate a gateira
e o aguaceiro que se atrasava em cheiros
crepita agora em cortina densa
sentada no chão de pernas cruzadas
junto às vidraças riscadas de chuva
instala-se uma dor de cabeça vaga
e nos pés o lucilar
da lixa molhada da língua
a mão repousa no pelo
e os olhos de jade reflectem
a calma tamborilante
das vidraças e a distância
reverente que a chuva impõe
os sons induzem à meditação
regulares e opacos compõem
o contracanto da respiração
e começo a fechar os olhos
dou início ao relaxamento
mas na têmpora a dissonância
um nó de angústia encravado
regressa digo-me ao canto
da chuva segue o cordão
inútil já perdi
a concentração e há demasiadas coisas
no limiar dos olhos virados para dentro
voltemos então ao princípio:
o céu escureceu e ouviu-se o vento nos sobreiros
depois vieram as gotas os cheiros
a dor de cabeça e por fim
os sons embaciados
do aguaceiro que já passou
Soledade Santos