Braque, ilustração para Lettera Amorosa, de René Char
Aqueles que partilham lembranças
regressam à solidão, mal o silêncio se instala.
A erva que os aflora desponta da sua fidelidade.
Que dizias tu? Falavas-me de um amor tão longínquo
Que remontava à tua infância.
Tantos estratagemas a memória tece!
René Char (tradução minha)
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L'ORDRE LÉGITIME EST QUELQUEFOIS INHUMAIN
Ceux qui partagent leurs souvenirs,
La solitude les reprend, aussitôt fait silence.
L´herbe qui les frôle éclôt de leur fidélité.
Que disais-tu? Tu me parlais d'un amour si lointain
Qu'il rejoignait ton enfance.
Tant de stratagèmes s'emploient dans la mémoire!
René Char, Les Loyaux Adversaires
de todos os fulgurantes encontros que a vida me proporcionou.
doação
para Soledade
nunca te pensei porto para rotas
embarcações apenas caminho
compartilhado nunca te
quis guia dos meus inúteis
combates comigo
mesmo somente par nas
incompreendidas
saudades
havia tanta coisa a
fazer nesta terra
inclemente de mãos
dadas e quando a
noite se desfez nossas
frágeis palavras enfim encheram
se de
asas
oferecem-me poemas.
ESBOÇO
Às vezes queima incenso,
ouve música indiana, acende velas,
e há baunilha na entrada para quem
chega do mundo.
No crepúsculo vago da casa
um fluido plana,
e assim tudo parece em ordem.
Talvez o fluido seja o espírito
que diz sentir em si,
por dentro do silêncio do yoga,
Mahadev sentada num asana,
abstraída da infância e do futuro.
Só quando o telemóvel dá o alarme
e sobe as gelosias automáticas
é que a luz do ocidente
invade em vagalhões a casa,
e carros e aviões passam na sala,
destruindo o CD, o incenso, as velas,
já Madahev vai de regresso à Europa,
na bolsa um manual
de guerrilheiro urbano sem saída
e decretos que matam de revolta.
ng
Alfredo Zalce
É tua filha, não é? Reconheci-a
pela estrela fugaz que há nos seus olhos,
a cabeça inclinada e a maneira
tão tua, de fitar cheia de assombro.
É tua filha, não é? Intuíram-no
– de tão fundo! –
certos ventos calados que dormiam
sob as águas sossegadas, no poço
dos tempos perdidos, onde guardo
as folhas que tombaram
dos salgueiros remotos.
Ostenta luz na fronte
– a tua luz. – E o gesto melancólico.
O pescoço frágil como era o teu
e no cabelo os mesmos
pássaros loucos.
Guarda um vento do passado entre os dedos,
e no rosto…
a tua assinatura
escrita num sangue
que desconheço.
Torcuato Luca de Tena (tradução minha*)
VIENTO DE AYER
¿Es tu hija, verdad? La he conocido
por la estrella fugaz que hay en sus ojos,
la cabeza inclinada y la manera,
tan tuya, de mirar llena de asombro.
¿Es tu hija, verdad? lo han presentido
– desde tan hondo! –
unos vientos callados que dormían
bajo las aguas quietas, en el pozo
de los tiempos perdidos, donde guardo
las hojas que cayeron
de los sauces remotos.
Tiene luz en la frente
– tu misma luz –. Y el gesto melancólico.
Tiene el cuello tan frágil como tú lo tenías
y en el pelo los mismos
pájaros locos.
Tiene un viento de ayer entre los dedos,
y en el rostro...
tu firma escrita
con otra sangre
que no conozco.
Torcuato Luca de Tena, España, 1923-1999
[* Esta tradução foi primeiro publicada na revista Ilha Negra, nº 2]
à volta de Álvaro de Campos
Nunca encontrei um homem que me quisesse
tal como sou e não tentasse de algum modo
afeiçoar-me à anti imagem da mãe, da primeira
namorada ou do melhor amigo.
Será uma acusação injusta esta que faço, mas
nem por isso menos verdadeira (que justiça e
verdade não se equivalem) e dos homens
que conheci todos a merecem.
Rasguei por isso as fotografias e as cartas de
amor, deitei fora bilhetes de concertos em que
trancei iniciais, sinais que já não decifro
e sobretudo não guardei poemas.
Haverá um homem que embarcasse avisado
neste navio por fabricar e tinisse sombras
quando tivesse nos braços o meu espaço deserto
de sentir e nunca ser?
Não há, bem me parecia, então não me aborreçam,
como outros eu também nunca fui de companhia
e está um bonito sol para escrever poemas e para
plantar uns bolbos de tulipa.
Eugénia de Campos (poema revisto)
à volta de Álvaro de Campos
Um sol claro chegou hoje à minha varanda
e trouxe os gatos dos buracos onde entretêm o tédio.
Fitam-me e os olhos alaranjam.
Ah, os gatos reconhecem-me clandestina-pessoa
e predar-me-iam
se eu não fosse tão maior que eles.
Agora estiram-se, enroscam-se, estilizações kitsch
como em postais ilustrados de Grécia e Malta
de onde o Mediterrâneo inteiro se escapou
vertendo a saudade cor de vinho de Odisseu
e um barco entristece, levemente imóvel,
no porto inútil de sermos aqui.
Pensando nisto, parece-me que faço versos realmente confortáveis,
destes em que nada se tem para dizer,
destes que melhor seria escrever no dia seguinte,
na vida seguinte,
e a verdade está toda fora deles.
Pois na verdade não há gatos,
não há sol, não há varanda,
na verdade, e para lá dela,
só Eu,
filha trânsfuga da ausência,
e o pavor frio nas entranhas, de que o universo seja a criação loquaz
de mim
de mim
de mim…
Plop!
Como um placebo que não alivia senão por não sabermos que é placebo,
a gata cinzenta salta do telhado
e desenha, em torno dos meus pés, a certeza de que existe
sem que eu lhe seja necessária à evidência.
James Pitts
I
monólogo
para Soledade
4 ou 5 versos sem
destino o vão
resvalar dos lábios no
nada
minha ternura toda
desperdiçada
Adair Carvalhais Júnior
II
trégua
para Adair
direi outra vez do vazio
dia cheio de amorosa luz
e o silêncio
onde dissonância
nenhuma rompe
a seda altera
a respiração
do mundo o caos
mas hoje
não
fictício
equilíbrio em que me fixo
só
Soledade Santos
Nunca encontrei um homem que me quisesse
tal como sou e que não tentasse de algum modo
moldar-me na anti imagem da mãe, da primeira
namorada ou do melhor amigo.
Será uma acusação injusta esta que faço, mas
nem por isso menos verdadeira (que justiça e
verdade não se equivalem) e dos homens
que conheci todos a merecem.
Rasguei por isso as fotografias e as cartas de
amor, deitei fora bilhetes de concertos em que
entrelacei iniciais, sinais que já não decifro
e sobretudo não guardei poemas.
Haverá um homem que embarcasse avisado
neste navio por fabricar e que tinisse sombras
quando tivesse nos braços o meu espaço deserto
de sentir e nunca ser?
Não há, bem me parecia, então não me aborreçam,
como outros eu também nunca fui de companhia
e está um bonito sol para escrever poemas e para
plantar uns bolbos de tulipa.
sobrinha-neta de Álvaro de Campos
A VARANDA
Devia pôr a máquina da roupa a lavar,
regar as sardinheiras,
fazer uma refeição decente, enfim,
alguma coisa útil ou sensata.
Mas estou sentada na varanda
a pensar em nada. Na varanda,
a querer ser o lá fora, o dia
que desliza em mágoas de partida.
Choveu há pouco. Os charcos
povoam-se de estridência
quando as crianças
da vizinhança saem
em bandos de humanidade voraz.
Também havia charcos na minha infância.
Com salamandras.
Se lhes abríamos os ventres, revelavam
as crias em transparências cegas
e movimentos débeis.
Crocantes como arroz tufado sob o calcanhar da sandália.
E a noite cai lenta,
padece da minha imobilidade,
do meu desejo oblíquo. Espero-a
na varanda, entre charcos e brumas
e jogos agudos de crianças crocantes.
Ó noite, vem trazer-me o silêncio,
o cansaço insone,
a angústia confortável de saber
o amanhã igual a hoje, na varanda,
cais aberto a não partir.
Eugénia de Campos