julho 20, 2008

Où que me porte mon voyage


Poeme de Giorgos Seferis , em tradução francesa, dito por Mélina Mercuri

Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse
À Pilion parmi les oliviers
la tunique du Centaure
glissant parmi les feuilles
a entouré mon corps
et la mer me suivait pendant que je marchais

Où que me porte mon voyage, la Grèce me blesse

À Santorin en frôlant
Les îles englouties
En écoutant jouer une flûte parmi les pierres ponces
Ma main fut clouée à la crête d'une vague
Par une flèche subitement jaillie
Des confins d'une jeunesse disparue

Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse

À Mycènes
j'ai soulevé les grandes pierres
et les trésors des Atrides
j'ai dormi à leurs côtés à l'hôtel de "La Belle Hélène"
ils ne disparurent qu'à l'aube lorsque chanta Cassandre
un coq suspendu à sa gorge noire
Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse

À Spetsai, à Poros et à Mykonos
les barcaroles m'ont soulevé le coeur

Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse
Que veulent donc ceux qui se croient à Athènes
ou au Pirée
l'un vient de Salamine
et demande à l'autre
s’il "ne viendrait pas de la place Omonia"
"non, je viens de la place Syndagma"
répond-il satisfait
"j'ai rencontré Yannis
et il m'a payé une glace
Pendant ce temps la Grèce voyage
et nous n'en savons rien
nous ne savons pas que tous nous sommes marins sans emploi
et nous ne savons pas combien le port est amer
quand tous les bateaux sont partis
Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse

Drôles de gens
ils se croient en Attique
et ne sont nulle part
ils achètent des dragées pour se marier
et il se font photographier
l'homme que j'ai vu aujourd'hui
assis devant un fond de pigeons et de fleurs
laissait la main du vieux photographe
lui lisser les rides creusées
de son visage
par les oiseaux du ciel
Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse

Pendant ce temps la Grèce voyage
voyage toujours
et si la mer Egée se fleurit de cadavres
ce sont les corps de ceux qui voulurent rattraper à la nage
le grand navire
Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse

Le Pirée s'obscurcit
les bateaux sifflent ils sifflent sans arrêt
mais sur le quai nul cabestan ne bouge
nulle chaîne mouillée n'a scintillé dans l'ultime éclat
du soleil qui décline
Où que me porte mon voyage, la Grèce me blesse

Rideaux de montagnes archipels
granites dénudés
le bateau qui s'avance s'appelle
Agonie...

Georges Seferis, tradução de Jacques Lacarrière e Egérie Mavraki

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julho 09, 2008

Because of a few songs

boile-76.jpg

Lembrando enternecidamente


Também aqui


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junho 24, 2008

Profundamente

estrela-bandeira.jpg

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala.
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente

                     *

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Pofundamente.


Manuel Bandeira, Libertinagem, em Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993

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maio 15, 2008

Cheguei a ter medo

Cheguei a ter medo de te perder,
tu não chegaste sequer a ter medo.
Este silêncio de já não termos palavras
ouve-se nas outras palavras que trocamos.

Miserável mundo nosso e alheio,
igual ao que todos disseram da sua época,
e pior, porque este vivemos nós
e conhecemos nós, cada um conforme pode.

Já morrerem os ídolos todos da infância
e os da adolescência vão a caminho,
sobrevivente é o teu olhar cego
(hoje há já só um dos Righteous Brothers).

Na feira de velharias uma caixa
para tabaco com uma rosa verde.
Tem o preço ainda em escudos, uma falha
num dos cantos, uma pequena cruz de cal.

Permaneces aí, à lareira, lendo livros vivos
e o seu turbilhão de palavras profundas.
Nunca mais chega o medo de nos perdermos,
eco um do outro em ricochete de silêncios.

Helder Moura Pereira, Mútuo Consentimento, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005


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maio 07, 2008

Inigi

delacroix-retrato.jpg
Eugène Delacroix

Um corpo tem a lembrança excessiva de outro corpo
um corpo já não tem imaginação
não tem paciência com nenhum outro corpo

Henri Michaux, Inigi, em A Rosa do Mundo, Assírio & Alvim, 2000



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abril 15, 2008

tudo começa

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                                           Roteiros ― Escrever, Viajar e Morrer com os Gregos

«Tudo começa na margem do continente de onde vão partindo os filhos com o fogo materno, onde esperam regressar um dia ainda que, por vezes, mal amados e acolhidos. Tróia, os excelentes heróis, o cansado Ulisses com um roteiro de regresso imenso, mapa imaginário das primeiras aventuras pelo Egeu, Mediterrâneo ou Atlântico e, contudo, uma recepção fria. Tróia, ainda, dos poetas sem escrita e sem sono, de prodigiosa memória, bastidor de imaginação, cédula essencial do passado, relato urgente e conciso das origens, a requisitar, no dealbar da época arcaica. E os outros sábios, parentes dos xamanes mais antigos, não gregos...
Ainda o tema da viagem, excursão da alma numa flecha, numa ave, e o regresso excelente, prestigiado, pelo desvelar do passado, do presente ou do futuro. Sempre através do aforismo, da poesia, um relato-mistérico.»

                                                                                                                        José Augusto C. Ribeiro Graça - Biblioteca Digital, FLUP

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janeiro 14, 2008

tanka

Hiroshi-Watanabe_Kabuki.JPG
                                            Hiroshi Watanabe


Se esse que esperei
viesse ainda, o que faria?
Este jardim cheio de neve
é demasiado belo
para ser pisado agora.

Izumi Shikibu (974?-1034?) in O Japão no Feminino I, Tanka, Séculos IX a XI, organização e versão portuguesa de Luísa Freire, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007


Izumi Shikibu viveu no período Hein, o mais florescente da literatura e da arte japonesas, que se estendeu do século VIII ao século XII. Com Ono Komachi (834?-?), é uma das escritoras mais brilhantes desse período, tendo tido, como pode ler-se na Introdução a esta colectânea, «um papel decisivo na fixação do japonês como língua poética e também na divulgação da uma forma principalmente feminina - o tanka (...).»

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janeiro 11, 2008

O rasto da madrugada

Josef Sudek, Misty Morning, Prague, 1946.jpg
                                                                                                                  Josef Sudek

Madrugada

uma qualquer
de entre muitas

a chuva feriu a pele das paisagens adormecidas
passou por aqui quase como uma miragem
mas deixou nódoas de desespero por toda a parte

agora afastou-se
libertou um punhado de estrelas
e deixou respirar as florestas distantes

porém
o ténue brilho dos objectos molhados
reflecte o espectro de uma lenta rendição

existe no ar um cheiro estranho
a terra ensopada crava o seu odor
nas almas já então enlameadas
os olhares cambaleiam na berma dos precipícios
as vozes de revolta são abafadas
pelas muralhas do universo

por todo o lado surgem balas
apontadas aos peitos descobertos

Paulo Tavares, Pêndulo , Quasi Edições, 2007

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dezembro 03, 2007

Fim

zhang_xiaogang_sem_titulo.JPG
                                                      Zhang Xiaogang (sem título)

Talvez no inverno
me tenhas oferecido uma pedra,
acesa, tão acesa que a guardava
ora na mão esquerda, ora na outra.

Viraram-se os dias como páginas,
e a pedra, pouco a pouco, congelando.
O que as minhas mãos juntaram
acabou por ser apenas sombra.

                  Yao Feng

Yao Feng nasceu em Pequim, em 1958. Poeta bilingue, escreve em chinês e em português. Vive em Macau desde 1992 e é o principal tradutor de Fernando Pessoa para chinês.


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novembro 27, 2007

Da poesia e dos amigos

                       menino-sua-mae.JPG

No sábado estarei aqui. E será uma alegria - porque os sonhos permanecem.


No dia 6 de Dezembro gostaria de estar aqui:
pendulo_convite.JPG.
E o prazer não seria menor - porque as esperanças se estão cumprindo.


Publicado por sol em 10:53 PM | Comentários (3)

novembro 11, 2007

Há quase um ano

Há quase um ano não escrevo.
Pesada, a meditação
Torna-me alguém que não devo
Interromper na atenção.

Tenho saudades de mim,
De quando, de alma alheada,
Eu era não ser assim,
E os versos vinham de nada.

Hoje penso quanto faço,
Escrevo sabendo o que digo...
Para quem desce do espaço
Este crepúsculo antigo?


Fernando Pessoa, 23/05/1932



Publicado por sol em 12:32 PM | Comentários (11)

outubro 21, 2007

mais avec élégance


AVEC ÉLÉGANCE

Se sentir quelque peu romain
Mais au temps de la décadence
Gratter sa mémoire à deux mains
Ne plus parler qu'à son silence
Et
Ne plus vouloir se faire aimer
Pour cause de trop peu d'importance
Etre désespéré
Mais avec élégance

Sentir la pente plus glissante
Qu'au temps où le corps étais mince
Lire dans les yeus de ravissantes
Que cinquante ans c'est la province
Et
Brûler sa jeunesse mourante
Mais faire celui qui s'en dispense
Etre désespéré
Mais avec élégance

Sortir pour traverser des bars
Où l'on est chaque fois le plus vieux
Y éclabousser de pourboires
Quelques barmans silencieux
Et
Grignoter des banalités
Avec des vieilles en puissance
Etre désespéré
Mais avec élégance

Savoir qu'on a toujours eu peur
Savoir son poids de lâcheté
Pouvoir se passer de bonheur
Savoir ne plus se pardonner
Et
N'avoir plus grand chose á rêver
Mais écouter son coeur qui danse
Etre désespéré
Mais avec espérance.

Jacques Brel

Publicado por sol em 10:13 PM | Comentários (17)

outubro 16, 2007

Déclarer son Nom

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                                                      Manuscrito e aguarela de René Char


Publicado por sol em 08:12 PM | Comentários (9)

setembro 20, 2007

Poema VIII

Publicado por sol em 09:33 AM | Comentários (9)

julho 27, 2007

Madrugada

Acorda-se ao som estridente
Dum galo a cantar ao longe,
Depois abrem-se as cortinas
Para ver as nuvens que voam -
E sente-se a estranheza de ter
Como elas o coração frio e sem amor.

Philip Larkin, Uma Antologia, trad. de Teresa Guerreiro, Editorial Minerva, Lisboa, 1989


Publicado por sol em 11:28 PM | Comentários (4)

maio 21, 2007

Ventanas

Kimberley Campbell -Ascension.JPG


¿No es éste un viaje
también — tan sólo — por tu mirada?
Mira: toda la ciudad enfrente
miope
con sus oscuras antiparras de niebla.
¿O será que respiro
tan cerca
que te mancho los ojos?
Quiero escribir en el cristal "Te quiero"
¡pero toda la ciudad se enteraría!

José Gorostiza, Muerte sin Fin y Otros Poemas, São Paulo / México, Editora da Universidade de São Paulo / Fondo de Cultura Económica, 2003


Publicado por sol em 11:50 PM | Comentários (5)

maio 01, 2007

[vi]

           canova_1787.jpg
                                                                      António Canova, 1787

já que sentir é primeiro
quem presta alguma atenção
à sintaxe das coisas
nunca há-de beijar-te por inteiro;

por inteiro ensandecer
enquanto a Primavera está no mundo
o meu sangue aprova,
e beijos são melhor fado
que sabedoria
senhora eu juro por toda a flor. Não chores
– o melhor movimento do meu cérebro vale menos que
o teu palpitar de pálpebras que diz

somos um para o outro: então
ri, reclinada nos meus braços
que a vida não é um parágrafo

E a morte julgo nenhum parêntesis

e. e. cummings, xix poemas, trad. de Jorge Fazenda Lourenço, Assírio & Alvim, Col. Gato Maltês, Lisboa, 1991

Publicado por sol em 01:34 AM | Comentários (6)

abril 20, 2007

5 blogues que fazem pensar

                           thinkingbloggerpf8.jpg

A Luísa R. distinguiu o Nocturno com Gatos com este galardão. A mim apetecia-me retribuir-lhe o prémio, por qualquer dos seus dois blogues, espaços de um bom gosto raro, mas o espírito do jogo determina que o faça seguir. Não é fácil escolher apenas cinco blogues. Teria sido simples há dois ou três anos, quando a minha actividade blogueira era mais empenhada e regular e os círculos em que navegava se interseccionavam.

De facto, parece que os blogues que mais me fizeram pensar - talvez porque o meu tempo de pensar diante de um ecran de computador tinha então outra qualidade - ficaram no passado. E muitos já não existem. Tudo era então (ou eu o sentia assim) inaugural.

Procurei nos "perdidos" da rede e encontrei vestígios de alguns deles. Como a escrita delida em cartas antigas - imagens, comentários e templates corrompidos, mesmo os daqueles de que guardei arquivos - eles emergem da memória fugaz da rede.

Por ordem alfabética, três blogues idos e dois blogues vivos a que atribuo o Thinking Blogger Award:

A Sombra do Sol
Um blogue colectivo iniciado em 2003 com uma turma de alunos que acompanhei do 10º ao 12º Ano e cujo nome nasceu de uma piada privada. Não podia adivinhar então, mas os dois anos durante os quais A Sombra do Sol se manteve como um projecto de aprendizagem, de liberdade e de convívio foram um canto do cisne.


O Homem é uma paixão inútil
Foi um blogue efémero. Mas a qualidade dos textos que publicou e a descoberta de afinidades e gostos partilhados constituiram uma espantosa revelação. Deu-me a conhecer George Steiner, um encontro cuja fulgurância perdura.


Ossa et Cinera
Um projecto de quatro jovens poetas (então estudantes da Universidade Nova de Lisboa), com o brilho, a generosidade e o desejo de inovar que só certa juventude tem. Um Cenáculo. Foi um privilégio ler-lhes a poesia durante o tempo em que o blogue manteve a espantosa energia criadora.


O quarto blogue que escolho é muito jovem - participa dessa voz primacial que referi acima. E cheira a terra fresca, à neve e ao lume em seu tempo, e às flores silvestres, vinda a Primavera. Ali, as árvores falam e dizem as coisas sábias que as árvores dizem: é A voz da romãzeira


O quinto blogue move-se ao ritmo nostálgico e compassado dos comboios. Cheio de maravilhas, faz jus ao dito de Steiner, segundo o qual deus vive no pormenor: Caminhos de Ferro Vale da Fumaça

Adenda: Uma palavra amiga ao Groze, um agradecimento pela lembrança que me surpreendeu e alegrou. E ao terrear, para que - roubando-lhe a epígrafe - não desistamos de inventar dias mais claros.

Publicado por sol em 02:04 AM | Comentários (18)

abril 01, 2007

Allégeance

                                                        
          poema dito por René Char

Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n'est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l'aima?

Il cherche son pareil dans le voeu des regards. L'espace qu'il parcourt est ma fidélité. Il dessine l'espoir et léger l'éconduit. Il est prépondérant sans qu'il y prenne part.

Je vis au fond de lui comme une épave heureuse. À son insu, ma solitude est son trésor. Dans le grand méridien où s'inscrit son essor, ma liberté le creuse.

Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n'est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l'aima et l'éclaire de loin pour qu'il ne tombe pas?

René Char, Fureur et Mystère, Gallimard, 1962


                                                           CONSOLAÇÃO

Nas ruas da cidade caminha o meu amor. Pouco importa aonde vai no tempo dividido. Já não é o meu amor, todos podem falar-lhe. Ele já não se recorda. Quem de facto o amou?

Procura o seu igual no voto dos olhares. O espaço que percorre é a minha fidelidade. Ele desenha a esperança e ligeiro despede-a. Ele é preponderante sem tomar parte em nada.

Vivo no seu abismo como um feliz destroço. Sem que ele saiba, a minha solidão é o seu tesouro. No grande meridiano onde inscreve o seu curso, é a minha liberdade que o escava.

Nas ruas da cidade caminha o meu amor. Pouco importa aonde vai no tempo dividido. Já não é o meu amor, todos podem falar-lhe. Ele já não se recorda. Quem de facto o amou e de longe o ilumina para que não caia?

René Char, Fúria e Mistério, Tradução de Yvette K. Centeno, Edições Cotovia, Lisboa


Publicado por sol em 12:14 AM | Comentários (16)

março 05, 2007

Kerouac

Que eu não sabia ter escrito haiku, alguns dos quais pude ler nesta selecção e tradução do mexicano Fernando Cantú Jauckens. Instantes de desolada belleza lembra-me as pinturas de Hopper, a melancolia, um vazio, o sentimento do transitório: algo passa – ou passou – sem remédio.

1
Una flor
al lado del risco
Se inclina ante el cañón

2
Cruzando el campo de futbol
al regresar de su trabajo
el solitario hombre de negocios

3
Ningún telegrama hoy
— Sólo cayeron
Más hojas

4
Chicas preciosas corren
y suben los escalones de la biblioteca
Con sus shorts puestos

5
Un toro negro
y un pájaro blanco
Parados juntos en la playa

6
Los grillos — lloran
por la lluvia —
¿De nuevo?

7
La silla de verano
meciéndose sola
En la ventisca

8
Una rosa blanca
salpicada de rojo — ¡O
la cereza de un helado de vainilla!

9
Descalzo junto al mar
me detengo para rascarme un tobillo
Con el dedo gordo del pie

10
Mañana de octubre fría y quebradiza
— los gatos peleándose
En las hierbas

11
Las estrellas corren
con rapidez
A través de las nubes

12
El sonido del silencio
es toda la instrucción
Que recibirás

13
Hombre muriéndose
Luces del puerto
Sobre agua quieta

14
Autobús Greyhound,
fluyendo toda la noche,
Virginia

15
Por siempre y por siempre
todo está bien —
bosques de medianoche

16
Bebiendo vino
— la Reina de Grecia
en una estampilla postal

17
Bach a través
de una ventana abierta
los pájaros guardan silencio

18
Mañana fresca y con brisa
— el gato retoza
Sobre su lomo

19
Solo, en ropas
viejas, bebiendo vino
Bajo la luna

20
Mirándose mutuamente,
Ardilla en la rama,
Gato sobre el césped

21
Invierno — ese
nido de golondrina
Aún vacío

22
Mucha bebida & fiestas
de piano — llegó

23
El hijo empaca
sin hacer ruido mientras la
Madre duerme

24
Cierra los ojos —
El rentero llama
A la puerta trasera


Jack Kerouac, Instantes de desolada belleza (tradução e selecção de Fernando Cantú Jauckens in Con|fabulário)

Publicado por sol em 11:26 AM | Comentários (12)

fevereiro 18, 2007

El hombre prevalecerá sobre todas las angustias, dice William Faulkner

Sobre la angustia de un amanecer
              donde no estás.
Sobre el blanquísimo sol
             y la dolorosa penumbra cuando llueve.
Sobre la angustia de los cómplices
             traidores.
Sobre el golpe de las gotas
             en el fondo.
Sobre la angustia del lazo
             y las correas.
Sobre el más lento redoblar
             de las campanas.
Sobre la angustia de los cielos
             perdidos.
Sobre vicios y bondades y
             desesperanza y melodías.
Sobre colmos y mañanas
             el hombre será más que silencio.
Sobre la angustia de su propio miedo
             prevalecerá.


Edel Morales, publicado em Malabia


Publicado por sol em 12:24 AM | Comentários (8)

janeiro 28, 2007

Lendo Horácio

Nem o próprio dilúvio
Foi eterno.
Um dia as negras
Águas partiram. Mas como,
É verdade, houve poucos
Sobreviventes.

Bertolt Brecht, Poemas, tradução, selecção, estudos e notas de Arnaldo Saraiva, Campo das Letras, Porto, 1998

Publicado por sol em 05:20 PM | Comentários (17)

janeiro 24, 2007

solidão

a cidade entupida de clarões e
estridências insiste em não
dormir aos

poucos invade meu
corpo minhas

horas
frágeis

a cidade imunda e sempre
cheia de coisas muito
pouco importantes usurpa meus

dias e ninguém
mais

meus

poemas


Adair Carvalhais Júnior

Publicado por sol em 10:51 PM | Comentários (5)

dezembro 20, 2006

Aimer, le dire

olhar.JPG


Aimer c'est la peur
Que d'un mot l'on décale

Pour ne pas laisser

L'indifférence ôter
Briser tous nos rêves.

         * * *

Aimer c'est entrer

De plain pied
Dans un fait de lenteurs

De silences
Et de choix

Solitaire.

        * * *

C'est céder à ses sens

Regarder
Devenir

Le corps alors

Incandescent.


Émeric de Monteynard, Aimer, le dire (extraits)


Publicado por sol em 01:36 AM | Comentários (12)

dezembro 04, 2006

À luz clara

À luz clara tudo arde
Mas não pode ser só isto.

Arsenii Tarkovskii, «8 ícones» (fragmento), Col. Gato Maltês, Assírio & Alvim, Lisboa, 1987

Western_Motel.JPG
Edward Hopper, Western Motel

Early_Sunday_Morning.JPG
Edward Hopper, Early Sunday Morning

Morning _Sun_1951.JPG
Edward Hopper, Morning Sun

Publicado por sol em 12:35 AM | Comentários (19)

novembro 26, 2006

Galáxia

barred spiral galaxy ngc 1300.JPG


Dans nos ténèbres, il n'y a pas une place pour la Beauté.
Toute place est pour la Beauté.

René Char, Feuillets d'Hypnos

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novembro 14, 2006

Plena luz

cabeco-de-sao-cornelio.JPG
Cabeço de São Cornélio

Fotografia que o amigo Zef me enviou, com os seguintes dizeres:

«Não é dos Candeeiros, mas do Cabeço de São Cornélio, ao lado de Dirão da Rua, mesmo pertelinho do Sabugal.»

Ditosos olhos! Bem-haja, Zef. Dias felizes, muitos, que amanhã se comemoram!

Publicado por sol em 04:31 PM | Comentários (12)

outubro 10, 2006

herança

meu mundo recende a
pólvora e fumaça ao
meu redor os
gritos continuam
aumentando os

desertos

meu mundo devasta a
pele faz a vida
morrer em cada
dia ceifa todos os
dias

cada vez mais
áridos vazios sem
lugar

meu mundo e meus
poemas

Adair Carvalhais Júnior


Publicado por sol em 08:29 PM | Comentários (12)

setembro 16, 2006

Ó excesso puro!

castanheiro_2005.JPG
Castanheiro seco, Sabugal, 2005

A árvore é mais alta que ela própria, a árvore supera-se a si própria – por isso ela é tão alta. Uma dessas criaturas com as quais Deus, felizmente, não se preocupou, (elas tomam conta de si próprias) e sobem na direcção dos céus.

Rilke/Pasternak/Tsvétaïeva, Correspondência a Três, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006


Publicado por sol em 04:12 PM | Comentários (23)

julho 25, 2006

Há Dias

angelo de sousa.JPG


Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo nos cai
em cima. Depois
ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam.
Não lhes sei o nome. Uma
ou outra parece-se comigo.
Quero eu dizer: com o que fui
quando cheguei a ser
luminosa presença
da graça,
ou da alegria.
Um sorriso abre-se então
num verão antigo.
E dura, dura ainda.

Eugénio de Andrade, Os Lugares do Lume, Fundação Eugénio de Andrade, 2ª ed, 1998

Publicado por sol em 12:04 AM | Comentários (18)

julho 01, 2006

Único consolo

Thoreau ainda podia contar com a floresta de Waldau - mas onde está hoje a floresta na qual o ser humano prove que pode viver livre, e não limitado pelos rígidos moldes da sociedade?

Sou obrigado a responder: em parte alguma. Se desejo viver livre, é por enquanto necessário que o faça no interior desses moldes. Sei que o mundo é mais forte do que eu. E para resistir ao seu poder só me tenho a mim. O que já não é pouco. Se o número não me esmagar, sou, também eu, um poder. E enquanto me for possível empurrar as palavras contra a força do mundo, esse poder será tremendo, pois quem constrói prisões expressa-se sempre pior do que quem se bate pela liberdade. E no dia em que só o silêncio me restar como defesa, então será ilimitado, pois gume algum pode fender o silêncio vivo.

É este o meu único consolo.

Stig Dagerman, A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Fenda Edições & Norstedts Förlag, Lisboa, 2004

Publicado por sol em 06:12 PM | Comentários (8)

maio 16, 2006

confissão

Odile Redon _Les yeux clos.JPG
Odile Redon, Les yeux clos

confissão

todo poema é um risco
lançado sobre o
nada todo
poema ceifa completamente o
corpo

em cada angústia
vespertina arrisco todos
meus poemas naufrago na
carne
devastada

Adair Carvalhais Júnior, Desencontrados Ventos


Publicado por sol em 10:13 PM | Comentários (20)

abril 30, 2006

Do Esquecimento

AngeloSousa.JPG


Oh circe circe de lentas folhas
faz do esquecimento o brilho furtivo das maçãs
a pequena orgia da chuva na vidraça
os dentes miúdos da carícia.

Eugénio de Andrade, Véspera de Água, Editorial Inova, Porto, 1973

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março 29, 2006

Imagens que passais pela retina

Às vezes penso que se tivesse de escolher um só poema...


                    Isabel Munuera.jpg
                                                                                                       fotografia por Isabel Munuera


     Imagens que passais pela retina
     Dos meus olhos, porque não vos fixais?
     Que passais como a água cristalina
     Por uma fonte para nunca mais!...

     Ou para o lago escuro onde termina
     Vosso curso, silente de juncais,
     E o vago medo angustioso domina,
     ― Porque ides sem mim, não me levais?

     Sem vós o que são os meus olhos abertos?
     ― O espelho inútil, meus olhos pagãos!
     Aridez de sucessivos desertos...

     Fica, sequer, sombra das minhas mãos,
     Flexão casual de meus dedos incertos,
     ― Estranha sombra em movimentos vãos.

     Camilo Pessanha, Clepsidra, Editora Nova Crítica, Porto


Agradável coincidência, hoje, em Germina.


Publicado por sol em 07:53 PM | Comentários (8)

março 13, 2006

Mãe-D'Água

silencio2.JPG


Deitar fora sem desgosto a tigela antiga que se partiu
(isto é: que eu parti)
                                 e pensar com a risada de minha
Mãe: «Deixá-lo! Temos que fazer viver os oleiros!»
(a consolar-se do seu gesto desastrado)
                                                                  e aceitar o passar
do tempo sem angústia e sem saudade
                                                                  e dizer
como ela dizia sem palavras:
                                            «O tempo fez-se para
passar!»
                Ah sim! que passe e nos leve e não se fala
mais nisso!
                    Mas se ao menos nos levasse para o mesmo
sítio, Mãe!»


Teresa Rita Lopes, Afectos, Editorial Presença, Lisboa, 2000

Publicado por sol em 08:48 PM | Comentários (40)

março 04, 2006

eu que poderia ter dormido

orfeu-e-euridice.jpg
Rodin, Orfeu e Euríce


EURÍDICE

Lançaste-me então para trás,
eu que poderia ter caminhado com as almas vivas sobre a terra,
eu que poderia ter dormido entre flores vivas
por fim;

então pela tua arrogância
pela tua truculência
fui lançada para trás
para onde o líquen morto escorre
escórias mortas sobre musgo de cinza;

então pela tua arrogância estou
por fim despedaçada,
eu que vivi inconsciente,
que fui quase esquecida;

se me tivesses deixado esperar
teria crescido da indiferença
para a paz,
se me tivesses deixado repousar com os mortos, ter-me-ia esquecido de ti
e do passado.


Ezra Pound (tradução de Filipe Jarro)

Publicado por sol em 10:05 PM | Comentários (4)

fevereiro 16, 2006

citação após breve silêncio

helmo-etrusco-sec-vi.jpg


«Os seres imperfeitos agitam-se e acasalam-se para se completarem, mas as coisas só belas são solitárias como a dor humana.»

Marguerite Yourcenar, Gherardo Perini, in O Tempo, Esse Grande Escultor, Ed. Difel, Lisboa, 1983

Publicado por sol em 02:20 PM | Comentários (22)

novembro 06, 2005

por onde sai um som escuro

           fernao-oliveira-rosto.JPG

Primeira Gramática da Linguagem Portuguesa, séc. XVI. Todos os começos são árduos, mas alguns guardam a candura da novidade, o ardor dos princípios. E a poesia das analogias no esforço descritivo.


                                                                    *  *  *

Esta letra u vogal aperta as queixadas e prega os beiços, não deixando entre eles mais que só um canudo por onde sai um som escuro, o qual é a sua voz.
[…]

A pronunciação do m muge entre os beiços apertados, apanhando para dentro.

A pronunciação do n tine, diz Quintiliano, tocando com a ponta da língua as gengivas de cima.
[…]

O s singelo, diz Quintiliano, é letra mimosa, e, quando a pronunciamos, alevantamos a ponta da língua para o céu da boca e o espírito assobia pelas ilhargas da língua.

O ss dobrado pronuncia-se como o outro, pregando mais a língua no céu da boca.
[…]

Ao x nós lhe chamamos cis, mas eu lhe chamaria antes xi, porque assim o pronunciamos na escritura. Pronuncia-se com as queixadas apertadas no meio da boca, os dentes juntos, a língua ancha na boca e o espírito ferve na humidade da língua.

A pronunciação do z zine entre os dentes cerrados, com a língua chegada a eles e os beiços apartados um do outro.


A Gramática da Linguagem Portuguesa de Fernão de Oliveira, por Maria Leonor Carvalhão Buescu, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1975

Publicado por sol em 03:42 AM | Comentários (16)

outubro 27, 2005

Na noite terrível

PaddedCell-Slime.JPG

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado – esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido –
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso – e foi afinal o melhor de mim – é que nem os Deuses fazem viver...

[...]

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível pra mim.


Álvaro de Campos, 1928

Publicado por sol em 10:58 PM | Comentários (16)

setembro 28, 2005

No meu desejo

AngeloSousa.JPG

Tem dó de quem não dorme,
de quem passa a noite à espera
que desperte o silêncio.
O vento devia cantar nos plátanos
com a lua nova, ser mais uma folha
feliz nos ombros do outono.
Mas o vento parecia ter endoidecido:
de leste a oeste varria
a rua, varria a noite: o vento
alegremente
varria o mundo ― em turbilhão
arrastava o lixo mil vezes imundo.
E o sono chegava.

Eugénio de Andrade, O Sal da Língua, Ed. Fundação Eug. Andrade, Porto, 1ª ed, 1995

Publicado por sol em 08:08 AM | Comentários (8)

setembro 26, 2005

Em Setembro, no Algarve

yvette.JPG
Desenho de Tóssan


Deito-me no muro do quintal.
Aguardo o pôr do sol
quando os pássaros cantam
e a terra exala um cheiro quente
a caruma e a tojo.
No meio das árvores
a romãzeira florida parece descansar.
Chegou ao fim do seu dia.
Olho o sol.
E eu
quando chegarei eu?

Yvette K. Centeno, Algol, Colecção O Oiro do Dia, Editorial Inova, Porto, 1979

Publicado por sol em 08:05 AM | Comentários (9)

agosto 02, 2005

Dedicatória

A todos os que nas noites tempestuosas das revoltas
                                                                  procuram uma lua infantil
aos que já não tinham tempo, aos que foram esquecidos
na doçura do sono quando todos nos tinham abandonado
aos espelhos onde nos fitámos, aos mares que não
                                                                       navegaremos
aos caminhos que percorremos apaixonados e a que talvez
                                                                      não tenhamos voltado
ao destino, à bela juventude, aos viajantes
(e eu, aonde ia? e era assim tanto o que pedia? Mas agora é
                                                                      tarde - tempo de partir)
às aves de arribação, às locomotivas a vapor que se
                                                 cansaram e se viraram de lado para dormir
às espigas que a luz ilumina, às raparigas que despem a saia
                                                                        para entrarem no céu
às cartas de um anjo para um menino, aos que se atrasaram,
                                                                       aos que nunca voltarão
à mulher que deita as cartas, ao velho que chora
à Odisseia que vive o poeta ao escrever o mais pequeno
                                                                                       poema
ao instante luminoso que viveu um homem vivendo uma
                                                                                  vida inteira...

Tasos Leivaditis, tradução de Manuel Resende, em Di Versos nº 8, revista semestral de Poesia e Tradução, Inverno de 2004



Publicado por sol em 07:18 PM | Comentários (8)

junho 23, 2005

Basta un instante

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Manuel Alvarez Bravo, 1931

Basta un instante
para saber onde hai un ser humano:

Alí onde haxa ternura
para unha debilidade.

Onde haxa para un frío, un acto de calor.
Onde haxa, pola vida, absoluto respecto.

Alí onde haxa un ser que sinta a humillación
dun semellante como a súa propia humillación.

Alí onde non se confunda humor con burla
nin hipocrisía con amor.

Basta un instante para entender a dor.


Ramón Sampedro, Cando eu Caia, Edicions Xerais de Galicia, Vigo, 1998

Publicado por sol em 12:47 PM | Comentários (5)

junho 13, 2005

Sem ti

Que país será o meu? Este,
onde vivo e sou estrangeiro?
O da luz atravessada
pelos cisnes? Sem ti, como saber?

Eugénio de Andrade, excerto




Publicado por sol em 11:00 PM | Comentários (16)

junho 10, 2005

Soneto em 10 de Junho

hands-estudo.jpg
A. Dürer


Oh! Como se me alonga, de ano em ano,
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece,
mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
se os olhos ergo a ver se inda parece,
da vista se me perde e da esperança.


Luís de Camões, Rimas, texto estabelecido por A. J. Costa Pimpão, Livraria Almedina, Coimbra


Publicado por sol em 12:02 AM | Comentários (11)

maio 20, 2005

O Escritor Prodigioso

sena.jpg

Notícia aqui.

                           *    *    *

GLOSA À CHEGADA DO OUTONO

O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.

                                                                                     28/8/1958

Jorge de Sena, Antologia Poética



Publicado por sol em 05:43 PM | Comentários (10)

maio 01, 2005

La Luna

Solitude.jpg
Paul Delvaux *


Hay tanta soledad en ese oro.
La luna de las noches no es la luna
que vio el primer Adán. Los largos siglos
de la vigilia humana la han colmado
de antiguo llanto. Mírala. Es tu espejo.

Jorge Luis Borges, Antología Poética 1923-1977, Biblioteca Borges, Alianza Editorial, Madrid, 2002



* Imagem oferecida por ocasião do primeiro aniversário do Nocturno com Gatos. Reproduzo-a, com os meus agradecimentos a mb.

abril 11, 2005

Breve escatologia

summers-end-Jeane Vogel.jpg


Caminhando na praia
olho para trás -
nem uma só pegada.

Hosai Ozaka (1885 - 1926)


             * * *


Crisântemo de Inverno -
apenas visitado pela sua
fatigada luz.

Shuoshi Mizuhara (1892-1981)


O Haicai no Século XX - Antologia, selecção e tradução de Casimiro de Brito e Ban'ya Natsuishi




Publicado por sol em 11:15 PM | Comentários (18)

março 30, 2005

Se descalzan los dias

chagall3.JPG
Chagall


Se descalzan los días
para pasar de largo sin que nos demos cuenta.
Son casi despedidas, casi encuentros
– felices pero incómodos –
de cuerpos que se miran
y que aplazan la cita.
                      Aunque detrás,
suelen quedarnos huellas que no son los recuerdos.

De aquel jardín inculto yo conservo
el hombre que venía a desearte,
a caminar sin ti,
silvestre y solo.
Porque de ti le hablaban las adelfas,
con sus ramas difíciles como muchachas jóvenes,
y las palmeras altas igual que tu desnudo,
y aquel cielo corrido
que buscaba
la luz con que el amor te distingue los ojos.

No envejecemos nunca. Tal vez no envejecemos.

Y ahora puedo decírtelo,
cuando tú me recuerdas las adelfas,
y tu desnudo en arco dibuja una palmera,
y los ojos se nublan
sobre el jardín silvestre de los enamorados.

Tal vez no envejecemos. O es acaso que el tiempo
se quitó los tacones para no molestarnos.
O es acaso el deseo
que camina en los labios todavía descalzo.


Luis García Montero


Publicado por sol em 11:59 PM | Comentários (29)

março 18, 2005

Do poder das palavras

Nos comentários ao poema anterior falou-se, naturalmente, de palavras. Às vezes, "umas chatas", disse o Paulo; um "círculo de luz", disse o Jorge; "perigosas ou inocentes e ambas as coisas", citou o Zef; e a mb ocorreu que um dia eu lhe dissera serem os melros os goliardos entre as aves.

Lembrei-me assim de Heloísa e Pedro Abelardo, de quem alguns dizem ter sido o percursor dos goliardos. Lembrei-me em particular das cartas que trocaram, sobretudo a primeira que, do convento de Paraclet, Heloísa envia a Abelardo - espécie de gatilho da comunicação. Lendo-a, quem poderá dizer que as palavras são inermes?

Encontrei há tempos, na revista online da Faculdade de Filosofia e Humanidades da Universidade do Chile, um ensaio acerca dessa primeira carta, ensaio que percorri com agrado e alguma malícia: porque Heloísa foi mulher e viveu há novecentos anos. E como argumenta bem com o mestre da Lógica - e o persuade! O ensaio é longo. Reproduzo aqui, traduzindo-os livremente, apenas alguns excertos sobre a natureza e o alcance do discurso amoroso.


Lettres_Eloise1.JPG


                        HELOÍSA E ABELARDO: PALAVRAS DE AMOR

                                              María del Pilar Jarpa Manzur
                                 Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación

(...)

A primeira carta de Heloísa a Abelardo confessa uma petição de palavra. Através de argumentos que deslizam e se cruzam no texto, Heloísa implora traços da boca ou da mão do seu amado. Como numa ode, enaltece o poder da palavra. As suas cartas não contêm apenas um discurso acerca do amor, mas também o discurso do amor.
(...)

No entanto, que podia esperar Heloísa de Abelardo, se todo o contexto da sua relação se tinha desvanecido? Se todos os prazeres lhes tinham sido arrebatados? Se Abelardo era agora mudo para a linguagem erótica dos amantes?

Surgia então a palavra como possibilidade - talvez a única - do reencontro amoroso; como um antídoto contra a saudade e a melancolia; como um espelho em cujo reflexo regressaria - intacto - o ser amado.
(...)

A linguagem, forjada em cartas, concede-lhes a oportunidade de se contemplarem, de se tentarem, de regressarem um ao outro. «É como se tivesse palavras à maneira de dedos, ou dedos na extremidade das minhas palavras.» (Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso).
(...)

Desta perspectiva, a do amor, [as palavras] não podem ser vistas como meras etiquetas, meras instruções desvinculadas do real. Ancoradas no profundo do mundo, ligam-se 'realmente' ao que significam, e também a quem as profere e a quem as acolhe. E de tal maneira se tornam imprescindíveis, pois sustentam a alma.

Assim, a linguagem é erigida a lugar primordial da comunicação, do encontro e da consolidação. O desvelar do ser que se efectua através delas é também sustento para o enamorado. Aos que se encontram a mundos de distância, aos que se amam a contratempo, as palavras oferecem sortilégios.

No último vaivém da agonia, a ausência do outro torna-se intransigente, devastadora. Sem palavras tudo é queda, tudo é esquecimento, e perguntar-se-á como podem elas suster a alma. Responderemos que quando o amor já se não pode escrever na pele, talvez as palavras confiram um refúgio onde a fusão seja possível, onde o amor torne a dizer-se a duas vozes.
(...)

Abelardo dedicará até ao fim dos seus dias muitas palavras a Heloísa: cartas, tratados e até a sua controversa declaração de Fé. Mas nunca mais, nem dos seus lábios nem da sua pena, Heloísa voltou a ouvir palavras de amor... Pelo menos é isso que nos contam os vazios que o tempo costuma deixar.

em: http://www.uchile.cl/facultades/filosofia/publicaciones/cyber/cyber10/mjarpa.html#13



Publicado por sol em 09:59 AM | Comentários (37)

fevereiro 28, 2005

Eros


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desenhos de Rodin


Não, estes desenhos não são aquilo por que os tomam, esboços apressados, preliminares, passageiros; o momento, assim surpreendido na sua intangibilidade, assim submetido a todas as leis: o que o distingue ainda do definitivo e do eterno?

E ouvimos dizer que são eróticos. Ah, sim, são eróticos; mas quem diz da noite de Junho que é «erótica», saturada pelo canto dos rouxinóis, num anseio quase ameaçador sob as estrelas febris? Ou quem chama «erótica» à sabedoria profunda e abençoada que tudo abarca e torna fértil, ou à alegria ou à morte ou ao dobrar dos sinos?...

Uma palavra regressa aqui à sua grandeza, ao terror e à glória: ao incomensurável.

Nestas folhas, nestas coisas, Eros, o deus, regressou para junto de nós — o Eros de Sócrates, talvez, que apesar de Fedro e do Banquete se perdera —: este tão doce e leve Eros, este espírito profundo, este amante grandioso e imodesto...

Ele tinha de tornar-se corpo; pois de que outro modo podem as artes plásticas tomar posse do espírito se todos os seus meios dependem dos sentidos, do palpável! — E quanto mais desenvolvem estes meios, quanto maior a paixão com que de si mesmas ganham consciência, tanto mais sensuais têm de tornar-se, mais é forçoso que mostrem o espírito através do corpo.

Para o criador vale ainda o que para Dante valia:

O corpo... é para ele a alma.

Rilke, sobre os desenhos de Rodin (1905), in Auguste Rodin e Rainer Maria Rilke, Momentos de Paixão, Relógio D'Água, Lisboa, 2004



Publicado por sol em 08:06 PM | Comentários (8)

fevereiro 01, 2005

Le temps des cerises

Testa di Giovinetta.jpg
Da Vinci, Testa di Giovinetta


Quand nous en serons au temps des cerises
Et gai rossignol et merle moqueur
Seront tous en fête
Les belles auront la folie en tête
Et les amoureux du soleil au cœur.
Quand nous en seront au temps des cerises
Sifflera bien mieux le merle moqueur.

Mais il est bien court le temps des cerises
Où l'on s'en va deux cueillir en rêvant
Des pendants d'oreilles
Cerises d'amour aux robes pareilles
Tombant sous la feuille en gouttes de sang.
Mais il est bien court le temps des cerises
Pendants de corail qu'on cueille en rêvant.

Quand vous en serez au temps des cerises
Si vous avez peur des chagrins d'amour
Evitez les belles
Moi qui ne crains pas les peines cruelles
Je ne vivrai pas sans souffrir un jour.
Quand vous en serez au temps des cerises
Vous aurez aussi des chagrins d'amour.

J'aimerai toujours le temps des cerises
C'est de ce temps là que je garde au cœur
Une plaie ouverte
Et dame Fortune en m'étant offerte
Ne saura jamais calmer ma douleur.
J'aimerai toujours le temps des cerises
Et le souvenir que je garde au cœur.

Canção de Jean-Baptiste Clément e Antoine Renard (1867)

Publicado por sol em 12:04 AM | Comentários (10)

janeiro 19, 2005

Voltar a nascer

Eugénio de Andrade faz hoje 82 anos. E há um silêncio em torno dele, um silêncio cuja qualidade conheço - conheci em outras situações. Um silêncio de que não gosto.

Então celebro: o esplendor das palavras e todos os princípios que nelas germinam.




Tom Chambers - ex-votes.jpg
Tom Chambers


Escrevo já com a noite
em casa. Escrevo
sobre a manhã em que escutava
o rumor da cal ou do lume,
e eras tu somente
a dizer o meu nome.
Escrevo para levar à boca
o sabor da primeira
boca que beijei a tremer.
Escrevo para subir às fontes.
E voltar a nascer.


Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede, Fundação Eugénio de Andrade, Porto, 2001

Publicado por sol em 12:29 AM | Comentários (26)

janeiro 13, 2005

Memória de Inês de Castro

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Constantin Brancusi


Há qualquer coisa de miraculoso no encontro em que Pedro repara pela primeira vez, com atenção, em Inês. O infante tinha chegado da Atouguia, com seu ar despreocupado, meio aborrecido e cheio de uma sede insaciável. Foi Inês que preparou na cozinha a bebida de Pedro. Ele agradeceu ligeiramente com a cabeça e bebeu, sem reparar em mais nada. Quando ergueu a cabeça e fitou o rosto de Inês, reparou, intrigado, que os cabelos desta pareciam despedir labaredas. Era um lume que crepitava em silêncio. Foi então que Inês, de forma inesperada, lhe encostou a ponta dos dedos na face. Todas as margens do ser, a esse contacto, foram incendiadas, os diques derrubados. Foi, porém, um gesto inocente, quase pueril. A célebre gaguez de Pedro pode datar desse instante. O amor foi nele o terror dum susto. [...]

Inês ganhou Pedro e depois a própria coroa portuguesa, não por um privilégio de matrimónio, mas pelo privilégio humano dos seus próprios dons. Ela encarnava qualidades humanas raras e todo o seu corpo era a expressão silenciosa das mais altas virtudes do homem. [...]

- Senhora, abri, que é El-Rei de Portugal.
Inês estava junto da janela onde esvoaçava o lençol branco do seu enxoval. Mandou Fátima ir passear pela alameda com as crianças. A solidão do aposento apareceu-lhe como a expressão do seu sacrifício. Preparava-se para a morte como se tinha antes preparado para o amor. Penteou-se e vestiu-se de branco. Inês vestiu-se de branco para morrer e pôs nas mãos um colar de pedras que Pedro lhe dera. E fê-lo, não para interpelar Afonso, mas para mostrar à morte a sua aliança com a vida. [...]

A entrada do rei e dos seus conselheiros nos aposentos de Inês foi intempestiva. Vinham sobretudo preparados para um longo desacordo com Inês, mas a gelada indiferença desta petrificou-lhes os intentos. Todas as tradicionais hesitações atribuídas a Afonso no momento de assassinar Inês devem-se justamente à inesperada atitude dela: nem filhos nem palavras. É fácil vencer um opositor armado e feroz, mas é difícil matar uma mulher que, em vez de brandir argumentos, nos apresenta um vestido branco cheio de silêncio. [...]

O sol declinava no horizonte. Afonso trazia enfim a mão manchada de sangue e os olhos baixos. [...]

Pedro, de madrugada, quando chegou à alameda dos olhos de água, onde hoje é a fonte dos amores, avistou o lençol branco a esvoaçar ao vento. Teve de arrombar sucessivas portas fechadas, no palácio deserto, enquanto gritava desalmadamente por Inês. Quando viu o corpo de Inês desfeito em sangue, a voz ficou-lhe presa na garganta. A célebre gaguez de Pedro, tão falada por Femão Lopes, não era congénita. A gaguez de Pedro foi a consequência imediata da morte de Inês. Se o amor, em vida de Inês, lhe tirou o significado das palavras, o amor, com a morte, tirou-lhe para sempre a fala. Era de madrugada e em Coimbra levantavam-se os primeiros rumores sobre a morte de Inês de Castro. Amanheceu baço e sem luz aquilo que foi o dia.

António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, Lisboa, 1990


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janeiro 11, 2005

1964 - II

Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo;
Un instante cualquiera es más profundo
Y diverso que el mar. La vida es corta
Y aunque las horas son tan largas, una
Oscura maravilla nos acecha,
La muerte, ese otro mar, esa otra flecha
Que nos libra del sol y de la luna
Y del amor. La dicha que me diste
Y me quitaste debe ser borrada;
Lo que era todo tiene que ser nada.
Sólo me queda el goce de estar triste,
Esa vana costumbre que me inclina
Al Sur, a cierta puerta, a cierta esquina.


Jorge Luis Borges, El Otro, El Mismo, in Obras Completas, Tomo II, Emecé Editores, Barcelona, 1989

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dezembro 23, 2004

O mais luminoso

anjo-fra angelico.jpg
Fra Angélico

«Amor é um dos nomes de Deus, justamente o mais luminoso.»

           Eugénio de Andrade, Tão perto do coração

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dezembro 15, 2004

À beira de água

AngeloSousa.JPG


Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.


Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede, Fundação Eugénio de Andrade, 2ª ed, Porto, 2001

Publicado por sol em 12:31 AM

dezembro 06, 2004

Universos em Colisão

Tentava lembrar-me de um conto sobre um onnagata célebre. De Mishima, o conto. Seria do livro "O Tumulto das Ondas"? Talvez de "Morte em Pleno Verão"? Se fosse deste (e era) não poderia relê-lo: emprestei o livro a alguém que gostou tanto dele que lho ofereci. Está em paz, esse livro, o que não posso dizer de todos os que emprestei.

Incluía também, essa perdida colectânea, um outro conto que me comoveu profundamente, a história de um homem que, enfrentando um dilema, não vê outra solução além do seppuku e pede à esposa que seja a testemunha do suicídio. Invulgar pedido para se fazer a uma mulher, e prova do amor que unia o casal. Ela segui-lo-á, depois. É um texto arrepiante, pela descrição minuciosa do suicídio ritual. Eros e Thanatos entrelaçam-se intimamente, e a atmosfera trágica (a da inocência impiedosamente castigada pelo destino inelutável que esmaga os melhores) é de uma beleza terrível. Talvez volte a comprar o livro. O meu projecto de ter apenas três - os indispensáveis - continua muito longe de alcançar. É difícil o despojamento. E saber por fim quais serão os três livros indispensáveis.

Também pesquisei na internet, onde o acervo é de tal ordem que me perdi, entrei noutros ramos do labirinto da informação, encontrei maravilhas. Entre as páginas que visitei, uma exposição sob o título: «Universes in Collision, Men and Women in 19th-century Japanese Prints». Não resisto a reproduzir aqui algumas das imagens, muito belas, representando cenas de Kabuki (afinal foi pelos onnagata que esta busca começou), bem como excertos dos comentários que as acompanham e alguns dos poemas que as complementam - excertos e poemas em tradução livre, minha.

                                              * * * * * *

                                   Universos em Colisão

                                  Os amantes jogam com a vida e a morte
                                   o mais perigoso de todos os jogos

                                                        Ihara Saikaku (1641-1693)


Kunisada-cena de kabuki.JPG
Utagawa Kunisada (1786-1864), cena de uma representação de Kabuki, 1842

Num cenário nocturno, à neve, um homem e uma mulher lutam apaixonadamente por uma espada envolta numa esteira. Nas pinturas japonesas, a neve apresenta com frequência conotações sobrenaturais, ou pelo menos dramáticas. Também as espadas, como os botões de cerejeira e os crisântemos, detêm um significado espiritual. A violência e a pureza coexistem na mesma desesperada cena.

                                             * * * * * *

Tsukioka Yoshitoshi-lunacy-unrolling letters.jpg
Tsukioka Yoshitoshi (1839-1892), Demência, 1889

Uma mulher enlouquece, depois da morte do amado, e desenrola a última longa carta que ele lhe enviou e que ela leu até a reduzir a farrapos. Parece ser o nascer da lua, como indiciando o regresso do amor à sua infortunada casa. Na vida, como na arte, homens e mulheres, no Japão tradicional, comunicavam frequentemente através de cartas poéticas, frágeis pontes entre os seus mundos separados.

                                              * * * * * *

Utagawa Kuniyoshi-sec19.jpg
Utagawa Kuniyoshi (1798-1861), Edo Murasaki, ca 1850

A palavra Murasaki pode referir-se à grande novelista medieval japonesa, ou à cor púrpura do traje da mulher; Edo é a actual Tóquio. Mas a cena surpreende pela sua ambiência de aprazível e doméstica normalidade. Embora o homem que lava as mãos aguarde a mullher com a toalha, não há traços de servilismo, e eles trocam amigáveis olhares.

                                              * * * * * *

Tsukioka Yoshitoshi-historia de Jirozaemon of Sano.jpg

Tsukioka Yoshitoshi (1839-1892), A história de Jirozaemon of Sano, 1886

A mais bela das cortesãs assemelha-se a uma deusa aos olhos de um rústico como Jirozaemon, que se apaixona por ela e a assassina quando é repelido. O teatro Kabuki mostra-nos tanto a adoração como as perseguições de que as cortesãs eram alvo. A versão de Yoshitoshi mergulha o espectador em sangue e lirismo, enquanto as cartas de amor da cortesã voam como pássaros.

                                                   * * * * * * * * * * * *


Tu e eu vivemos no interior de um ovo
e eu, eu sou a clara
envolvo-te e embalo-te dentro do meu corpo.

Canção de uma gueixa anónima

                                              * * *

Para punir os homens pelos seus pecados,
Deus fez-me esta pele macia
deu-me estes longos cabelos negros.

Yosano Akiko, 1878-1942

                                              * * *

Esta noite sonhei
Que empunhava uma espada contra o meu corpo nu.
Que significará?
Que em breve estaremos juntos.

Kasa no Iratsume, 8th Century

                                              * * *

Os deuses celestes são irracionais:
Eu podia morrer sem haver-te conhecido,
a ti a quem amo tanto.

Kasa no Iratsume, 8th Century

                                              * * *

A lembrança de longos encontros amorosos é como a neve derretendo
Pungente como os patos mandarins flutuando lado a lado no sono.

Lady Murasaki (Murasaki Shikibu), 974-1031

Publicado por sol em 08:40 AM | Comentários (18)

dezembro 05, 2004

A propósito

Debe Hale 4.jpg
foto de Debe Hale



                      ONE ART

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

                      Elizabeth Bishop


(Agradeço à minha amiga Eneida Leite, que me pôs na pista deste poema)





                      UMA ARTE

A arte de perder não é difícil de se dominar;
tantas coisas parecem cheias da intenção
de se perderem que a sua perda não é uma calamidade.

Perder qualquer coisa todos os dias. Aceitar a agitação
de chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Então procura perder mais, perder mais depressa:
lugares e nomes e para onde se tencionava
viajar. Nenhuma destas coisas trará uma calamidade.

Perdi o relógio da minha mãe. E olha! a última, ou
a penúltima, de três casas amadas desapareceu.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Perdi duas cidades encantadoras: E, mais vastos ainda,
reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto a falta deles, mas não foi uma calamidade.

- Mesmo o perder-te (a voz trocista, um gesto
que amo) não foi diferente disso. É evidente
que a arte de perder não é muito difícil de se dominar
mesmo que nos pareça (toma nota!) uma calamidade.


in Poemas de Marianne Moore e Elisabeth Bishop, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Campo das Letras , 1999


(E agradeço à Amélia Pais pela tradução, que eu sou demasiado preguiçosa para ensaiar, e que agora acrescento.)

Publicado por sol em 12:01 AM | Comentários (10)

novembro 28, 2004

O último poema

estrela-bandeira.jpg


Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira, Libertinagem, in Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993

Publicado por sol em 07:27 PM | Comentários (12)

novembro 05, 2004

Advertencia

Si alguna vez sufres — y lo harás —
por alguien que te amó y que te abandona,
no le guardes rencor ni le perdones:
deforma su memoria el rencoroso
y en amor el perdón es sólo una palabra
que no se aviene nunca a un sentimiento.
Soporta tu dolor en soledad,
porque el merecimiento aun de la adversidad mayor
está justificado si fuiste
desleal a tu conciencia, no apostando
sólo por el amor que te entregaba
su esplendor inocente, sus intocados mundos.

Así que cuando sufras — y lo harás —
por alguien que te amó, procura siempre
acusarte a ti mismo de su olvido
porque fuiste cobarde o quizá fuiste ingrato.
Y aprende que la vida tiene un precio
que no puedes pagar continuamente.
Y aprende dignidad en tu derrota,
agradeciendo a quien te quiso
el regalo fugaz de su hermosura.


Felipe Benítez Reyes, Los Vanos Mundos, in Trama de Niebla, Poesia Reunida 1978-2002, Tusquets Editores, Barcelona, 2003

Publicado por sol em 10:04 AM | Comentários (11)

novembro 02, 2004

Because of

Os primeiros cinco discos de Leonard Cohen, até New Skin For The Old Ceremony (1974), foram e permanecem para mim - todos eles - objecto de veneração. Depois, só com Recent Songs, em 1979, reatámos a velha magia. E, a partir daí, se a minha relação com o poeta e o músico continuou apaixonada, é porque lhe sou fiel de um modo difícil de explicar a quem não for coheniano.





Dear Heather acaba de sair neste Outubro de 2004. À primeira audição não gostei do cd. Agora enternece-me, tal como os 70 anos do músico. A voz, mais rouca, apoia-se nas das acompanhantes e nos arranjos. Mas em todo o cd uma melancolia suave e reconciliada e, sobretudo, alguns pequenos maravilhosos poemas. Como este que transcrevo. Quem, além de Cohen, falaria assim das mulheres, com essa terna, irónica cumplicidade, que se percebe mútua? Este é um jogo muito antigo.


Because Of

Because of a few songs
Wherein I spoke of their mystery,
Women have been
Exceptionally kind
To my old age.
They make a secret place
In their busy lives
And they take me there.
They become naked
In their different ways
And they say,
"Look at me, Leonard,
Look at me one last time."
Then they bend over the bed
And cover me up
Like a baby that is shivering.

Leonard Cohen

Publicado por sol em 02:35 PM | Comentários (9)

setembro 19, 2004

Da vida opaca



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Um pedaço de pão, um copo de água fresca,
a sombra de uma árvore e os teus olhos!
Nenhum sultão é mais feliz do que eu.
E nenhum mendigo é mais triste.


                   * * *


Escuta este grande segredo:
Quando a primeira aurora iluminou o Mundo,
Adão já não era mais que uma criatura dolorida
que invocava a noite e a morte.

                  * * *


Não se pode incendiar o mar
nem convencer o homem de que a felicidade é perigosa.
Ele sabe, todavia, que o menor choque é fatal à ânfora cheia
e deixa intacta a ânfora vazia.


Omar Khayyam, Rubaiyat, Odes ao Vinho, Moraes Editores, Lisboa, 1981

Publicado por sol em 12:07 AM | Comentários (17)

julho 30, 2004

Nossa Senhora da Ternura

                       
                                  K. H. de Josselin de Jong


Nossa Senhora da Ternura,
Abre a ele tua alma pura.

Dissipa a sua noite, e ele veja
Onde estás. Tua mão o proteja.

Afasta-o, Mãe, da gente má,
Para que a ti, puro, ele vá.

Guarda-o da dor, dá-lhe a alegria,
Para que, junto a ti, sorria.

Dá-lhe aos olhos pudor bastante
Para visão de teu semblante.

Dá-lhe compreensão maior,
Para que entenda o que é o amor.

E além da morte, em teu regaço
Descanse enfim seu corpo lasso.

Nossa Senhora da Ternura,
Bendita sejas, Virgem pura.


tradução de Manuel Bandeira, em Poemas Traduzidos

Publicado por sol em 02:00 PM | Comentários (15)

julho 29, 2004

Miércoles, día del espectador

No se descarta que al salir del cine
una pareja cuente con nuevos enemigos.
La pelicula es mala,
las sombras buscan cuerpos para encontrar deseos,
se oyen voces de actores,
imágenes dudosas,
pero los labios son materia viva
en las butacas observadas
y los botones pierden su vergüenza.
Suena un disparo inútil,
la camisa deshecha,
la mano que naufraga entre los muslos.
Se persiguen dos coches por tus hombros
y estalla un edificio,
una lengua de fuego en la ventana,
llamas que desesperan vientre abajo,
el pelo negro por la mano abierta,
negro como la vida en la pantalla,
como el silencio del actor que mira,
del acomodador,
del público encendido.
Ya no tienen edad para estas cosas,
comienta el matrimonio da la última fila.
Y pienso que es verdad. No se descarta,
no se descarta que al salir del cine
una pareja cuente con nuevos enemigos.

Luis Garcia Montero, Completamente Viernes, Tusquets Editores, Barcelona, 1998

Publicado por sol em 09:00 AM | Comentários (9)

julho 24, 2004

Attends, je sais des histoires

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«Há quase setenta e três anos que te conheço, vida louca, e parece-me que tenho ainda de te descobrir. Ainda não te encontrei, morte danada, mas parece-me que te conheço de cor. (...)

Il faut vivre d'amour, d'amitié, de défaites.
Donner à perte d'âme, éclater de passion
Pour que l'on puisse écrire à la fin de la fête:
Quelque chose a changé pendant que nous passions.»

(Serge Reggiani, Último Correio Antes da Noite, Campo das Letras, Porto, 1996)

Para que possamos dizer que algo mudou quando nós passávamos, diz ele. E mudou. Tantas canções na voz de Reggiani, ouvidas ao longo de tantos anos, e que se tornaram, com a maravilhosa voz, uma parte do meu imaginário e da minha construção do mundo. Canções como esta, por exemplo, pela qual tenho um particular carinho:

       LE PETIT GARÇON

Ce soir, mon petit garçon
Mon enfant, mon amour
Ce soir, il pleut sur la maison
Mon garçon, mon amour
Comme tu lui ressembles!
On reste tous les deux
On va bien jouer ensemble
On est là tous les deux
Seuls

Ce soir elle ne rentre pas
Je n'sais plus, je n'sais pas
Elle écrira demain peut-être
Nous aurons une lettre
Il pleut sur le jardin
Je vais faire du feu
Je n'ai pas de chagrin
On est là tous les deux
Seuls

Attends, je sais des histoires
Il était une fois
Il pleut dans ma mémoire
Je crois, ne pleure pas
Attends, je sais des histoires
Mais il fait un peu froid, ce soir
Une histoire de gens qui s'aiment
Une histoire de gens qui s'aiment

Tu vas voir
Ne t'en vas pas
Ne me laisse pas

Je ne sais plus faire du feu
Mon enfant, mon amour
Je ne peux plus grand-chose
Mon garçon, mon amour
Comme tu lui ressembles!
On est là tous les deux
Perdus parmi les choses
Dans cette grande chambre
Seuls

On va jouer à la guerre
Et tu t'endormiras
Ce soir, elle ne sera pas là
Je n'sais plus, je n'sais pas
Je n'aime pas l'hiver
Il n'y a plus de feu
Il n'y a plus rien à faire
Qu'à jouer tous les deux
Seuls

Attends, je sais des histoires
Il était une fois
Je n'ai plus de mémoire
Je crois, ne pleure pas
Attends, je sais des histoires
Mais il est un peu tard, ce soir
L'histoire des gens qui s'aimèrent
Et qui jouèrent à la guerre

Écoute-moi
Elle n'est plus là
Non... ne pleure pas...

Letra de Jean-Loup Dabadie, música de Jacques Datin, 1967

Publicado por sol em 01:35 PM | Comentários (28)

julho 19, 2004

Calamidade

Linda Connor.jpg   
Linda Connor


na casa desabitada tua
voz silenciosa preenche
meus vazios invade meus
ocos venta na minha
insensatez

e me intima a amar-te na tua
cidade sem causa ou
efeito feito uma
calamidade
pública

mas os aeroportos estão todos fechados


Adair Carvalhais Júnior, Desencontrados Ventos, Outras Letras Editora, Rio de Janeiro, 2002

Publicado por sol em 12:14 PM | Comentários (16)

julho 05, 2004

La Quête

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Rêver un impossible rêve
Porter le chagrin des départs
Brûler d'une possible fièvre
Partir où personne ne part
Aimer jusqu'à la déchirure
Aimer, même trop, même mal,
Tenter, sans force et sans armure,
D'atteindre l'inaccessible étoile

Telle est ma quête,
Suivre l'étoile
Peu m'importent mes chances
Peu m'importe le temps
Ou ma désespérance
Et puis lutter toujours
Sans questions ni repos
Se damner
Pour l'or d'un mot d'amour

Je ne sais si je serai ce héros
Mais mon cœur serait tranquille
Et les villes s'éclabousseraient de bleu
Parce qu'un malheureux
Brûle encore, bien qu'ayant tout brûlé
Brûle encore, même trop, même mal
Pour atteindre à s'en écarteler
Pour atteindre l'inaccessible étoile.

      Jacques Brel

Publicado por sol em 07:10 PM | Comentários (13)

julho 02, 2004

O poema te levará no tempo, Sophia

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, 1962

Publicado por sol em 09:26 PM | Comentários (9)

junho 22, 2004

O esplendor da luz

Sun Setting over a Lake-1840.jpg

Turner - Pôr do sol sobre um lago, 1840 - Tate Gallery, Londres


Publicado por sol em 11:20 PM | Comentários (8)

junho 15, 2004

A montanha

Balthus-a-montanha-1937.jpg
Balthus - 1937

Publicado por sol em 08:15 PM | Comentários (13)

junho 10, 2004

As fontes

AngeloSousa.JPG

As fontes regressam
de que incêndio cativas?


Eugénio de Andrade, Véspera de Água, Editorial Inova, Porto, 1973

Publicado por sol em 10:55 AM | Comentários (9)

junho 09, 2004

Celebrar Camões

porque

«a pátria (...) está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dua austera, apagada e vil tristeza.»

E porque Camões é «um esplendor» - como diz a minha amiga Amélia Pais, referindo-se ao Poeta que ao longo de anos vem divulgando. Há relações assim felizes e frutíferas. Como muitos, sou-lhe devedora no que respeita a um melhor entendimento de Camões. Fica aqui o público registo dessa dívida. E o convite para uma festa.