Poeme de Giorgos Seferis , em tradução francesa, dito por Mélina Mercuri
Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse
À Pilion parmi les oliviers
la tunique du Centaure
glissant parmi les feuilles
a entouré mon corps
et la mer me suivait pendant que je marchais
Où que me porte mon voyage, la Grèce me blesse
À Santorin en frôlant
Les îles englouties
En écoutant jouer une flûte parmi les pierres ponces
Ma main fut clouée à la crête d'une vague
Par une flèche subitement jaillie
Des confins d'une jeunesse disparue
Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse
À Mycènes
j'ai soulevé les grandes pierres
et les trésors des Atrides
j'ai dormi à leurs côtés à l'hôtel de "La Belle Hélène"
ils ne disparurent qu'à l'aube lorsque chanta Cassandre
un coq suspendu à sa gorge noire
Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse
À Spetsai, à Poros et à Mykonos
les barcaroles m'ont soulevé le coeur
Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse
Que veulent donc ceux qui se croient à Athènes
ou au Pirée
l'un vient de Salamine
et demande à l'autre
s’il "ne viendrait pas de la place Omonia"
"non, je viens de la place Syndagma"
répond-il satisfait
"j'ai rencontré Yannis
et il m'a payé une glace
Pendant ce temps la Grèce voyage
et nous n'en savons rien
nous ne savons pas que tous nous sommes marins sans emploi
et nous ne savons pas combien le port est amer
quand tous les bateaux sont partis
Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse
Drôles de gens
ils se croient en Attique
et ne sont nulle part
ils achètent des dragées pour se marier
et il se font photographier
l'homme que j'ai vu aujourd'hui
assis devant un fond de pigeons et de fleurs
laissait la main du vieux photographe
lui lisser les rides creusées
de son visage
par les oiseaux du ciel
Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse
Pendant ce temps la Grèce voyage
voyage toujours
et si la mer Egée se fleurit de cadavres
ce sont les corps de ceux qui voulurent rattraper à la nage
le grand navire
Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse
Le Pirée s'obscurcit
les bateaux sifflent ils sifflent sans arrêt
mais sur le quai nul cabestan ne bouge
nulle chaîne mouillée n'a scintillé dans l'ultime éclat
du soleil qui décline
Où que me porte mon voyage, la Grèce me blesse
Rideaux de montagnes archipels
granites dénudés
le bateau qui s'avance s'appelle
Agonie...
Georges Seferis, tradução de Jacques Lacarrière e Egérie Mavraki

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala.
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Pofundamente.
Manuel Bandeira, Libertinagem, em Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993
Cheguei a ter medo de te perder,
tu não chegaste sequer a ter medo.
Este silêncio de já não termos palavras
ouve-se nas outras palavras que trocamos.
Miserável mundo nosso e alheio,
igual ao que todos disseram da sua época,
e pior, porque este vivemos nós
e conhecemos nós, cada um conforme pode.
Já morrerem os ídolos todos da infância
e os da adolescência vão a caminho,
sobrevivente é o teu olhar cego
(hoje há já só um dos Righteous Brothers).
Na feira de velharias uma caixa
para tabaco com uma rosa verde.
Tem o preço ainda em escudos, uma falha
num dos cantos, uma pequena cruz de cal.
Permaneces aí, à lareira, lendo livros vivos
e o seu turbilhão de palavras profundas.
Nunca mais chega o medo de nos perdermos,
eco um do outro em ricochete de silêncios.
Helder Moura Pereira, Mútuo Consentimento, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005

Eugène Delacroix
Um corpo tem a lembrança excessiva de outro corpo
um corpo já não tem imaginação
não tem paciência com nenhum outro corpo
Henri Michaux, Inigi, em A Rosa do Mundo, Assírio & Alvim, 2000

Roteiros ― Escrever, Viajar e Morrer com os Gregos
«Tudo começa na margem do continente de onde vão partindo os filhos com o fogo materno, onde esperam regressar um dia ainda que, por vezes, mal amados e acolhidos. Tróia, os excelentes heróis, o cansado Ulisses com um roteiro de regresso imenso, mapa imaginário das primeiras aventuras pelo Egeu, Mediterrâneo ou Atlântico e, contudo, uma recepção fria. Tróia, ainda, dos poetas sem escrita e sem sono, de prodigiosa memória, bastidor de imaginação, cédula essencial do passado, relato urgente e conciso das origens, a requisitar, no dealbar da época arcaica. E os outros sábios, parentes dos xamanes mais antigos, não gregos...
Ainda o tema da viagem, excursão da alma numa flecha, numa ave, e o regresso excelente, prestigiado, pelo desvelar do passado, do presente ou do futuro. Sempre através do aforismo, da poesia, um relato-mistérico.»
José Augusto C. Ribeiro Graça - Biblioteca Digital, FLUP
Hiroshi Watanabe
Se esse que esperei
viesse ainda, o que faria?
Este jardim cheio de neve
é demasiado belo
para ser pisado agora.
Izumi Shikibu (974?-1034?) in O Japão no Feminino I, Tanka, Séculos IX a XI, organização e versão portuguesa de Luísa Freire, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007
Izumi Shikibu viveu no período Hein, o mais florescente da literatura e da arte japonesas, que se estendeu do século VIII ao século XII. Com Ono Komachi (834?-?), é uma das escritoras mais brilhantes desse período, tendo tido, como pode ler-se na Introdução a esta colectânea, «um papel decisivo na fixação do japonês como língua poética e também na divulgação da uma forma principalmente feminina - o tanka (...).»

Josef Sudek
Madrugada
uma qualquer
de entre muitas
a chuva feriu a pele das paisagens adormecidas
passou por aqui quase como uma miragem
mas deixou nódoas de desespero por toda a parte
agora afastou-se
libertou um punhado de estrelas
e deixou respirar as florestas distantes
porém
o ténue brilho dos objectos molhados
reflecte o espectro de uma lenta rendição
existe no ar um cheiro estranho
a terra ensopada crava o seu odor
nas almas já então enlameadas
os olhares cambaleiam na berma dos precipícios
as vozes de revolta são abafadas
pelas muralhas do universo
por todo o lado surgem balas
apontadas aos peitos descobertos
Paulo Tavares, Pêndulo , Quasi Edições, 2007
Zhang Xiaogang (sem título)
Talvez no inverno
me tenhas oferecido uma pedra,
acesa, tão acesa que a guardava
ora na mão esquerda, ora na outra.
Viraram-se os dias como páginas,
e a pedra, pouco a pouco, congelando.
O que as minhas mãos juntaram
acabou por ser apenas sombra.
Yao Feng
No sábado estarei aqui. E será uma alegria - porque os sonhos permanecem.
No dia 6 de Dezembro gostaria de estar aqui:
.
E o prazer não seria menor - porque as esperanças se estão cumprindo.
Há quase um ano não escrevo.
Pesada, a meditação
Torna-me alguém que não devo
Interromper na atenção.
Tenho saudades de mim,
De quando, de alma alheada,
Eu era não ser assim,
E os versos vinham de nada.
Hoje penso quanto faço,
Escrevo sabendo o que digo...
Para quem desce do espaço
Este crepúsculo antigo?
Fernando Pessoa, 23/05/1932
AVEC ÉLÉGANCE
Se sentir quelque peu romain
Mais au temps de la décadence
Gratter sa mémoire à deux mains
Ne plus parler qu'à son silence
Et
Ne plus vouloir se faire aimer
Pour cause de trop peu d'importance
Etre désespéré
Mais avec élégance
Sentir la pente plus glissante
Qu'au temps où le corps étais mince
Lire dans les yeus de ravissantes
Que cinquante ans c'est la province
Et
Brûler sa jeunesse mourante
Mais faire celui qui s'en dispense
Etre désespéré
Mais avec élégance
Sortir pour traverser des bars
Où l'on est chaque fois le plus vieux
Y éclabousser de pourboires
Quelques barmans silencieux
Et
Grignoter des banalités
Avec des vieilles en puissance
Etre désespéré
Mais avec élégance
Savoir qu'on a toujours eu peur
Savoir son poids de lâcheté
Pouvoir se passer de bonheur
Savoir ne plus se pardonner
Et
N'avoir plus grand chose á rêver
Mais écouter son coeur qui danse
Etre désespéré
Mais avec espérance.
Jacques Brel
Acorda-se ao som estridente
Dum galo a cantar ao longe,
Depois abrem-se as cortinas
Para ver as nuvens que voam -
E sente-se a estranheza de ter
Como elas o coração frio e sem amor.
Philip Larkin, Uma Antologia, trad. de Teresa Guerreiro, Editorial Minerva, Lisboa, 1989
¿No es éste un viaje
también — tan sólo — por tu mirada?
Mira: toda la ciudad enfrente
miope
con sus oscuras antiparras de niebla.
¿O será que respiro
tan cerca
que te mancho los ojos?
Quiero escribir en el cristal "Te quiero"
¡pero toda la ciudad se enteraría!
José Gorostiza, Muerte sin Fin y Otros Poemas, São Paulo / México, Editora da Universidade de São Paulo / Fondo de Cultura Económica, 2003

António Canova, 1787
já que sentir é primeiro
quem presta alguma atenção
à sintaxe das coisas
nunca há-de beijar-te por inteiro;
por inteiro ensandecer
enquanto a Primavera está no mundo
o meu sangue aprova,
e beijos são melhor fado
que sabedoria
senhora eu juro por toda a flor. Não chores
– o melhor movimento do meu cérebro vale menos que
o teu palpitar de pálpebras que diz
somos um para o outro: então
ri, reclinada nos meus braços
que a vida não é um parágrafo
E a morte julgo nenhum parêntesis
e. e. cummings, xix poemas, trad. de Jorge Fazenda Lourenço, Assírio & Alvim, Col. Gato Maltês, Lisboa, 1991
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A Luísa R. distinguiu o Nocturno com Gatos com este galardão. A mim apetecia-me retribuir-lhe o prémio, por qualquer dos seus dois blogues, espaços de um bom gosto raro, mas o espírito do jogo determina que o faça seguir. Não é fácil escolher apenas cinco blogues. Teria sido simples há dois ou três anos, quando a minha actividade blogueira era mais empenhada e regular e os círculos em que navegava se interseccionavam.
De facto, parece que os blogues que mais me fizeram pensar - talvez porque o meu tempo de pensar diante de um ecran de computador tinha então outra qualidade - ficaram no passado. E muitos já não existem. Tudo era então (ou eu o sentia assim) inaugural.
Procurei nos "perdidos" da rede e encontrei vestígios de alguns deles. Como a escrita delida em cartas antigas - imagens, comentários e templates corrompidos, mesmo os daqueles de que guardei arquivos - eles emergem da memória fugaz da rede.
Por ordem alfabética, três blogues idos e dois blogues vivos a que atribuo o Thinking Blogger Award:
A Sombra do Sol
Um blogue colectivo iniciado em 2003 com uma turma de alunos que acompanhei do 10º ao 12º Ano e cujo nome nasceu de uma piada privada. Não podia adivinhar então, mas os dois anos durante os quais A Sombra do Sol se manteve como um projecto de aprendizagem, de liberdade e de convívio foram um canto do cisne.
O Homem é uma paixão inútil
Foi um blogue efémero. Mas a qualidade dos textos que publicou e a descoberta de afinidades e gostos partilhados constituiram uma espantosa revelação. Deu-me a conhecer George Steiner, um encontro cuja fulgurância perdura.
Ossa et Cinera
Um projecto de quatro jovens poetas (então estudantes da Universidade Nova de Lisboa), com o brilho, a generosidade e o desejo de inovar que só certa juventude tem. Um Cenáculo. Foi um privilégio ler-lhes a poesia durante o tempo em que o blogue manteve a espantosa energia criadora.
O quarto blogue que escolho é muito jovem - participa dessa voz primacial que referi acima. E cheira a terra fresca, à neve e ao lume em seu tempo, e às flores silvestres, vinda a Primavera. Ali, as árvores falam e dizem as coisas sábias que as árvores dizem: é A voz da romãzeira
O quinto blogue move-se ao ritmo nostálgico e compassado dos comboios. Cheio de maravilhas, faz jus ao dito de Steiner, segundo o qual deus vive no pormenor: Caminhos de Ferro Vale da Fumaça
Adenda: Uma palavra amiga ao Groze, um agradecimento pela lembrança que me surpreendeu e alegrou. E ao terrear, para que - roubando-lhe a epígrafe - não desistamos de inventar dias mais claros.
Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n'est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l'aima?
Il cherche son pareil dans le voeu des regards. L'espace qu'il parcourt est ma fidélité. Il dessine l'espoir et léger l'éconduit. Il est prépondérant sans qu'il y prenne part.
Je vis au fond de lui comme une épave heureuse. À son insu, ma solitude est son trésor. Dans le grand méridien où s'inscrit son essor, ma liberté le creuse.
Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n'est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l'aima et l'éclaire de loin pour qu'il ne tombe pas?
René Char, Fureur et Mystère, Gallimard, 1962
CONSOLAÇÃO
Nas ruas da cidade caminha o meu amor. Pouco importa aonde vai no tempo dividido. Já não é o meu amor, todos podem falar-lhe. Ele já não se recorda. Quem de facto o amou?
Procura o seu igual no voto dos olhares. O espaço que percorre é a minha fidelidade. Ele desenha a esperança e ligeiro despede-a. Ele é preponderante sem tomar parte em nada.
Vivo no seu abismo como um feliz destroço. Sem que ele saiba, a minha solidão é o seu tesouro. No grande meridiano onde inscreve o seu curso, é a minha liberdade que o escava.
Nas ruas da cidade caminha o meu amor. Pouco importa aonde vai no tempo dividido. Já não é o meu amor, todos podem falar-lhe. Ele já não se recorda. Quem de facto o amou e de longe o ilumina para que não caia?
René Char, Fúria e Mistério, Tradução de Yvette K. Centeno, Edições Cotovia, Lisboa
Que eu não sabia ter escrito haiku, alguns dos quais pude ler nesta selecção e tradução do mexicano Fernando Cantú Jauckens. Instantes de desolada belleza lembra-me as pinturas de Hopper, a melancolia, um vazio, o sentimento do transitório: algo passa – ou passou – sem remédio.
1
Una flor
al lado del risco
Se inclina ante el cañón
2
Cruzando el campo de futbol
al regresar de su trabajo
el solitario hombre de negocios
3
Ningún telegrama hoy
— Sólo cayeron
Más hojas
4
Chicas preciosas corren
y suben los escalones de la biblioteca
Con sus shorts puestos
5
Un toro negro
y un pájaro blanco
Parados juntos en la playa
6
Los grillos — lloran
por la lluvia —
¿De nuevo?
7
La silla de verano
meciéndose sola
En la ventisca
8
Una rosa blanca
salpicada de rojo — ¡O
la cereza de un helado de vainilla!
9
Descalzo junto al mar
me detengo para rascarme un tobillo
Con el dedo gordo del pie
10
Mañana de octubre fría y quebradiza
— los gatos peleándose
En las hierbas
11
Las estrellas corren
con rapidez
A través de las nubes
12
El sonido del silencio
es toda la instrucción
Que recibirás
13
Hombre muriéndose
Luces del puerto
Sobre agua quieta
14
Autobús Greyhound,
fluyendo toda la noche,
Virginia
15
Por siempre y por siempre
todo está bien —
bosques de medianoche
16
Bebiendo vino
— la Reina de Grecia
en una estampilla postal
17
Bach a través
de una ventana abierta
los pájaros guardan silencio
18
Mañana fresca y con brisa
— el gato retoza
Sobre su lomo
19
Solo, en ropas
viejas, bebiendo vino
Bajo la luna
20
Mirándose mutuamente,
Ardilla en la rama,
Gato sobre el césped
21
Invierno — ese
nido de golondrina
Aún vacío
22
Mucha bebida & fiestas
de piano — llegó
23
El hijo empaca
sin hacer ruido mientras la
Madre duerme
24
Cierra los ojos —
El rentero llama
A la puerta trasera
Jack Kerouac, Instantes de desolada belleza (tradução e selecção de Fernando Cantú Jauckens in Con|fabulário)
Sobre la angustia de un amanecer
donde no estás.
Sobre el blanquísimo sol
y la dolorosa penumbra cuando llueve.
Sobre la angustia de los cómplices
traidores.
Sobre el golpe de las gotas
en el fondo.
Sobre la angustia del lazo
y las correas.
Sobre el más lento redoblar
de las campanas.
Sobre la angustia de los cielos
perdidos.
Sobre vicios y bondades y
desesperanza y melodías.
Sobre colmos y mañanas
el hombre será más que silencio.
Sobre la angustia de su propio miedo
prevalecerá.
Edel Morales, publicado em Malabia
Nem o próprio dilúvio
Foi eterno.
Um dia as negras
Águas partiram. Mas como,
É verdade, houve poucos
Sobreviventes.
Bertolt Brecht, Poemas, tradução, selecção, estudos e notas de Arnaldo Saraiva, Campo das Letras, Porto, 1998
a cidade entupida de clarões e
estridências insiste em não
dormir aos
poucos invade meu
corpo minhas
horas
frágeis
a cidade imunda e sempre
cheia de coisas muito
pouco importantes usurpa meus
dias e ninguém
mais
lê
meus
poemas
Adair Carvalhais Júnior
Aimer c'est la peur
Que d'un mot l'on décale
Pour ne pas laisser
L'indifférence ôter
Briser tous nos rêves.
* * *
Aimer c'est entrer
De plain pied
Dans un fait de lenteurs
De silences
Et de choix
Solitaire.
* * *
C'est céder à ses sens
Regarder
Devenir
Le corps alors
Incandescent.
Émeric de Monteynard, Aimer, le dire (extraits)
À luz clara tudo arde
Mas não pode ser só isto.
Arsenii Tarkovskii, «8 ícones» (fragmento), Col. Gato Maltês, Assírio & Alvim, Lisboa, 1987
Edward Hopper, Western Motel
Edward Hopper, Early Sunday Morning
Edward Hopper, Morning Sun
Dans nos ténèbres, il n'y a pas une place pour la Beauté.
Toute place est pour la Beauté.
René Char, Feuillets d'Hypnos
Cabeço de São Cornélio
Fotografia que o amigo Zef me enviou, com os seguintes dizeres:
«Não é dos Candeeiros, mas do Cabeço de São Cornélio, ao lado de Dirão da Rua, mesmo pertelinho do Sabugal.»
Ditosos olhos! Bem-haja, Zef. Dias felizes, muitos, que amanhã se comemoram!
meu mundo recende a
pólvora e fumaça ao
meu redor os
gritos continuam
aumentando os
desertos
meu mundo devasta a
pele faz a vida
morrer em cada
dia ceifa todos os
dias
cada vez mais
áridos vazios sem
lugar
meu mundo e meus
poemas
Castanheiro seco, Sabugal, 2005
A árvore é mais alta que ela própria, a árvore supera-se a si própria – por isso ela é tão alta. Uma dessas criaturas com as quais Deus, felizmente, não se preocupou, (elas tomam conta de si próprias) e sobem na direcção dos céus.
Rilke/Pasternak/Tsvétaïeva, Correspondência a Três, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006
Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo nos cai
em cima. Depois
ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam.
Não lhes sei o nome. Uma
ou outra parece-se comigo.
Quero eu dizer: com o que fui
quando cheguei a ser
luminosa presença
da graça,
ou da alegria.
Um sorriso abre-se então
num verão antigo.
E dura, dura ainda.
Eugénio de Andrade, Os Lugares do Lume, Fundação Eugénio de Andrade, 2ª ed, 1998
Thoreau ainda podia contar com a floresta de Waldau - mas onde está hoje a floresta na qual o ser humano prove que pode viver livre, e não limitado pelos rígidos moldes da sociedade?
Sou obrigado a responder: em parte alguma. Se desejo viver livre, é por enquanto necessário que o faça no interior desses moldes. Sei que o mundo é mais forte do que eu. E para resistir ao seu poder só me tenho a mim. O que já não é pouco. Se o número não me esmagar, sou, também eu, um poder. E enquanto me for possível empurrar as palavras contra a força do mundo, esse poder será tremendo, pois quem constrói prisões expressa-se sempre pior do que quem se bate pela liberdade. E no dia em que só o silêncio me restar como defesa, então será ilimitado, pois gume algum pode fender o silêncio vivo.
É este o meu único consolo.
Stig Dagerman, A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Fenda Edições & Norstedts Förlag, Lisboa, 2004
Odile Redon, Les yeux clos
confissão
todo poema é um risco
lançado sobre o
nada todo
poema ceifa completamente o
corpo
em cada angústia
vespertina arrisco todos
meus poemas naufrago na
carne
devastada
Adair Carvalhais Júnior, Desencontrados Ventos
Oh circe circe de lentas folhas
faz do esquecimento o brilho furtivo das maçãs
a pequena orgia da chuva na vidraça
os dentes miúdos da carícia.
Eugénio de Andrade, Véspera de Água, Editorial Inova, Porto, 1973
Às vezes penso que se tivesse de escolher um só poema...

fotografia por Isabel Munuera
Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...
Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
― Porque ides sem mim, não me levais?
Sem vós o que são os meus olhos abertos?
― O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos...
Fica, sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
― Estranha sombra em movimentos vãos.
Camilo Pessanha, Clepsidra, Editora Nova Crítica, Porto
Agradável coincidência, hoje, em Germina.
Deitar fora sem desgosto a tigela antiga que se partiu
(isto é: que eu parti)
e pensar com a risada de minha
Mãe: «Deixá-lo! Temos que fazer viver os oleiros!»
(a consolar-se do seu gesto desastrado)
e aceitar o passar
do tempo sem angústia e sem saudade
e dizer
como ela dizia sem palavras:
«O tempo fez-se para
passar!»
Ah sim! que passe e nos leve e não se fala
mais nisso!
Mas se ao menos nos levasse para o mesmo
sítio, Mãe!»
Teresa Rita Lopes, Afectos, Editorial Presença, Lisboa, 2000

Rodin, Orfeu e Euríce
EURÍDICE
Lançaste-me então para trás,
eu que poderia ter caminhado com as almas vivas sobre a terra,
eu que poderia ter dormido entre flores vivas
por fim;
então pela tua arrogância
pela tua truculência
fui lançada para trás
para onde o líquen morto escorre
escórias mortas sobre musgo de cinza;
então pela tua arrogância estou
por fim despedaçada,
eu que vivi inconsciente,
que fui quase esquecida;
se me tivesses deixado esperar
teria crescido da indiferença
para a paz,
se me tivesses deixado repousar com os mortos, ter-me-ia esquecido de ti
e do passado.
Ezra Pound (tradução de Filipe Jarro)

«Os seres imperfeitos agitam-se e acasalam-se para se completarem, mas as coisas só belas são solitárias como a dor humana.»
Marguerite Yourcenar, Gherardo Perini, in O Tempo, Esse Grande Escultor, Ed. Difel, Lisboa, 1983
Primeira Gramática da Linguagem Portuguesa, séc. XVI. Todos os começos são árduos, mas alguns guardam a candura da novidade, o ardor dos princípios. E a poesia das analogias no esforço descritivo.
* * *
Esta letra u vogal aperta as queixadas e prega os beiços, não deixando entre eles mais que só um canudo por onde sai um som escuro, o qual é a sua voz.
[…]
A pronunciação do m muge entre os beiços apertados, apanhando para dentro.
A pronunciação do n tine, diz Quintiliano, tocando com a ponta da língua as gengivas de cima.
[…]
O s singelo, diz Quintiliano, é letra mimosa, e, quando a pronunciamos, alevantamos a ponta da língua para o céu da boca e o espírito assobia pelas ilhargas da língua.
O ss dobrado pronuncia-se como o outro, pregando mais a língua no céu da boca.
[…]
Ao x nós lhe chamamos cis, mas eu lhe chamaria antes xi, porque assim o pronunciamos na escritura. Pronuncia-se com as queixadas apertadas no meio da boca, os dentes juntos, a língua ancha na boca e o espírito ferve na humidade da língua.
A pronunciação do z zine entre os dentes cerrados, com a língua chegada a eles e os beiços apartados um do outro.
A Gramática da Linguagem Portuguesa de Fernão de Oliveira, por Maria Leonor Carvalhão Buescu, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1975
Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado – esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido –
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso – e foi afinal o melhor de mim – é que nem os Deuses fazem viver...
[...]
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível pra mim.
Álvaro de Campos, 1928
Tem dó de quem não dorme,
de quem passa a noite à espera
que desperte o silêncio.
O vento devia cantar nos plátanos
com a lua nova, ser mais uma folha
feliz nos ombros do outono.
Mas o vento parecia ter endoidecido:
de leste a oeste varria
a rua, varria a noite: o vento
alegremente
varria o mundo ― em turbilhão
arrastava o lixo mil vezes imundo.
E o sono chegava.
Eugénio de Andrade, O Sal da Língua, Ed. Fundação Eug. Andrade, Porto, 1ª ed, 1995
Desenho de Tóssan
Deito-me no muro do quintal.
Aguardo o pôr do sol
quando os pássaros cantam
e a terra exala um cheiro quente
a caruma e a tojo.
No meio das árvores
a romãzeira florida parece descansar.
Chegou ao fim do seu dia.
Olho o sol.
E eu
quando chegarei eu?
Yvette K. Centeno, Algol, Colecção O Oiro do Dia, Editorial Inova, Porto, 1979
A todos os que nas noites tempestuosas das revoltas
procuram uma lua infantil
aos que já não tinham tempo, aos que foram esquecidos
na doçura do sono quando todos nos tinham abandonado
aos espelhos onde nos fitámos, aos mares que não
navegaremos
aos caminhos que percorremos apaixonados e a que talvez
não tenhamos voltado
ao destino, à bela juventude, aos viajantes
(e eu, aonde ia? e era assim tanto o que pedia? Mas agora é
tarde - tempo de partir)
às aves de arribação, às locomotivas a vapor que se
cansaram e se viraram de lado para dormir
às espigas que a luz ilumina, às raparigas que despem a saia
para entrarem no céu
às cartas de um anjo para um menino, aos que se atrasaram,
aos que nunca voltarão
à mulher que deita as cartas, ao velho que chora
à Odisseia que vive o poeta ao escrever o mais pequeno
poema
ao instante luminoso que viveu um homem vivendo uma
vida inteira...
Tasos Leivaditis, tradução de Manuel Resende, em Di Versos nº 8, revista semestral de Poesia e Tradução, Inverno de 2004

Manuel Alvarez Bravo, 1931
Basta un instante
para saber onde hai un ser humano:
Alí onde haxa ternura
para unha debilidade.
Onde haxa para un frío, un acto de calor.
Onde haxa, pola vida, absoluto respecto.
Alí onde haxa un ser que sinta a humillación
dun semellante como a súa propia humillación.
Alí onde non se confunda humor con burla
nin hipocrisía con amor.
Basta un instante para entender a dor.
Ramón Sampedro, Cando eu Caia, Edicions Xerais de Galicia, Vigo, 1998
Que país será o meu? Este,
onde vivo e sou estrangeiro?
O da luz atravessada
pelos cisnes? Sem ti, como saber?
Eugénio de Andrade, excerto
A. Dürer
Oh! Como se me alonga, de ano em ano,
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!
Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.
Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece,
mil vezes caio, e perco a confiança.
Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
se os olhos ergo a ver se inda parece,
da vista se me perde e da esperança.
Luís de Camões, Rimas, texto estabelecido por A. J. Costa Pimpão, Livraria Almedina, Coimbra

Notícia aqui.
* * *
GLOSA À CHEGADA DO OUTONO
O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...
Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
28/8/1958
Jorge de Sena, Antologia Poética

Paul Delvaux *
Hay tanta soledad en ese oro.
La luna de las noches no es la luna
que vio el primer Adán. Los largos siglos
de la vigilia humana la han colmado
de antiguo llanto. Mírala. Es tu espejo.
Jorge Luis Borges, Antología Poética 1923-1977, Biblioteca Borges, Alianza Editorial, Madrid, 2002
* Imagem oferecida por ocasião do primeiro aniversário do Nocturno com Gatos. Reproduzo-a, com os meus agradecimentos a mb.

Caminhando na praia
olho para trás -
nem uma só pegada.
Hosai Ozaka (1885 - 1926)
* * *
Crisântemo de Inverno -
apenas visitado pela sua
fatigada luz.
Shuoshi Mizuhara (1892-1981)
O Haicai no Século XX - Antologia, selecção e tradução de Casimiro de Brito e Ban'ya Natsuishi
Chagall
Se descalzan los días
para pasar de largo sin que nos demos cuenta.
Son casi despedidas, casi encuentros
– felices pero incómodos –
de cuerpos que se miran
y que aplazan la cita.
Aunque detrás,
suelen quedarnos huellas que no son los recuerdos.
De aquel jardín inculto yo conservo
el hombre que venía a desearte,
a caminar sin ti,
silvestre y solo.
Porque de ti le hablaban las adelfas,
con sus ramas difíciles como muchachas jóvenes,
y las palmeras altas igual que tu desnudo,
y aquel cielo corrido
que buscaba
la luz con que el amor te distingue los ojos.
No envejecemos nunca. Tal vez no envejecemos.
Y ahora puedo decírtelo,
cuando tú me recuerdas las adelfas,
y tu desnudo en arco dibuja una palmera,
y los ojos se nublan
sobre el jardín silvestre de los enamorados.
Tal vez no envejecemos. O es acaso que el tiempo
se quitó los tacones para no molestarnos.
O es acaso el deseo
que camina en los labios todavía descalzo.
Luis García Montero
Nos comentários ao poema anterior falou-se, naturalmente, de palavras. Às vezes, "umas chatas", disse o Paulo; um "círculo de luz", disse o Jorge; "perigosas ou inocentes e ambas as coisas", citou o Zef; e a mb ocorreu que um dia eu lhe dissera serem os melros os goliardos entre as aves.
Lembrei-me assim de Heloísa e Pedro Abelardo, de quem alguns dizem ter sido o percursor dos goliardos. Lembrei-me em particular das cartas que trocaram, sobretudo a primeira que, do convento de Paraclet, Heloísa envia a Abelardo - espécie de gatilho da comunicação. Lendo-a, quem poderá dizer que as palavras são inermes?
Encontrei há tempos, na revista online da Faculdade de Filosofia e Humanidades da Universidade do Chile, um ensaio acerca dessa primeira carta, ensaio que percorri com agrado e alguma malícia: porque Heloísa foi mulher e viveu há novecentos anos. E como argumenta bem com o mestre da Lógica - e o persuade! O ensaio é longo. Reproduzo aqui, traduzindo-os livremente, apenas alguns excertos sobre a natureza e o alcance do discurso amoroso.
HELOÍSA E ABELARDO: PALAVRAS DE AMOR
María del Pilar Jarpa Manzur
Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación
(...)
A primeira carta de Heloísa a Abelardo confessa uma petição de palavra. Através de argumentos que deslizam e se cruzam no texto, Heloísa implora traços da boca ou da mão do seu amado. Como numa ode, enaltece o poder da palavra. As suas cartas não contêm apenas um discurso acerca do amor, mas também o discurso do amor.
(...)
No entanto, que podia esperar Heloísa de Abelardo, se todo o contexto da sua relação se tinha desvanecido? Se todos os prazeres lhes tinham sido arrebatados? Se Abelardo era agora mudo para a linguagem erótica dos amantes?
Surgia então a palavra como possibilidade - talvez a única - do reencontro amoroso; como um antídoto contra a saudade e a melancolia; como um espelho em cujo reflexo regressaria - intacto - o ser amado.
(...)
A linguagem, forjada em cartas, concede-lhes a oportunidade de se contemplarem, de se tentarem, de regressarem um ao outro. «É como se tivesse palavras à maneira de dedos, ou dedos na extremidade das minhas palavras.» (Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso).
(...)
Desta perspectiva, a do amor, [as palavras] não podem ser vistas como meras etiquetas, meras instruções desvinculadas do real. Ancoradas no profundo do mundo, ligam-se 'realmente' ao que significam, e também a quem as profere e a quem as acolhe. E de tal maneira se tornam imprescindíveis, pois sustentam a alma.
Assim, a linguagem é erigida a lugar primordial da comunicação, do encontro e da consolidação. O desvelar do ser que se efectua através delas é também sustento para o enamorado. Aos que se encontram a mundos de distância, aos que se amam a contratempo, as palavras oferecem sortilégios.
No último vaivém da agonia, a ausência do outro torna-se intransigente, devastadora. Sem palavras tudo é queda, tudo é esquecimento, e perguntar-se-á como podem elas suster a alma. Responderemos que quando o amor já se não pode escrever na pele, talvez as palavras confiram um refúgio onde a fusão seja possível, onde o amor torne a dizer-se a duas vozes.
(...)
Abelardo dedicará até ao fim dos seus dias muitas palavras a Heloísa: cartas, tratados e até a sua controversa declaração de Fé. Mas nunca mais, nem dos seus lábios nem da sua pena, Heloísa voltou a ouvir palavras de amor... Pelo menos é isso que nos contam os vazios que o tempo costuma deixar.
em: http://www.uchile.cl/facultades/filosofia/publicaciones/cyber/cyber10/mjarpa.html#13
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E ouvimos dizer que são eróticos. Ah, sim, são eróticos; mas quem diz da noite de Junho que é «erótica», saturada pelo canto dos rouxinóis, num anseio quase ameaçador sob as estrelas febris? Ou quem chama «erótica» à sabedoria profunda e abençoada que tudo abarca e torna fértil, ou à alegria ou à morte ou ao dobrar dos sinos?...
Uma palavra regressa aqui à sua grandeza, ao terror e à glória: ao incomensurável.
Nestas folhas, nestas coisas, Eros, o deus, regressou para junto de nós — o Eros de Sócrates, talvez, que apesar de Fedro e do Banquete se perdera —: este tão doce e leve Eros, este espírito profundo, este amante grandioso e imodesto...
Ele tinha de tornar-se corpo; pois de que outro modo podem as artes plásticas tomar posse do espírito se todos os seus meios dependem dos sentidos, do palpável! — E quanto mais desenvolvem estes meios, quanto maior a paixão com que de si mesmas ganham consciência, tanto mais sensuais têm de tornar-se, mais é forçoso que mostrem o espírito através do corpo.
Para o criador vale ainda o que para Dante valia:
O corpo... é para ele a alma.
Rilke, sobre os desenhos de Rodin (1905), in Auguste Rodin e Rainer Maria Rilke, Momentos de Paixão, Relógio D'Água, Lisboa, 2004

Da Vinci, Testa di Giovinetta
Quand nous en serons au temps des cerises
Et gai rossignol et merle moqueur
Seront tous en fête
Les belles auront la folie en tête
Et les amoureux du soleil au cœur.
Quand nous en seront au temps des cerises
Sifflera bien mieux le merle moqueur.
Mais il est bien court le temps des cerises
Où l'on s'en va deux cueillir en rêvant
Des pendants d'oreilles
Cerises d'amour aux robes pareilles
Tombant sous la feuille en gouttes de sang.
Mais il est bien court le temps des cerises
Pendants de corail qu'on cueille en rêvant.
Quand vous en serez au temps des cerises
Si vous avez peur des chagrins d'amour
Evitez les belles
Moi qui ne crains pas les peines cruelles
Je ne vivrai pas sans souffrir un jour.
Quand vous en serez au temps des cerises
Vous aurez aussi des chagrins d'amour.
J'aimerai toujours le temps des cerises
C'est de ce temps là que je garde au cœur
Une plaie ouverte
Et dame Fortune en m'étant offerte
Ne saura jamais calmer ma douleur.
J'aimerai toujours le temps des cerises
Et le souvenir que je garde au cœur.
Canção de Jean-Baptiste Clément e Antoine Renard (1867)
Eugénio de Andrade faz hoje 82 anos. E há um silêncio em torno dele, um silêncio cuja qualidade conheço - conheci em outras situações. Um silêncio de que não gosto.
Então celebro: o esplendor das palavras e todos os princípios que nelas germinam.

Tom Chambers
Escrevo já com a noite
em casa. Escrevo
sobre a manhã em que escutava
o rumor da cal ou do lume,
e eras tu somente
a dizer o meu nome.
Escrevo para levar à boca
o sabor da primeira
boca que beijei a tremer.
Escrevo para subir às fontes.
E voltar a nascer.
Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede, Fundação Eugénio de Andrade, Porto, 2001

Constantin Brancusi
Há qualquer coisa de miraculoso no encontro em que Pedro repara pela primeira vez, com atenção, em Inês. O infante tinha chegado da Atouguia, com seu ar despreocupado, meio aborrecido e cheio de uma sede insaciável. Foi Inês que preparou na cozinha a bebida de Pedro. Ele agradeceu ligeiramente com a cabeça e bebeu, sem reparar em mais nada. Quando ergueu a cabeça e fitou o rosto de Inês, reparou, intrigado, que os cabelos desta pareciam despedir labaredas. Era um lume que crepitava em silêncio. Foi então que Inês, de forma inesperada, lhe encostou a ponta dos dedos na face. Todas as margens do ser, a esse contacto, foram incendiadas, os diques derrubados. Foi, porém, um gesto inocente, quase pueril. A célebre gaguez de Pedro pode datar desse instante. O amor foi nele o terror dum susto. [...]
Inês ganhou Pedro e depois a própria coroa portuguesa, não por um privilégio de matrimónio, mas pelo privilégio humano dos seus próprios dons. Ela encarnava qualidades humanas raras e todo o seu corpo era a expressão silenciosa das mais altas virtudes do homem. [...]
- Senhora, abri, que é El-Rei de Portugal.
Inês estava junto da janela onde esvoaçava o lençol branco do seu enxoval. Mandou Fátima ir passear pela alameda com as crianças. A solidão do aposento apareceu-lhe como a expressão do seu sacrifício. Preparava-se para a morte como se tinha antes preparado para o amor. Penteou-se e vestiu-se de branco. Inês vestiu-se de branco para morrer e pôs nas mãos um colar de pedras que Pedro lhe dera. E fê-lo, não para interpelar Afonso, mas para mostrar à morte a sua aliança com a vida. [...]
A entrada do rei e dos seus conselheiros nos aposentos de Inês foi intempestiva. Vinham sobretudo preparados para um longo desacordo com Inês, mas a gelada indiferença desta petrificou-lhes os intentos. Todas as tradicionais hesitações atribuídas a Afonso no momento de assassinar Inês devem-se justamente à inesperada atitude dela: nem filhos nem palavras. É fácil vencer um opositor armado e feroz, mas é difícil matar uma mulher que, em vez de brandir argumentos, nos apresenta um vestido branco cheio de silêncio. [...]
O sol declinava no horizonte. Afonso trazia enfim a mão manchada de sangue e os olhos baixos. [...]
Pedro, de madrugada, quando chegou à alameda dos olhos de água, onde hoje é a fonte dos amores, avistou o lençol branco a esvoaçar ao vento. Teve de arrombar sucessivas portas fechadas, no palácio deserto, enquanto gritava desalmadamente por Inês. Quando viu o corpo de Inês desfeito em sangue, a voz ficou-lhe presa na garganta. A célebre gaguez de Pedro, tão falada por Femão Lopes, não era congénita. A gaguez de Pedro foi a consequência imediata da morte de Inês. Se o amor, em vida de Inês, lhe tirou o significado das palavras, o amor, com a morte, tirou-lhe para sempre a fala. Era de madrugada e em Coimbra levantavam-se os primeiros rumores sobre a morte de Inês de Castro. Amanheceu baço e sem luz aquilo que foi o dia.
António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, Lisboa, 1990
Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo;
Un instante cualquiera es más profundo
Y diverso que el mar. La vida es corta
Y aunque las horas son tan largas, una
Oscura maravilla nos acecha,
La muerte, ese otro mar, esa otra flecha
Que nos libra del sol y de la luna
Y del amor. La dicha que me diste
Y me quitaste debe ser borrada;
Lo que era todo tiene que ser nada.
Sólo me queda el goce de estar triste,
Esa vana costumbre que me inclina
Al Sur, a cierta puerta, a cierta esquina.
Jorge Luis Borges, El Otro, El Mismo, in Obras Completas, Tomo II, Emecé Editores, Barcelona, 1989

Fra Angélico
«Amor é um dos nomes de Deus, justamente o mais luminoso.»
Eugénio de Andrade, Tão perto do coração
Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.
Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede, Fundação Eugénio de Andrade, 2ª ed, Porto, 2001
Tentava lembrar-me de um conto sobre um onnagata célebre. De Mishima, o conto. Seria do livro "O Tumulto das Ondas"? Talvez de "Morte em Pleno Verão"? Se fosse deste (e era) não poderia relê-lo: emprestei o livro a alguém que gostou tanto dele que lho ofereci. Está em paz, esse livro, o que não posso dizer de todos os que emprestei.
Incluía também, essa perdida colectânea, um outro conto que me comoveu profundamente, a história de um homem que, enfrentando um dilema, não vê outra solução além do seppuku e pede à esposa que seja a testemunha do suicídio. Invulgar pedido para se fazer a uma mulher, e prova do amor que unia o casal. Ela segui-lo-á, depois. É um texto arrepiante, pela descrição minuciosa do suicídio ritual. Eros e Thanatos entrelaçam-se intimamente, e a atmosfera trágica (a da inocência impiedosamente castigada pelo destino inelutável que esmaga os melhores) é de uma beleza terrível. Talvez volte a comprar o livro. O meu projecto de ter apenas três - os indispensáveis - continua muito longe de alcançar. É difícil o despojamento. E saber por fim quais serão os três livros indispensáveis.
Também pesquisei na internet, onde o acervo é de tal ordem que me perdi, entrei noutros ramos do labirinto da informação, encontrei maravilhas. Entre as páginas que visitei, uma exposição sob o título: «Universes in Collision, Men and Women in 19th-century Japanese Prints». Não resisto a reproduzir aqui algumas das imagens, muito belas, representando cenas de Kabuki (afinal foi pelos onnagata que esta busca começou), bem como excertos dos comentários que as acompanham e alguns dos poemas que as complementam - excertos e poemas em tradução livre, minha.
* * * * * *
Universos em Colisão
Os amantes jogam com a vida e a morte
o mais perigoso de todos os jogos
Ihara Saikaku (1641-1693)
Utagawa Kunisada (1786-1864), cena de uma representação de Kabuki, 1842
Num cenário nocturno, à neve, um homem e uma mulher lutam apaixonadamente por uma espada envolta numa esteira. Nas pinturas japonesas, a neve apresenta com frequência conotações sobrenaturais, ou pelo menos dramáticas. Também as espadas, como os botões de cerejeira e os crisântemos, detêm um significado espiritual. A violência e a pureza coexistem na mesma desesperada cena.
* * * * * *

Tsukioka Yoshitoshi (1839-1892), Demência, 1889
Uma mulher enlouquece, depois da morte do amado, e desenrola a última longa carta que ele lhe enviou e que ela leu até a reduzir a farrapos. Parece ser o nascer da lua, como indiciando o regresso do amor à sua infortunada casa. Na vida, como na arte, homens e mulheres, no Japão tradicional, comunicavam frequentemente através de cartas poéticas, frágeis pontes entre os seus mundos separados.
* * * * * *

Utagawa Kuniyoshi (1798-1861), Edo Murasaki, ca 1850
A palavra Murasaki pode referir-se à grande novelista medieval japonesa, ou à cor púrpura do traje da mulher; Edo é a actual Tóquio. Mas a cena surpreende pela sua ambiência de aprazível e doméstica normalidade. Embora o homem que lava as mãos aguarde a mullher com a toalha, não há traços de servilismo, e eles trocam amigáveis olhares.
* * * * * *
Tsukioka Yoshitoshi (1839-1892), A história de Jirozaemon of Sano, 1886
A mais bela das cortesãs assemelha-se a uma deusa aos olhos de um rústico como Jirozaemon, que se apaixona por ela e a assassina quando é repelido. O teatro Kabuki mostra-nos tanto a adoração como as perseguições de que as cortesãs eram alvo. A versão de Yoshitoshi mergulha o espectador em sangue e lirismo, enquanto as cartas de amor da cortesã voam como pássaros.
* * * * * * * * * * * *
Tu e eu vivemos no interior de um ovo
e eu, eu sou a clara
envolvo-te e embalo-te dentro do meu corpo.
Canção de uma gueixa anónima
* * *
Para punir os homens pelos seus pecados,
Deus fez-me esta pele macia
deu-me estes longos cabelos negros.
Yosano Akiko, 1878-1942
* * *
Esta noite sonhei
Que empunhava uma espada contra o meu corpo nu.
Que significará?
Que em breve estaremos juntos.
Kasa no Iratsume, 8th Century
* * *
Os deuses celestes são irracionais:
Eu podia morrer sem haver-te conhecido,
a ti a quem amo tanto.
Kasa no Iratsume, 8th Century
* * *
A lembrança de longos encontros amorosos é como a neve derretendo
Pungente como os patos mandarins flutuando lado a lado no sono.
Lady Murasaki (Murasaki Shikibu), 974-1031

foto de Debe Hale
ONE ART
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
Elizabeth Bishop
(Agradeço à minha amiga Eneida Leite, que me pôs na pista deste poema)
UMA ARTE
A arte de perder não é difícil de se dominar;
tantas coisas parecem cheias da intenção
de se perderem que a sua perda não é uma calamidade.
Perder qualquer coisa todos os dias. Aceitar a agitação
de chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar.
Então procura perder mais, perder mais depressa:
lugares e nomes e para onde se tencionava
viajar. Nenhuma destas coisas trará uma calamidade.
Perdi o relógio da minha mãe. E olha! a última, ou
a penúltima, de três casas amadas desapareceu.
A arte de perder não é difícil de se dominar.
Perdi duas cidades encantadoras: E, mais vastos ainda,
reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto a falta deles, mas não foi uma calamidade.
- Mesmo o perder-te (a voz trocista, um gesto
que amo) não foi diferente disso. É evidente
que a arte de perder não é muito difícil de se dominar
mesmo que nos pareça (toma nota!) uma calamidade.
in Poemas de Marianne Moore e Elisabeth Bishop, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Campo das Letras , 1999
(E agradeço à Amélia Pais pela tradução, que eu sou demasiado preguiçosa para ensaiar, e que agora acrescento.)

Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Manuel Bandeira, Libertinagem, in Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993
Si alguna vez sufres — y lo harás —
por alguien que te amó y que te abandona,
no le guardes rencor ni le perdones:
deforma su memoria el rencoroso
y en amor el perdón es sólo una palabra
que no se aviene nunca a un sentimiento.
Soporta tu dolor en soledad,
porque el merecimiento aun de la adversidad mayor
está justificado si fuiste
desleal a tu conciencia, no apostando
sólo por el amor que te entregaba
su esplendor inocente, sus intocados mundos.
Así que cuando sufras — y lo harás —
por alguien que te amó, procura siempre
acusarte a ti mismo de su olvido
porque fuiste cobarde o quizá fuiste ingrato.
Y aprende que la vida tiene un precio
que no puedes pagar continuamente.
Y aprende dignidad en tu derrota,
agradeciendo a quien te quiso
el regalo fugaz de su hermosura.
Felipe Benítez Reyes, Los Vanos Mundos, in Trama de Niebla, Poesia Reunida 1978-2002, Tusquets Editores, Barcelona, 2003
Os primeiros cinco discos de Leonard Cohen, até New Skin For The Old Ceremony (1974), foram e permanecem para mim - todos eles - objecto de veneração. Depois, só com Recent Songs, em 1979, reatámos a velha magia. E, a partir daí, se a minha relação com o poeta e o músico continuou apaixonada, é porque lhe sou fiel de um modo difícil de explicar a quem não for coheniano.
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Dear Heather acaba de sair neste Outubro de 2004. À primeira audição não gostei do cd. Agora enternece-me, tal como os 70 anos do músico. A voz, mais rouca, apoia-se nas das acompanhantes e nos arranjos. Mas em todo o cd uma melancolia suave e reconciliada e, sobretudo, alguns pequenos maravilhosos poemas. Como este que transcrevo. Quem, além de Cohen, falaria assim das mulheres, com essa terna, irónica cumplicidade, que se percebe mútua? Este é um jogo muito antigo.
Because Of
Because of a few songs
Wherein I spoke of their mystery,
Women have been
Exceptionally kind
To my old age.
They make a secret place
In their busy lives
And they take me there.
They become naked
In their different ways
And they say,
"Look at me, Leonard,
Look at me one last time."
Then they bend over the bed
And cover me up
Like a baby that is shivering.
Leonard Cohen

Um pedaço de pão, um copo de água fresca,
a sombra de uma árvore e os teus olhos!
Nenhum sultão é mais feliz do que eu.
E nenhum mendigo é mais triste.
* * *
Escuta este grande segredo:
Quando a primeira aurora iluminou o Mundo,
Adão já não era mais que uma criatura dolorida
que invocava a noite e a morte.
* * *
Não se pode incendiar o mar
nem convencer o homem de que a felicidade é perigosa.
Ele sabe, todavia, que o menor choque é fatal à ânfora cheia
e deixa intacta a ânfora vazia.
Omar Khayyam, Rubaiyat, Odes ao Vinho, Moraes Editores, Lisboa, 1981
K. H. de Josselin de Jong
Nossa Senhora da Ternura,
Abre a ele tua alma pura.
Dissipa a sua noite, e ele veja
Onde estás. Tua mão o proteja.
Afasta-o, Mãe, da gente má,
Para que a ti, puro, ele vá.
Guarda-o da dor, dá-lhe a alegria,
Para que, junto a ti, sorria.
Dá-lhe aos olhos pudor bastante
Para visão de teu semblante.
Dá-lhe compreensão maior,
Para que entenda o que é o amor.
E além da morte, em teu regaço
Descanse enfim seu corpo lasso.
Nossa Senhora da Ternura,
Bendita sejas, Virgem pura.
tradução de Manuel Bandeira, em Poemas Traduzidos
No se descarta que al salir del cine
una pareja cuente con nuevos enemigos.
La pelicula es mala,
las sombras buscan cuerpos para encontrar deseos,
se oyen voces de actores,
imágenes dudosas,
pero los labios son materia viva
en las butacas observadas
y los botones pierden su vergüenza.
Suena un disparo inútil,
la camisa deshecha,
la mano que naufraga entre los muslos.
Se persiguen dos coches por tus hombros
y estalla un edificio,
una lengua de fuego en la ventana,
llamas que desesperan vientre abajo,
el pelo negro por la mano abierta,
negro como la vida en la pantalla,
como el silencio del actor que mira,
del acomodador,
del público encendido.
Ya no tienen edad para estas cosas,
comienta el matrimonio da la última fila.
Y pienso que es verdad. No se descarta,
no se descarta que al salir del cine
una pareja cuente con nuevos enemigos.
Luis Garcia Montero, Completamente Viernes, Tusquets Editores, Barcelona, 1998

«Há quase setenta e três anos que te conheço, vida louca, e parece-me que tenho ainda de te descobrir. Ainda não te encontrei, morte danada, mas parece-me que te conheço de cor. (...)
Il faut vivre d'amour, d'amitié, de défaites.
Donner à perte d'âme, éclater de passion
Pour que l'on puisse écrire à la fin de la fête:
Quelque chose a changé pendant que nous passions.»
(Serge Reggiani, Último Correio Antes da Noite, Campo das Letras, Porto, 1996)
Para que possamos dizer que algo mudou quando nós passávamos, diz ele. E mudou. Tantas canções na voz de Reggiani, ouvidas ao longo de tantos anos, e que se tornaram, com a maravilhosa voz, uma parte do meu imaginário e da minha construção do mundo. Canções como esta, por exemplo, pela qual tenho um particular carinho:
LE PETIT GARÇON
Ce soir, mon petit garçon
Mon enfant, mon amour
Ce soir, il pleut sur la maison
Mon garçon, mon amour
Comme tu lui ressembles!
On reste tous les deux
On va bien jouer ensemble
On est là tous les deux
Seuls
Ce soir elle ne rentre pas
Je n'sais plus, je n'sais pas
Elle écrira demain peut-être
Nous aurons une lettre
Il pleut sur le jardin
Je vais faire du feu
Je n'ai pas de chagrin
On est là tous les deux
Seuls
Attends, je sais des histoires
Il était une fois
Il pleut dans ma mémoire
Je crois, ne pleure pas
Attends, je sais des histoires
Mais il fait un peu froid, ce soir
Une histoire de gens qui s'aiment
Une histoire de gens qui s'aiment
Tu vas voir
Ne t'en vas pas
Ne me laisse pas
Je ne sais plus faire du feu
Mon enfant, mon amour
Je ne peux plus grand-chose
Mon garçon, mon amour
Comme tu lui ressembles!
On est là tous les deux
Perdus parmi les choses
Dans cette grande chambre
Seuls
On va jouer à la guerre
Et tu t'endormiras
Ce soir, elle ne sera pas là
Je n'sais plus, je n'sais pas
Je n'aime pas l'hiver
Il n'y a plus de feu
Il n'y a plus rien à faire
Qu'à jouer tous les deux
Seuls
Attends, je sais des histoires
Il était une fois
Je n'ai plus de mémoire
Je crois, ne pleure pas
Attends, je sais des histoires
Mais il est un peu tard, ce soir
L'histoire des gens qui s'aimèrent
Et qui jouèrent à la guerre
Écoute-moi
Elle n'est plus là
Non... ne pleure pas...
Letra de Jean-Loup Dabadie, música de Jacques Datin, 1967
Linda Connor
na casa desabitada tua
voz silenciosa preenche
meus vazios invade meus
ocos venta na minha
insensatez
e me intima a amar-te na tua
cidade sem causa ou
efeito feito uma
calamidade
pública
mas os aeroportos estão todos fechados
Adair Carvalhais Júnior, Desencontrados Ventos, Outras Letras Editora, Rio de Janeiro, 2002

Rêver un impossible rêve
Porter le chagrin des départs
Brûler d'une possible fièvre
Partir où personne ne part
Aimer jusqu'à la déchirure
Aimer, même trop, même mal,
Tenter, sans force et sans armure,
D'atteindre l'inaccessible étoile
Telle est ma quête,
Suivre l'étoile
Peu m'importent mes chances
Peu m'importe le temps
Ou ma désespérance
Et puis lutter toujours
Sans questions ni repos
Se damner
Pour l'or d'un mot d'amour
Je ne sais si je serai ce héros
Mais mon cœur serait tranquille
Et les villes s'éclabousseraient de bleu
Parce qu'un malheureux
Brûle encore, bien qu'ayant tout brûlé
Brûle encore, même trop, même mal
Pour atteindre à s'en écarteler
Pour atteindre l'inaccessible étoile.
Jacques Brel
O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê
O poema alguém o dirá
Às searas
Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento
O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento
No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas
(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)
Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, 1962

Turner - Pôr do sol sobre um lago, 1840 - Tate Gallery, Londres
As fontes regressam
de que incêndio cativas?
Eugénio de Andrade, Véspera de Água, Editorial Inova, Porto, 1973
porque
«a pátria (...) está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dua austera, apagada e vil tristeza.»
E porque Camões é «um esplendor» - como diz a minha amiga Amélia Pais, referindo-se ao Poeta que ao longo de anos vem divulgando. Há relações assim felizes e frutíferas. Como muitos, sou-lhe devedora no que respeita a um melhor entendimento de Camões. Fica aqui o público registo dessa dívida. E o convite para uma festa.