De Salvador, Bahia, recebo um convite gentil da Ana Cecília, para que me junte a esta ciranda que já antes passou por aqui sem que eu tivesse tido oportunidade de responder. Desta vez faço-o imediatamente, animada pelo facto de ter em cima da mesa um livro com mais de 161 páginas.
A ciranda inclui os seguintes passos:
- Agarrar o livro mais próximo: Orlando Furioso, de Ariosto.
- Abri-lo na página 161: é o início do Canto X.
- Procurar a 5ª frase completa... Eu sabia que algo ia correr mal, não há cinco frases nesta página! A bela ilustração de Doré, que antecede o Canto X, ocupa a maior parte dela.
- Transcrever a frase no blogue: tenho de desacertar o passo, mas não saio da ciranda, transcrevo a última frase da página:
E, se almas tão devotas e leais
são dignas de um amor de igual acerto,
Olímpia é digna que amor mais pequeno
sinta por si que por ela Bireno;
e de por ele não ser abandonada
por outra mulher, inda fosse aquela
que Europa e Ásia pôs alvoraçada,
ou outra que seja ainda mais bela;
antes a vista lhe seja tirada,
ouvido, gosto e fala, mas não ela,
e sua vida e a fama gloriosa,
ou coisa porventura mais preciosa.
- Passar a cinco pessoas: à Rita, à Joana, ao Daniel, ao Luís e ao Paulo. Quando tiverem tempo, porque os jovens de 30 anos ou menos têm vidas muito preenchidas. E aqui impunha-se um smile .

[...] coisas como o sentido da vida, a busca de uma transcendência, a morte e a passagem do tempo, o conflito das gerações e por aí fora, não têm mais importância do que pôr e tirar o chapéu, beber um copo de água, fumar um cigarro, dar uma gorjeta, colher uma flor ou coçar o nariz. A vida passa-se a todos os níveis e porventura mais nos que não conseguimos nomear. Ninguém vale mais que o outro, tudo conta e de tudo depende cada destino. Cada silêncio tanto como o que se diz. O infinitamente grande só se vê com um microscópio. Porque a vida é assim. [...]
Eu ainda choro com esta sensação de vida. Ainda não desisti de ser apaixonado. Já sinto passar o tempo, mas ainda não quero chegar à idade da sabedoria.»
Luís Miguel Cintra,
Sons da adolescência, onde as canções mergulham raízes longas.
Well the sun is surely sinking down
But the moon is slowly rising
So this old world must still be spinning around
And I still love you
So close your eyes
You can close your eyes
It's all right
I don't know no love songs
And I can't sing the blues anymore
But I can sing this song
And you can sing this song when I'm gone
It won't be long before another day
We're gonna have a good time
No one's gonna take that time away
You can stay as long as you like
So close your eyes
You can close your eyes
It's all right
I don't know no love songs
And I can't sing the blues anymore
But I can sing this song
And you can sing this song when I'm gone
You Can Close Your Eyes - James Taylor Lyrics
Canta o granizo na janela
e os fios de água constelam
olhos de vento e de inverno
que jardins breves invadem;
depois somem-se na lembrança.
Fica esta sala agora aqui:
a janela a mesa livros o esfumado
auto-retrato de um pintor. Muito frio.
E do rádio na cozinha uma cantiga
Santa María, váleme, ai Señor!
de Afonso Dez de Castela.
Soledade Santos
Na claridade do seu olhar poético, na música dos seus versos, perpassa um desencanto, uma melancolia subtil - porque toda a beleza é efémera ou intocável, toda a comunhão, adiada, o passado sem remédio, e a vida, enfim, uma brevidade sem apelo.

É com muita alegria que saúdo a publicação, pelas Edições Sempre-Em-Pé, deste livro do Nuno Dempster, anunciada já aqui e também aqui .
O excerto acima, em itálico, retirei-o das badanas. O poema que transcrevo abaixo integra Inventário, a última das sete partes que confluem neste livro maravilhosamente arquitectado. E refiro a arquitectura do livro porque, tanto quanto cada poema concebido singularmente, é cheio de sentido e de um ritmo próprio o modo como esses poemas foram organizados em áreas temáticas, e estas, dispostas no livro.
1.
Não é sem alegria que olho em volta,
mesmo nesta hora longa de inventários
virtualmente unidos num apenas,
atravessando o tempo construído
com paciência, verso a verso,
até exaurir o que parece inexaurível.
A memória é um largo campo
com imagens tão díspares
como o voo dos patos ao cair do sol
e um homem trespassado de estilhaços
na selva da Guiné, sem perceber
porque a vida se lhe ia com o sangue,
talvez selando o peito
com a palavra azar, sem nenhum deus
ou lugar que o remisse, bicho casual
que deveria ter nascido anos depois
para tentar a sorte, o carro, a casa,
a mulher que o esperava com os dois anéis,
a vida degradada e o país podre,
com certeza pequenos sinais usados
em prosa de ficção, evitando-se a mãe
que chorava em silêncio a sua morte,
isto é, o melodrama, precisando:
o excesso de verdade, arquétipo difícil.
E no entanto não é sem alegria
que olho em volta de mim,
por dentro de mim mesmo, e sei
ter visto algo só meu,
as estrelas cadentes do Verão,
aquelas que riscavam certas noites
e que não mais irão voltar.
Não falo das estrelas
que atravessam o céu como antes,
são meteoritos apenas,
mas das noites vividas, horas únicas,
não interessa qual a sensação,
sequer os sentimentos que seguiam
o traço luminoso e breve,
interessa a riqueza vária e vaga
que juntei e descrevo longamente,
ó doce solidão enumerável.
Nuno Dempster, Dispersão - Poesia Reunida, Colecção Galáxia/Poesia, Edições Sempre-em-Pé, 2008
VIRÁ A MORTE E TERÁ OS TEUS OLHOS
Virá a morte e terá os teus olhos
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra vã,
um grito emudecido, um silêncio.
Assim os vejo todas as manhãs
quando sobre ti te inclinas
ao espelho. Ó cara esperança,
nesse dia saberemos também nós,
que és a vida e és o nada.
Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como deixar um vício,
como ver no espelho
re-emergir um rosto morto,
como ouvir lábios cerrados.
Desceremos ao vórtice mudo.
Cesare Pavese (tradução de Jorge de Sena)