Cheguei a ter medo de te perder,
tu não chegaste sequer a ter medo.
Este silêncio de já não termos palavras
ouve-se nas outras palavras que trocamos.
Miserável mundo nosso e alheio,
igual ao que todos disseram da sua época,
e pior, porque este vivemos nós
e conhecemos nós, cada um conforme pode.
Já morrerem os ídolos todos da infância
e os da adolescência vão a caminho,
sobrevivente é o teu olhar cego
(hoje há já só um dos Righteous Brothers).
Na feira de velharias uma caixa
para tabaco com uma rosa verde.
Tem o preço ainda em escudos, uma falha
num dos cantos, uma pequena cruz de cal.
Permaneces aí, à lareira, lendo livros vivos
e o seu turbilhão de palavras profundas.
Nunca mais chega o medo de nos perdermos,
eco um do outro em ricochete de silêncios.
Helder Moura Pereira, Mútuo Consentimento, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005

Eugène Delacroix
Um corpo tem a lembrança excessiva de outro corpo
um corpo já não tem imaginação
não tem paciência com nenhum outro corpo
Henri Michaux, Inigi, em A Rosa do Mundo, Assírio & Alvim, 2000
passa uma musiquinha triste
na rádio a gata dorme o aconchego
da melodia casa vazia
uma cesta e o girassol amarelo
é quanto lhe basta para ser feliz
eu não me contento com tão pouco
um girassol amarelo a musiquinha
uma cesta tem mais do que eu
a gata não espera nada e tem
me a mim também
Soledade Santos