Janela aberta e a manhã entra no quarto
cinzenta
o céu as ondas as gaivotas
planando na tempestade
ao nível do olhar.
Os pingos de chuva tangem
a pele e atravessam a memória –
nunca estive aqui.
Sem linha-guia respondo
com o que invento
a polpa dos dedos o espanto.
Não me interrogo
e se o fizesse não quereria respostas.
Soledade Santos

Eis que chega a lua de Outono:
nos jardins adormecidos
galhos de prata – cordas tensas –
mal vibram no sumir-se o vento.
Soledade Santos
No cimo do choupo restam três folhas
solitárias, só três:
quietas e cinzentas ao vento, à chuva
como de vidro denso.
Olhando-as, sei que outro ano passou.
E eu, que farei eu da minha fidelidade?
Soledade Santos
Zhang Xiaogang (sem título)
Talvez no inverno
me tenhas oferecido uma pedra,
acesa, tão acesa que a guardava
ora na mão esquerda, ora na outra.
Viraram-se os dias como páginas,
e a pedra, pouco a pouco, congelando.
O que as minhas mãos juntaram
acabou por ser apenas sombra.
Yao Feng