Acorda-se ao som estridente
Dum galo a cantar ao longe,
Depois abrem-se as cortinas
Para ver as nuvens que voam -
E sente-se a estranheza de ter
Como elas o coração frio e sem amor.
Philip Larkin, Uma Antologia, trad. de Teresa Guerreiro, Editorial Minerva, Lisboa, 1989
Chega ao fim outro dia
na inclinação do sol
que terno insiste ainda
em fulgores de azul
em cirros sem destino
revérberos de luz.
Ignorando-o recolho
maceradas estrelas
sílica de orion
e cassiopeia dança
o perfeito contorno
do silêncio do sono
que às vezes não vem.
Sei os teus olhos cheios
de objectos nenhum deles
o temporão pirilampo
que ardendo vai subindo
na fronteira da noite
desta janela os vidros.
Sei dos teus gestos breves
e a área viva do corpo
sabendo nada sei
calando me adormeço
em vão fluem meus rios
e derivam para sul.
Soledade Santos
Se atrás dos vidros fechados
a casa se arredonda
e o vento agreste chama,
sobem da noite as crinas salgadas:
frontões pilares colunas
deste bravio coração nosso.
Do mundo lá fora
o vento limpa a amargura –
e eis que a manhã nasce
claríssima sunion inabitada.
Soledade Santos
Nicolas De Satel
CONSOLO
posso arranjar consolo
nas coisas mais insignificantes
o rapazinho que tem o teu nome
e mora na minha rua
gosta de fazer pequenos recados
em troca de um chocolate
Soledade Santos