
Gilbert and George, Dream, 1984
«O Conselho Europeu de Lisboa, em Março de 2000, estabeleceu como principal objectivo para a política educacional da União produzir um capital humano rentável ao serviço da competitividade económica»
Richard Hatcher - citado neste Nocturno com Gatos em Maio de 2005
«...é necessário pressionar a escola para que forme a mão de obra que convém: numerosa e pouco instruída...»
Manuel Madaleno, citado em Professores Contratados e Desempregados , numa entrada onde muito claramente se explica a perversidade da escola dos resultados e o insucesso *real*, aquele que as estatísticas não dizem, pedra inamovível, fixada ao chão mais raso.
The Doors,1967
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foto de Bostan Alexander
no dia em que se cumprem dois anos sobre a sua morte, no mesmo dia em que celebramos o aniversário de Fernando Pessoa. Mas hoje Eugénio, o meu primeiro poeta, o primeiro que descobri sozinha, sem intermédio da família ou da escola. Encontro solitário e deslumbrante que selou para sempre uma fidelidade.
Todos os paraísos tiveram sempre a dimensão do homem, e os deuses que lá habitaram nunca foram mais que o reflexo da sua face branca, da sua face negra. A história dos deuses é o espelho da nossa aflição, da nossa esperança. O paraíso de hoje volta a reflectir as mesmas ilusões: começa a povoar-se de robots. O desamparo inventa sempre uma tábua de salvação: a última é a superstição da técnica. Uma vez mais o homem declina o seu nome, enquanto os deuses mudam de manto e ajeitam a coroa.
Nem cristal nem lixo, mas lixo-e-cristal é o nosso tempo. E não temos outro onde mergulhar as raízes. Nele teremos de acabar de nascer, se algum destino nos foi reservado ou alguma paixão consentida. É um tempo ambíguo, como se sabe: estamos num limiar.
(…)
Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor.
Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras e máscaras. E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o priviléqio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em «cadáver adiado que procria», como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação (...)? Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade — eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem.
Eugénio de Andrade, "Resende entre a Angústia e a Esperança", em Os Afluentes do Silêncio, Editorial Inova, Porto, 1974
Pouco antes de morrer
disse ele ao povo:
Deus te dê ira,
que paciência tens demais.
Celso Emílio Ferreira, em Mesa de Amigos, versões de poesia por Pedro da Silveira, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002
Que faço em dia de tranquilas inspirações,
dia de brumas cálidas e horizonte próximo?
Entre a mão e o objecto permanecem
inexcedíveis cumes do tempo e da distância.
Levei pelas noites uma ânsia côncava
que a manhã alisou. Agora plana de vazio,
não me acha ocupação o gume desta quilha
a que as águas do sono anularam o fio.
Procuro a beleza das agonias na manhã baça,
responde-me um eco de verões extintos e o harpejo
das fissuras geladas do inverno, um eco
que as brumas adormecem como algodão em rama.
Soledade Santos