Sai um sol fraquinho entre chuvadas
e as aves aproveitam-no;
eu desperdiço-o encostada à vidraça.
E vêm-me à ideia
uns versos de Camões sobre a mudança.
Parece que neste
universo em permanente
revolução
só eu me fixo a nada.
Soledade Santos
espera um pouco sei
que é branca a luz que bebo
nas sílabas dos sulcos dos teus olhos
e nem rasgões da boca acesa
podem contra ela
pouco me resta a dizer-te mas
espera ouve
a fala exausta prende-se perde-se
nada
maremoto algures
fonte
da respiração de
cantar sons
palavras
deixa
vai tenho
a fala presa
à vegetação deste lugar
Soledade Santos

Entrevista a Ingedore Villaça Koch, 76 anos, linguista.
A especialista da Unicamp sugere caminhos para os professores reverterem os índices oficiais, que mostram alunos (...) incapazes de interpretar textos.
Em primeiro lugar, não se deve ensinar a língua só com base na gramática. Segundo, é preciso expor os alunos a muita leitura. A gramática deve ser usada para mostrar como os textos funcionam. Para mostrar quais as pistas que um texto dá para que o leitor seja capaz de construir um sentido. Muito professor diz que baseia seu trabalho no texto, mas se limita a pedir ao aluno que destaque nos enunciados um dado número de substantivos ou de pronomes. Esquecem, por exemplo, que os elementos de coesão, importantíssimos num texto, são todos gramaticais.
O ensino da gramática não ajuda à produção e compreensão de textos?
Ensinar a gramática pela gramática não leva à produção de textos melhores. Se os alunos reconhecerem como os elementos da gramática melhoram a organização textual, o ensino ganha vida.
Um modelo calcado na gramática pela gramática fez o Brasil ter baixos índices de compreensão de texto?
Ajudou. Faz com que o aluno decore listas de adjetivos, aumentativos, verbos, sem ver utilidade nelas. Seria diferente se ele fosse perguntado por que um período se liga a outro, que elemento permitiu isso, que função se estabelece entre um enunciado e outro. E só então informá-lo que se trata de conjunção, locução conjuntiva ou prepositiva, se é substantivo ou expressão nominal que retoma algo já apresentado, mas que abre caminho para informação nova. O texto é como um crochê. Você dá o primeiro ponto, pega a agulha, puxa e dá outro, e assim vai. Quais elementos ajudam a puxar o primeiro ponto? Quais costuram duas partes? Mostrando esse funcionamento, aprende-se gramática no texto.
Tem razão quem diz que não se deve ensinar gramática no ensino médio?
É preciso priorizar a construção do texto, mas deve haver momentos de reflexão sobre os elementos da língua que permitem isso. Não se pode abandonar a gramática, nem haver só o ensino gramaticóide. (...) Primeiro deve-se dar o uso, a função, o trabalho com a língua. Depois a nomenclatura.
(...)
O jovem de hoje não teria perdido a capacidade de textualizar, de unir informações dispersas?
Se você não consegue tornar a aula interessante, ele busca o interessante fora dela. TV e internet são mais rápidas e não exigem muito esforço. Mas ele pode ter dificuldade em juntar, num texto ou num raciocínio, toda informação que absorveu. Sem hábito de leitura, é muito mais difícil. (...)
Como o professor, contra tudo e todos, pode fazer isso?
Mudando a concepção de leitura e de escrita que se usa em sala. (...) O autor tem um projeto de dizer que organiza o texto, colocando nele pistas para levar o leitor a determinado sentido. (...) Já o leitor não é passivo, como se apenas restasse a ele entender as intenções do autor. O leitor constrói sentido, que pode ser mais ou menos próximo do que o autor tinha em mente. Não há leitura "correta" ou "errada", há gradações. Temos leituras que mais se aproximam do projeto de dizer de um autor e as que ficam mais distantes até que se tornam inaceitáveis. Tudo porque a leitura depende dos nossos conhecimentos de mundo.
Contexto é tudo...
Duas pessoas dificilmente farão a mesma leitura de um texto. Não há texto totalmente explícito. Como se chega ao que está implícito? Ligando o que está no texto ao nosso saber de mundo. O leitor com pouco conhecimento fará a leitura superficial. Quanto mais acumulamos de saber, mais a fundo chegaremos.
(...)
E como ajudar um aluno a melhorar sua capacidade de interpretação?
Receita de bolo não há, mas é possível tornar a aula de leitura instigante ao debater a diversidade de interpretação. (...). É preciso ler em grupo, perguntar a cada um o que entendeu, confrontar interpretações. (...) É preciso promover situações reais de leitura. (...) É preciso ensinar os gêneros, pois eles estão ligados às praticas sociais.
(...)
Em Revista Língua Portuguesa, edição 19, Maio 2007
¿No es éste un viaje
también — tan sólo — por tu mirada?
Mira: toda la ciudad enfrente
miope
con sus oscuras antiparras de niebla.
¿O será que respiro
tan cerca
que te mancho los ojos?
Quiero escribir en el cristal "Te quiero"
¡pero toda la ciudad se enteraría!
José Gorostiza, Muerte sin Fin y Otros Poemas, São Paulo / México, Editora da Universidade de São Paulo / Fondo de Cultura Económica, 2003
Fecho os olhos deslumbrada
na brancura que a música traz –
alguma coisa embota o gume do sentir.
Mas a cantora abandona o círculo
e ao som do piano baixa
escuridão que cheira levemente a ti.
Soledade Santos
 
boomp3.com
Fairport Convention, What We Did on Our Holidays, 1967
Fotheringay
How often she has gazed from castle windows o'er,
And watched the daylight passing within her captive wall,
With no-one to heed her call.
The evening hour is fading within the dwindling sun,
And in a lonely moment those embers will be gone
And the last of all the young birds flown.
Her days of precious freedom, forfeited long before,
To live such fruitless years behind a guarded door,
But those days will last no more.
Tomorrow at this hour she will be far away,
Much farther than these islands,
Or the lonely Fotheringay
Sandy Denny
de todos os fulgurantes encontros que a vida me proporcionou.
doação
para Soledade
nunca te pensei porto para rotas
embarcações apenas caminho
compartilhado nunca te
quis guia dos meus inúteis
combates comigo
mesmo somente par nas
incompreendidas
saudades
havia tanta coisa a
fazer nesta terra
inclemente de mãos
dadas e quando a
noite se desfez nossas
frágeis palavras enfim encheram
se de
asas

António Canova, 1787
já que sentir é primeiro
quem presta alguma atenção
à sintaxe das coisas
nunca há-de beijar-te por inteiro;
por inteiro ensandecer
enquanto a Primavera está no mundo
o meu sangue aprova,
e beijos são melhor fado
que sabedoria
senhora eu juro por toda a flor. Não chores
– o melhor movimento do meu cérebro vale menos que
o teu palpitar de pálpebras que diz
somos um para o outro: então
ri, reclinada nos meus braços
que a vida não é um parágrafo
E a morte julgo nenhum parêntesis
e. e. cummings, xix poemas, trad. de Jorge Fazenda Lourenço, Assírio & Alvim, Col. Gato Maltês, Lisboa, 1991