Nem o próprio dilúvio
Foi eterno.
Um dia as negras
Águas partiram. Mas como,
É verdade, houve poucos
Sobreviventes.
Bertolt Brecht, Poemas, tradução, selecção, estudos e notas de Arnaldo Saraiva, Campo das Letras, Porto, 1998
a cidade entupida de clarões e
estridências insiste em não
dormir aos
poucos invade meu
corpo minhas
horas
frágeis
a cidade imunda e sempre
cheia de coisas muito
pouco importantes usurpa meus
dias e ninguém
mais
lê
meus
poemas
Adair Carvalhais Júnior
Lembro-me da Fiama quando era eu jovem universitária e frequentadora assídua da biblioteca do Centro de Linguística. Também, durante um ano lectivo, tomei parte, com um pequeno grupo de alunos, num seminário sobre Filologia que ali decorreu. A Fiama juntava-se-nos, às vezes.
Numa das sessões, a convite do professor, foi ela quem dirigiu o seminário – nessa tarde acerca das duas edições princeps d' Os Lusíadas – apresentando uma leitura cabalística do frontispício das edições. Sorrio ao recordar essa tarde, longa e talvez chuvosa, de uma tão antiga 2ª feira.
Lembro-me da mulher bonita e esguia, com cabelos lisos e pretos apartados ao meio, o sorriso doce, o ar tranquilo. Parecia-se com a poesia que escrevia.
Tudo isto aconteceu há muito tempo. Breve – como todos nós – só a memória permanece.
DO AMOR
Esta vista de mar, solitariamente,
dói-me. Apenas dois mares,
dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte da natureza pede
o amor em dois olhares.
Fiama Hasse Pais Brandão, As Fábulas, Ed. Quasi, 2002
Reproduzo o artigo de João Peres na Actual - Expresso de 20 de Janeiro, onde retoma – e denuncia – segundo uma perspectiva que não apenas a científica e a pedagógica, o caso TLEBS, «atolado num pântano jurídico indigno de um país civilizado».
Na mesma edição da Actual, uma reflexão de António Guerreiro sobre outro caso que está intimimamente ligado ao primeiro – o do lugar (ou ausência) da Literatura no actual sistema de ensino que, centrado no «objectivo mínimo da literacia [...] abandonou a referência a uma literacia clássica que implica a aquisição de saberes e capacidades para utilizar linguagens que asseguram a cidadania e o necessário sentido crítico.»
Pétalas afagam
os meus dedos
quando te recordo
Lágrimas flutuam
ou estrelas
onde o silêncio desagua
Soledade Santos
Em Outubro de 2006, na Universidade Lusíada de Lisboa, decorreu o IX Congresso Científico-Pedagógico da AEPEC (Associação da Educação Pluridimensional e da Escola Cultural).
Na Sessão de Abertura, são referidas as dificuldades em organizar e promover o congresso, dificuldades derivadas, em grande parte, das novas regras que vieram afunilar e dificultar a participação dos professores em acções de formação. Um outro aspecto que causa alguma estranheza - ou talvez não - é a ausência de qualquer representante do Ministério da Educação.
Faço aqui ligação para os vídeos da Sessão de Abertura; da comunicação de Manuel Ferreira Patrício ; e ainda para a alocução final, contendo as Conclusões do congresso.
Destaco em baixo, e desgarradamente, alguns excertos de comunicações diversas que, por uma ou outra razão, me interpelaram ou afligiram de modo particular, mesmo quando o tom, na alocução, é de afrontamento e de esperança.
«quer-se que a escola garanta o sucesso escolar que é o administrativo, não o educativo»
«somos todos pela escola inclusiva, mas o que é isso? E como é que se faz a inclusão?»
«se a sociedade é impotente... a escola que faça»v
«a sociedade não parece preocupar-se com a qualidade das aprendizagens das crianças e jovens ... não parece preocupar-se com a formação cívica, moral, ética ... com o défice cultural dos jovens ... com a incultura generalizada... com o estado degradante a que chegou o ambiente da vida escolar...»
«escola transformada em lugar de tormento e tortura para os professores»
«a sociedade cultural e do conhecimento não pode ser só do conhecimento, tem de ser da sabedoria, também»
«O problema não é só educativo, não é só pedagógico, é mais fundo, e é esse que temos de enfrentar.»
«Uma profunda perturbação dos nossos decisores impede-os de prestar a devida atenção aos dados que a Razão disponibiliza sobre a natureza, funções e instrumentos da educação»
«Assistimos a uma classe docente a quem se pede a solução para os problemas que afligem os decisores e os executores das políticas que não conseguem sequer admiti-los e diagnosticá-los devidamente (...) E assistimos sobretudo à recusa sistemática de dar à escola e aos professores os meios e as condições para tentarem responder a esses problemas.»
«Assistimos a um verdadeiro colapso da vontade, disposta a sacrificar o futuro ao imediato, o esforço à preguiça, o interesse colectivo aos pequenos interesses de grupos.»
«Assistimos a um povo a deixar-se embalar na doce convicção de que as regras do mercado são a única e inexorável lei da natureza e que todos os sacrifícios se justificam na ara da economia.»
«A educação e a escola são os instrumentos que restam à Razão humana para o exercício de uma crítica emancipatória e para a construção de um mundo melhor.»
«mudar o paradigma de escola unidimensional ao serviço de uma só dimensão instrumental - a económica ... assumir um paradigma de escola que tem em vista a formação integral do Homem na sua humanitas»
«dimensão holística... a escola deve ser um ecossistema, tudo tem a ver com tudo»
Primeira madrugada do século –
ramalham os sobreiros
oblíquos à chuva que escorre nas vidraças
dissolvendo a nitidez do olhar e o vale
envolto em brumas e distância
(foi assim também dezembro
mês nocturno atravessado
pelo fogo de palavras esquivas).
Estendo os pés ao calor para lembrar
gestos da ternura
e rostos que o tempo levou de mim.
À luz que nasce amortecem
os últimos ecos da festa
e só o aroma do chá
subindo da chávena branca incandesce
os acordes desabridos
do vento e da chuva.
No silêncio olheirento da madrugada
abafo o lume corro as cortinas
e guardo nos olhos o espólio
do século que findou:
poeira de noites mal dormidas
e as estrelas
resgatadas ao cotão da eternidade.
[Pôr-do-Sol, Janeiro de 2001]
Soledade Santos
Côa, Sabugal - Dezembro de 2006
Una patria es la lengua en la que sueñas.
Juan Bonilla