setembro 25, 2006

Ampulheta com música de fundo


Ennio Morricone

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Madrugada - plenilúnio de Janeiro de 2006

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Noite fechada - crescente de Setembro de 2006


Publicado por sol em 02:20 PM | Comentários (20)

setembro 21, 2006

As vozes do dono

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Nesta viagem, de que fiz menção, e em todas as que passei a Linha Equinocial, vi debaixo dela o que muitas vezes tinha visto e notado nos homens, e me admirou que se houvesse estendido esta ronha e pegado também aos peixes. Pegadores se chamam estes de que agora falo, e com grande propriedade, porque, sendo pequenos, não só se chegam a outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados, que jamais os desaferram. De alguns animais de menos força e indústria se conta que vão seguindo de longe aos leões na caça, para se sustentarem do que a eles sobeja. O mesmo fazem estes pegadores, tão seguros ao perto como aqueles ao longe, porque o peixe grande não pode dobrar a cabeça, nem voltar a boca sobre os que traz às costas, e assi lhe sustenta o peso e mais a fome. Este modo de vida, mais astuto que generoso, se acaso se passou e pegou de um elemento a outro, sem dúvida que o aprenderam os peixes do alto, depois que os nossos Portugueses o navegaram; porque não parte Viso-Rei ou Governador para as Conquistas, que não vá rodeado de pegadores, os quais se arrimam a eles, para que cá lhes matem a fome, de que lá não tinham remédio. Os menos ignorantes, desenganados da experiência, despegam-se e buscam a vida por outra via; mas os que se deixam estar pegados à mercê e fortuna dos maiores, vem-lhes a suceder no fim o que aos pegadores do mar.

Rodeia a nau o tubarão nas calmarias da Linha com os seus pegadores às costas, tam cerzidos com a pele, que mais parecem remendos ou manchas naturais, que os hóspedes ou companheiros. Lançam-lhe um anzol de cadeia com a ração de quatro soldados: arremessa-se furiosamente à presa, engole tudo de um bocado, e fica preso. Corre meia companha a alá-lo acima, bate fortemente o convés com os últimos arrancos; enfim, morre o tubarão, e morrem com ele os pegadores. [...] Eis aqui, peixinhos ignorantes e miseráveis, quam errado e enganoso é este modo de vida que escolhestes.

Pe António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes, Livraria Sá da Costa Editora, 7ª ed, Lisboa, 1977


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setembro 16, 2006

Ó excesso puro!

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Castanheiro seco, Sabugal, 2005

A árvore é mais alta que ela própria, a árvore supera-se a si própria – por isso ela é tão alta. Uma dessas criaturas com as quais Deus, felizmente, não se preocupou, (elas tomam conta de si próprias) e sobem na direcção dos céus.

Rilke/Pasternak/Tsvétaïeva, Correspondência a Três, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006


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setembro 13, 2006

Vê se te lembras

Era ainda cedo
vivíamos em tendas
só tínhamos
o que sabíamos transportar:
duas pedras de calcite
numa bacia de água com sal,
o cacto aéreo, desenraizado
como nós,
um jovem gato,
as lembranças guardadas
na bolsa de patchwork
que havíamos costurado.
E o coração nómada
nómada nómada.
Intimorato.

         Soledade Santos


Publicado por sol em 01:07 AM | Comentários (8)

setembro 09, 2006

Advertência tardia

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    Adèle Vergé, Petit Enroulement blanc


Julho, esta luz de vento arrepiada
e o pardal de sempre na janela.

Um dia passa e outro dia e tudo
se conglomera – eu tinha-te dito:

o amor é um estado
de concentração diabólica.

         Soledade Santos


Publicado por sol em 09:40 PM | Comentários (19)

setembro 07, 2006

Respiração

Enchem-se as mãos de asas, são para ir.
Antes, deixa-me dizer:
esta é uma terra inclemente e falham
as palavras também. Nem ânsia
de beleza ou amor, nem estrelas, infância –
não há esplendor inocente. Só o ar
ondula incerto outra vez.

         Soledade Santos




Publicado por sol em 12:41 AM | Comentários (16)