Proposta de Revisão do Estatuto da Carreira Docente
Um jazz para agradecer e acompanhar a festa do andar de baixo.

Jane Brewster
Difícil não é chegar ao cimo da serra —
o difícil é estar lá.
E alargando o olhar
pelas encostas saber
que um dia o oceano ali chegou;
e tudo o que agora resta é a mina de sal gema
e o recorte duvidoso
das Berlengas afogadas na neblina.
Soledade Santos
Odile Redon, Les yeux clos
confissão
todo poema é um risco
lançado sobre o
nada todo
poema ceifa completamente o
corpo
em cada angústia
vespertina arrisco todos
meus poemas naufrago na
carne
devastada
Adair Carvalhais Júnior, Desencontrados Ventos
«O legado do século XX revela-se como um desastre contínuo. Deixou-nos como aporia a incapacidade de a poesia, como síntese da atividade criadora, lidar com a estupidez e a barbárie. O ceticismo face à transformação revolucionária, à consistência das vanguardas ou ao dogmatismo ideológico, não resultou em ações mais livres, mas apenas numa produção mais prolixa, dentro de ambientes cada vez mais homogêneos. A atividade paroquial ofende-se com a crítica e o debate. A condescendência generalizada evidencia a pouca seriedade com que se toma a poesia, bem como a descrença em sua ação transformadora. Mas que criação real pode renunciar à transformação? Um efeito impressionante desse legado de continuidade catastrófica — que abafa e absorve o desastre como normalidade —, é a conformidade da poesia com uma dimensão mediana de produção. Escrever se reduz a um hábito ligeiro, um hobby — isto é, uma atividade infanto-juvenil que se abandona tão logo se chega à vida adulta, ou se preserva depois disso como lazer de fim-de-semana —, ou então a uma atividade profissional entre quaisquer outras, um modesto ganha-pão associado a várias atividades editoriais e universitárias. Como responder a essa falta de perspectiva e de urgência particular à poesia, domínio por definição hostil à mediocridade? Como resistir a este encolhimento de horizontes, proporcional à proliferação redundante do escrito? Ou, ao menos, como desnaturalizar o desastre e reconquistar a dor diante dele? A poesia ainda pode ser mais do que uma afirmação de frivolidade, arrivismo e afetação intelectual, ou, na direção oposta do mesmo eixo, de modéstia boçal e sobrevivência sem esperança? Se já não temos planos para o futuro, é bom que se diga que tampouco o presente nos pertence: o amortecimento das expectativas resulta em indiferentismo, alienação e tédio, não na fruição de uma vida amena. O que a poesia pode contra esse estado de coisas que não parece ter fim? E se nada pode, como pode ser mais do que fatuidade?»
Alcir Pécora e Régis Bonvicino, Março 2006, encontro internacional de poesia: texto-proposta e programa em Germina
«L’acte est vierge, même répeté»
René Char
Há um silêncio que não tivemos tempo de construir.
Tudo foi estrondo
avenidas que se rasgaram e perpendiculares ao rio
clarearam a cidade.
Mas o silêncio do longo olhar,
as mãos germinando quietas
às luzes da cidade que o outono terá acendido mais cedo -
o silêncio, não.
Eventualmente regresso:
manhã velada, tranquilo azul, ao fundo o rio.
Tudo aqui. Excepto lembrança
de amoroso silêncio que não tivemos tempo de construir.
Soledade Santos
«E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.»
Manuel Bandeira
Sabugal - Torre do relógio
Sabugal - Castelo
Sabugal - Praia Fluvial
Da colecção de postais editada pela ADES - Associação Desenvolvimento Sabugal - reproduzindo trabalhos de artistas do concelho.