Às vezes penso que se tivesse de escolher um só poema...

fotografia por Isabel Munuera
Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...
Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
― Porque ides sem mim, não me levais?
Sem vós o que são os meus olhos abertos?
― O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos...
Fica, sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
― Estranha sombra em movimentos vãos.
Camilo Pessanha, Clepsidra, Editora Nova Crítica, Porto
Agradável coincidência, hoje, em Germina.
Sopra o vento nítido erguendo
nuvens de pó na serra ao longe, e vibra
a alegre conversação das folhas.
Árvores acodem
de todos os sítios da lembrança e do olhar agora.
O peito esquece a hora em fuga,
fala o vento a luz o corpo imediato.
Soledade Santos
Deitar fora sem desgosto a tigela antiga que se partiu
(isto é: que eu parti)
e pensar com a risada de minha
Mãe: «Deixá-lo! Temos que fazer viver os oleiros!»
(a consolar-se do seu gesto desastrado)
e aceitar o passar
do tempo sem angústia e sem saudade
e dizer
como ela dizia sem palavras:
«O tempo fez-se para
passar!»
Ah sim! que passe e nos leve e não se fala
mais nisso!
Mas se ao menos nos levasse para o mesmo
sítio, Mãe!»
Teresa Rita Lopes, Afectos, Editorial Presença, Lisboa, 2000
[...] saber ler é a chave de tudo para o desempenho na vida quotidiana, seja o labor profissional (compreender o que se faz, e o bem e o mal do como se faz), seja o percurso da existência (a compreensão de si e dos outros, a rejeição das formas de alienação e delinquência, o civismo no comportamento) seja o desempenho comunitário (através do qual se deve ser um exemplo de comportamento para os outros, adoptando o exemplo dos outros também – e sabemos como os modelos para os jovens são hoje os que lhes são sugeridos no facilitismo, na vigarice e na corrupção, tornadas heróicas).
Mas parece que saber ler (decifrar códigos linguísticos, sinais de comunicação, a interpretação do Mundo) não interessa! E mesmo, para certas políticas e para certas programações culturais, quanto mais analfabeto, melhor! E andamos a contentar-nos com a ficção de uma acção cultural empenhada, cheia de programas, de actividades, de formação contínua, com muitos cursos de especialização para tudo e para nada, que resulta num atropelo convulsivo do indivíduo, quando a condição para a experiência cultural fecunda é o oposto disso: ministrar uma formação de base sólida e exigente, na escola (que é para isso que a escola serve), e dar ao indivíduo, na sua vida, a emparelhar com o seu trabalho e com o seu meio familiar, tempo, dar-lhe mesmo "tempo" – para o lazer, o prazer do vago, que permite a reflexão, suscita o desejo, dá azo à fruição cultural ampla e descondicionada [...].
Sabemos como nenhum sistema político gosta de dar isso ao indivíduo – tempo! Ao invés, o sistema enrola as pessoas em burocracias que empatam a vida, lhes suga a liberdade em trajectórias quotidianas absurdas. Ao sistema político interessa que a pessoa não pense e só com tempo se pensa e se aprende, só a vivência de uma duração própria e interior nos permite tentar perceber o que somos e desenvolver essa aprendizagem na relação cadenciada com os outros, com o ambiente, com a arte, com aquilo que de bom existe para nós [...].
Há um grande mal-entendido de base em tudo isto: é que se pretendeu transformar a escola que herdámos do salazarismo, que era de facto sinistra (nunca se poderá dizer o contrário), mas em vez de se banir o que nela era repressão, censura e hipocrisia, mantendo o que tinha de leccionação eficaz, acabou-se integralmente com o seu modelo, substituído por concepções demagógicas de anti-autoritarismo, de criatividade a partir do nada, de pedagogia espontaneísta, de valorizações do coloquial e da busca do divertimento na aprendizagem que deformou a criança e o adolescente, tirando-lhe as imagens, os modelos, as estruturas, os conhecimentos e a base de valores e de segurança a partir da qual, só, pode exercitar-se e preparar a sua contestação. Pretendeu-se que a escola fosse um paraíso e não se curou das regras que até no paraíso uma organização transcendente impôs.
[...]
Repare-se na concepção tacanha dominante quanto ao ensino da Literatura e das Humanidades. Nem falo da castração que representa, na formação intelectual, a redução da leitura dos clássicos, crime de nefastas consequências contra o património; falo da condescendenciazinha em entender a Literatura como uma componente decorativa e obsoleta, como se o estudo da Literatura não fosse justamente a trave mestra da possibilidade do conhecimento na formação do indivíduo, a base de toda a educação, estética e científica, uma vez que esta assenta na comunicação e expressão dos diferenciados matizes expressivos da língua.
De uma vez por todas, entenda-se isto: a literatura é o estudo do tratamento estético da linguagem, e como tal confere ao indivíduo o entendimento integral e abrangente das várias formas de comunicação no quotidiano e fora dele. Não é apenas estudando a língua que o cidadão se habilita a praticar a comunicação informativa e expressiva, e por conseguinte a melhorar as suas circunstâncias de vida, a sua experiência humana e a produtividade do seu trabalho, que o realiza tanto mais quanto dele toma consciência. Ter consciência das coisas é justamente poder pensá-las e imaginá-las naquilo que são e no que poderiam ser, e essa conjectura dos possíveis, só a linguagem da ficção e da construção poética, na literatura e na arte, nos pode dar. [...]
Maria Alzira Seixo, artigo publicado na revista "Actual" do semanário "Expresso", do dia 27-3-2004 (sublinhados meus)

Rodin, Orfeu e Euríce
EURÍDICE
Lançaste-me então para trás,
eu que poderia ter caminhado com as almas vivas sobre a terra,
eu que poderia ter dormido entre flores vivas
por fim;
então pela tua arrogância
pela tua truculência
fui lançada para trás
para onde o líquen morto escorre
escórias mortas sobre musgo de cinza;
então pela tua arrogância estou
por fim despedaçada,
eu que vivi inconsciente,
que fui quase esquecida;
se me tivesses deixado esperar
teria crescido da indiferença
para a paz,
se me tivesses deixado repousar com os mortos, ter-me-ia esquecido de ti
e do passado.
Ezra Pound (tradução de Filipe Jarro)