Estar imóvel, negar sonhos perdidos
como se os não tivesse sonhado;
jogar ao tempo sem destino,
viajante da nau imensa
ou de um comboio sem paragens
que atravessa o continente do insulamento.
Conforta estar assim:
aceitar que a vida nunca teve rumo
é outra forma de duração,
como voltar a ser criança
e não vir de lado nenhum e não ir para sítio nenhum
porque chove e nos dói
vagamente e para sempre a garganta.
Soledade Santos

«Os seres imperfeitos agitam-se e acasalam-se para se completarem, mas as coisas só belas são solitárias como a dor humana.»
Marguerite Yourcenar, Gherardo Perini, in O Tempo, Esse Grande Escultor, Ed. Difel, Lisboa, 1983
Chego ao hotel e peço
o quarto mais barato que tiverem
uma cama limpa e sem vestígios de humanidade
Quero um quarto sem cortinas
porque a lua vai cheia e as cortinas não fazem falta
também não desejo aquecimento e odeio ar condicionado
Quero tudo reduzido à expressão mais simples
não preciso de espelho para lavar os dentes
não quero telefone nem televisão
O cinzeiro deixem-no ficar
ainda que eu não fume propiciará
o justo ritual de um auto-de-fé
Soledade Santos