é menos duro aqui o azul
e a curva da noite menos funda
(é preciso um frio que rache pedras
para que a lua dê costas à noite e se acenda)
mas eis que o orvalho chega e tremeluz
e inaugura um jardim de brumas
há algo aqui talvez para calmar o peito
e chegar ao poema
Soledade Santos
Hoje há festa aqui.
E deve também espreitar-se ali.
Et pour cause, um campo de papoilas:

foto de Ian Britton
rumor agita o silêncio da turfa dura
o vento dorme ainda na geada da manhã
e eu vejo rostos de pedra no labirinto
olhos da minha gente feitos de terra
como os meus
claros em sua rara eternidade
estilete de prata fere os dedos
e vai à boca
é de lava na arca do peito
e por instantes afecta
o tecido frágil da memória
e a respiração
mas já o vento vai acordando
e despenteia
os crisântemos amarelos
Soledade Santos
Dir-se-á que a criança se desenvolve melhor, mais livremente, longe sim da autoridade dos adultos, mas na companhia de outras crianças da sua idade. […]
Que quer isto dizer? Que esta tese permite quebrar alegremente as relações normais entre crianças e adultos, relações que decorrem do facto de, no mundo que é de todos, viveram em conjunto pessoas de todas as idades.
[...]
Quer isto também dizer que a interpretação moderna da ideia de libertação da criança vem ao encontro das transformações económicas e sociais da nossa vida de adultos. Porque, com a saída da mãe para o trabalho em meados do século XX, a casa fica vazia; porque a casa familiar já não é habitada pelos avós, inventados que foram - também então - os ironicamente chamados "lares de terceira idade"; porque, já antes e preparando o terreno para o que veio depois, havia a criança sido retirada das estruturas tradicionais de sociabilidade, vizinhança e convívio da aldeia, da rua, do faubourg, do bairro; [...].
A solução consistiu em pedir à escola, que não apenas ensine as nossas crianças, mas que as guarde durante os largos períodos de tempo em que pai e mãe vão trabalhar. Infantários, creches, jardim-escola, jardins de infância, escolas pré-primárias, instituições oficiais e privadas de educação pré-escolar - e é significativa a multiplicação de designações, tão bizarras como "escola "pré-primária", tão dramáticas como "infantário" ou "creche, (etimologicamente, "estabelecimento para asilo diurno de crianças pobres") tão transparentes como as designações francesas de "garderie" ou "école maternelle" - aí estão enquanto formas de escolaridade forçada e precoce que se vão inventando para dar corpo a esta recente necessidade, não das crianças, mas dos seus pais. Por isso é que uma greve de professores é sempre algo de maldito. Por isso é que ela conta, à partida, com o descontentamento dos pais. Em boa verdade, o Estado deveria - estou certa que o fará em breve - estabelecer um "serviço mínimo" para as escolas em tempo de greve, tal como o faz para os hospitais ou para os bombeiros. Às escolas caberia, então, explicitamente, cumprir uma função minimal e inconfessada - guardar os alunos num cativeiro benévolo, entretê-los durante horas enquanto os pais vão trabalhar. Por isso também é que, com a cumplicidade do Estado que, neste ponto, interpreta fielmente as necessidades das famílias (coincidentes com a sua própria lógica de empregador e defensor dos direitos dos outros empregadores), a escola abandonou decisivamente a indicação inscrita na sua origem etimológica (do grego, lugar de prazer dedicado ao estudo). Rodeou-se de muros, de grades, de porteiros, de legislações adequadas. [...]
Há pois que reconhecer que, no nosso mundo de hoje, uma das funções mais silenciadas da escola, mas nem por isso menos incontornável, é a de tomar conta dos filhos enquanto os pais vão trabalhar. Só que, um tal facto vai desencadear implicações profundas e insuspeitadas.
Se, durante largas horas diárias, a escola se constitui como substituto, ainda que precário, da antiga casa familiar, como resistir à tentação de, conjuntamente com a transferência de grande parte da responsabilidade na custódia diurna das crianças (e dos jovens, bem entendido), transferir também para a escola direitos e deveres educativos que, primordialmente seriam - sempre foram - da responsabilidade dos pais? Se acrescentarmos a isso os efeitos do tão assinalado fenómeno de dissolução da família, percebemos como teria sido difícil impedir o deslizamento a que assistimos, de funções, afinal, tão próximas e convergentes.
[...]
Em qualquer caso - e é isso que é grave - a escola está hoje confrontada - diria mesmo sufocada - com uma complicada alquimia por intermédio da qual procura responder a tantas novas responsabilidades educativas. A desorientação dá-se a ver até no insensato jargão que tem vindo a ser produzido. Além da área disciplinar curricular facultativa de "educação religiosa", das "áreas curriculares não-disciplinares" de "formação cívica", "área de projecto" e "estudo acompanhado" e das "áreas de enriquecimento curricular" onde é suposto que se tratem "temas transdisciplinares" como a formação pessoal e social", cabe-lhe promover, "transversal a todo o curriculum", a "educação para a cidadania". Além disso, cada escola deve, cada ano, elaborar o seu "projecto educativo" do qual, dedutivamente se possam retirar indicações integradoras, tanto em termos de conteúdos a serem transmitidos, como de valores a serem perseguidos pela comunidade escolar no seu conjunto e, no qual, indutivamente, se possam articular os diversos "projectos curriculares de escola" e "projectos curriculares de turma", trabalhos de projecto" e outras actividades, nomeadamente, as realizadas no âmbito da "área de projecto". E que dizer dessa disciplina que fez correr tanta tinta, dispender tantas energias, consumir tantos recursos originar tantas e tão ocas (disparatadas) "experiências pedagógicas", que dava pelo nome de "Desenvolvimento pessoal e social ou educação moral e religiosa católica e de outras confissões"? […]
Não nos iludamos. A valorização excessiva do conceito de educação a que assistimos faz-se sempre em detrimento do ensino [...].
Quer isto dizer que o tal projecto eminentemente educativo com que as nossas escolas estão hoje primacialmente comprometidas - projecto esse que, em limite, não chega nunca a realizar-se mas que, apesar disso, dá origem ao complicado conjunto de artifícios curriculares com que a escola, em grande parte, está hoje sufocada - tem como efeito perverso, de consequências tão incalculáveis quanto nefastas, afastar a escola da sua missão insubstituível; ensinar, transmitir às novas gerações o património científico, artístico e filosófico construído pelas gerações anteriores, fazer participar cada vaga de recém-chegados ao mundo da Natureza no mundo da cultura que os homens foram construindo e que as novas gerações, justamente porque vão à escola e aprendem o que aí se ensina, hão-de amanhã conservar, prolongar, continuar.
Resumindo: é porque, por razões relativas à vida dos adultos já educados, foram transferidas para a escola funções de guarda e educação das crianças e dos jovens que são estranhas à sua essencial função cognitiva, que hoje temos escolas que soçobram perante essas espinhosas (e em limite impossíveis) tarefas educativas e que, em grande parte por essa razão, dificilmente conseguem continuar a cumprir aquela missão maior para que foram inventadas e que só elas podem realizar: ensinar. Por outras palavras, é porque se quer educativa que a escola não ensina.
Fenómenos como o desinteresse e o abandono escolares ganhariam porventura em ser pensados à luz deste elemento humilíssimo: o facto de a escola ter deixado de ensinar porque, em grande parte, passou a ser chamada a educar. Porque não ensina, ela não cativa as nossas crianças e os nossos jovens pelo único meio possível e legítimo ao seu alcance: abrir de par em par as portas da inteligência infantil e juvenil; cativá-la, desafiá-la para as belezas superiores da aprendizagem e da compreensão; colocá-la, não perante o fácil e o conhecido mas, exactamente ao invés, perante o difícil e desconhecido. [...]
Ora, pelo contrário, a escola é hoje chamada a concentrar as suas atenções na tarefa, triste e lamacenta, de conformação das almas, tarefa educativa essa cuja realização, por ironia, lhe está decisivamente vedada. […] tudo isto se traduz numa inestimável perda de tempo e de energia, numa imperdoável incapacidade para realizar algo que vale decisivamente todas as penas: a maravilhosa possibilidade que a escola oferece a cada nova geração de adquirir, em alguns anos, os conhecimentos que a humanidade levou por vezes séculos a construir e, desse modo, se tomar apta a dar continuidade à aventura do conhecimento. Importa pois tomar consciência de que alguma coisa está profundamente errada nas nossas escolas - da escola primária à escola básica, da escola secundária à universidade - quando se constata que as crianças e os jovens só vão à escola porque ela é obrigatória. Como no quartel.
[...]
Pensamos de facto que nada se compreenderá, que tudo ficará lamentavelmente confundido enquanto não se fizer um esforço para distinguir entre educação e ensino. A primeira (educação) diz respeito à disciplinarização das vontades e dos seus desejos. O segundo (ensino), à inscrição das novas gerações no património comum dos saberes que fomos inventando. Nele reside o brilho da escola.
Olga Pombo, O Insuportável Brilho da Escola, in Alain Renaut et alli, Direitos e Responsabilidades na Sociedade Educativa, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
O texto da conferência, na íntegra, incluindo as notas de rodapé, que omiti, pode ser lido em: http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/investigacao/brilhoescola.pdf
O homem ocioso na esplanada olha o mar,
as areias incólumes da manhã
e o azul
que sobrou dos silêncios nocturnos.
As ondas sobem, os túneis longos são
como algo em mim irregular
mente compressor.
A desordem da espuma.
O sol vai crescendo enquanto
o homem oferece ao afago
indiferente da calma a pele;
um ciclista toureia
no paredão as ondas que às vezes o galgam.
Será colhido.
Escuto o riso do homem solto na limpidez da manhã,
irisiando-a –
vidrinhos coloridos em jogo de caleidoscópio.
Depois tombam – e dissolvem-se –
cristais ainda mas de ácido,
no tecido fibroso do coração.
Também o ciclista molhado regressa,
pago o preço –
traz a bicicleta à mão.
Soledade Santos
Primeira Gramática da Linguagem Portuguesa, séc. XVI. Todos os começos são árduos, mas alguns guardam a candura da novidade, o ardor dos princípios. E a poesia das analogias no esforço descritivo.
* * *
Esta letra u vogal aperta as queixadas e prega os beiços, não deixando entre eles mais que só um canudo por onde sai um som escuro, o qual é a sua voz.
[…]
A pronunciação do m muge entre os beiços apertados, apanhando para dentro.
A pronunciação do n tine, diz Quintiliano, tocando com a ponta da língua as gengivas de cima.
[…]
O s singelo, diz Quintiliano, é letra mimosa, e, quando a pronunciamos, alevantamos a ponta da língua para o céu da boca e o espírito assobia pelas ilhargas da língua.
O ss dobrado pronuncia-se como o outro, pregando mais a língua no céu da boca.
[…]
Ao x nós lhe chamamos cis, mas eu lhe chamaria antes xi, porque assim o pronunciamos na escritura. Pronuncia-se com as queixadas apertadas no meio da boca, os dentes juntos, a língua ancha na boca e o espírito ferve na humidade da língua.
A pronunciação do z zine entre os dentes cerrados, com a língua chegada a eles e os beiços apartados um do outro.
A Gramática da Linguagem Portuguesa de Fernão de Oliveira, por Maria Leonor Carvalhão Buescu, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1975
Ontem, na Livraria Lello, no Porto, teve lugar o lançamento do livro Por Favor, um Blues, de Silvia Chueire.
Tínhamos pensado que seria a oportunidade, há muito aguardada, de nos reencontrarmos. O acaso não dispôs assim. Por Favor, um Blues inicia, solitário, a sua odisseia.
Lamentando a ausência da minha amiga no lançamento do próprio livro, alegro-me porque ela se estreia em Portugal. E alegra-me o livro que agora vem à luz, o talento assumido, a límpida humanidade da mulher e da poeta. Essa coragem de mergulhar nas águas mais silenciadas e dar a ver o que se viu, como afirmou um dia Eugénio de Andrade.
A Silvia escreveu-nos:
Amigos
É quase quatro de novembro e não saberei dos vossos olhares. Minhas palavras viajaram longe e suas pernas e braços não se cansaram.
Não são eu mesma, são as muitas de mim e nenhuma delas. Esta é a minha liberdade. São minha procura, meu afeto. São minha esperança e minha desesperança depositadas na linguagem. Numa linguagem que quer pensar o mundo, olhá-lo, atravessá-lo, refleti-lo. Desprezar as categorias lógicas da linguagem. Elevar o significante à altura da viagem, da melodia. Buscar forma e música, conteúdo e visão de mundo, a minha, a vossa. Sim, vossa. Sempre há esta transição quando lemos.
Proponho que o poema pense, provoque, viva, toque. Toque a pele, a alma, os músculos, a vossa vida, mesmo que por um átimo. E que acima de tudo, subverta. Nada é mais subversivo do que o contato conosco mesmos. Este impacto. Esta possibilidade de (re)criar espaços de pensamento, de emocionalidade, de verdade pessoal.
Meus poemas hoje vos recebem, nus. E é aí que a minha presença é dispensável. É aí que eu não importo aos poemas, ou à (vossa) leitura deles. É aí que atravessada pelas palavras, desapareço. Sem deixar de existir. Ainda que eu gostasse de receber os amigos, de agora e futuros. Ainda que eu gostasse de os abraçar. De os conhecer.
[...]
Estes são poemas de uma mulher que nunca publicou antes, que não é portuguesa, e que começou a escrever tarde (demorei a encontrar minimamente as palavras que buscava, na verdade ainda as procuro). Um conjunto de contra-sensos. Editá-los seria o cúmulo da loucura, do atrevimento? Talvez seja isto: é preciso que as pessoas enlouqueçam, atrevam-se, para que a vida se mova.
[...]
Agora amigos, Por Favor, Um Blues deixa de ser meu, é vosso. Sejam muitíssimo bem-vindos !
Meu grande abraço com a promessa de uma visita próxima,
Silvia Nogueira da Gama Chueire
Rio de Janeiro , 03 de novembro de 2005