
«Em breve caireis na terra amada, e ninguém saberá o vosso nome.»
Eurípides, As Troianas
* * *
Euripides Trojan Women, música de Eleni Karaindrou, direcção de Antonis Antypas
Tem dó de quem não dorme,
de quem passa a noite à espera
que desperte o silêncio.
O vento devia cantar nos plátanos
com a lua nova, ser mais uma folha
feliz nos ombros do outono.
Mas o vento parecia ter endoidecido:
de leste a oeste varria
a rua, varria a noite: o vento
alegremente
varria o mundo ― em turbilhão
arrastava o lixo mil vezes imundo.
E o sono chegava.
Eugénio de Andrade, O Sal da Língua, Ed. Fundação Eug. Andrade, Porto, 1ª ed, 1995
Desenho de Tóssan
Deito-me no muro do quintal.
Aguardo o pôr do sol
quando os pássaros cantam
e a terra exala um cheiro quente
a caruma e a tojo.
No meio das árvores
a romãzeira florida parece descansar.
Chegou ao fim do seu dia.
Olho o sol.
E eu
quando chegarei eu?
Yvette K. Centeno, Algol, Colecção O Oiro do Dia, Editorial Inova, Porto, 1979
para t.m.
Telefonas na manhã sem esperança
parado no trânsito e praguejas.
Quem te dera em Lisboa dizes,
no Campo Grande sem chapéu-de-chuva
e com um saco de pão para atirar aos patos.
Há tantos anos ― domingo em Lisboa,
nós dois vindos de muito longe,
submerso o parque em chuva,
no lago os remos lentos e as lembranças
da terra longa. Amávamos então
a cidade a música e cada um
de nós a sua criatura urbana.
Mas também os lugares se esgotam.
E na diáspora dos afectos dos lares
que sucessivos ergueste e perdeste,
oiço-te, amigo,
como antes ferido de incompreensão,
desfiando as lembranças
dos nossos antigos impossíveis futuros.
Soledade Santos
Há quem faça versos e ame
o estranho riso das crianças
o subsolo do homem
que nas cidades acres disfarça a sua lenda,
a instauração da alegria
que profetiza o fumo das fábricas.
Tem-se nas mãos um pequeno país,
datas horríveis,
mortos como facas exigentes,
bispos venenosos,
imensos jovens de pé,
sem outra idade além da esperança,
rebeldes padeiras com mais poder que um lírio,
alfaiates como a vida,
páginas, noivas,
esporádico pão, filhos doentes,
advogados traidores,
netos da sentença e o que foram
bodas desperdiçadas de impotente varão,
mãe, pupilas, pontes,
fotografias rasgadas e programas.
Morreremos,
amanhã,
um ano,
um mês sem pétalas esquecidas:
dispersos ficaremos sob a terra
e novos homens chegarão
pedindo um horizonte.
Perguntarão o que fomos,
quem com pura chama os precedeu,
e quais maldizer lembrando-os.
Certo.
É isso que fazemos:
Custodiamos para eles o tempo que nos coube.
Roque Dalton, 1935-1975, San Salvador (tradução minha)
Por Qué Escribimos
Uno hace versos y ama
la extraña risa de los niños,
el subsuelo del hombre
que en las ciudades ácidas disfraza su leyenda,
la instauración de la alegría
que profetiza el humo de las fábricas.
Uno tiene en las manos un pequeño país,
horribles fechas,
muertos como cuchillos exigentes,
obispos venenosos,
inmensos jóvenes de pie
sin más edad que la esperanza,
rebeldes panaderas con más poder que un lirio,
sastres como la vida,
páginas, novias,
esporádico pan, hijos enfermos,
abogados traidores
nietos de la sentencia y lo que fueron
bodas desperdiciadas de impotente varón,
madre, pupilas, puentes,
rotas fotografías y programas.
Uno se va a morir,
mañana,
un año,
un mes sin pétalos dormidos:
disperso va a quedar bajo la tierra
y vendrán nuevos hombres
pidiendo panoramas.
Preguntarán qué fuimos,
quienes con llamas puras les antecedieron,
a quienes maldecir con el recuerdo.
Bien.
Eso hacemos:
Custodiamos para ellos el tiempo que nos toca.
Roque Dalton, La Ventana en el Rostro, UCA Editores, San Salvador
Foto de Robert Doisneau, cit. de Guilhaume Apollinaire
I sit beside the fire and think
of all that I have seen,
of meadow-flowers and butterflies
in summers that have been;
Of yellow leaves and gossamer
in autumns that there were,
with morning mist and silver sun
and wind upon my hair.
I sit beside the fire and think
of how the world will be
when winter comes without a spring
that I shall ever see.
For still there are so many things
that I have never seen:
in every wood in every spring
there is a different green.
I sit beside the fire and think
of people long ago,
and people who will see a world
that I shall never know.
But all the while I sit and think
of times there were before,
I listen for returning feet
and voices at the door.
Songs and Tales from J.R.R. Tolkien's work