A saudade assume uma forma:
os verdes pinhos da serra distante
que tapa a minha vista
a flutuarem numa névoa de lágrimas
Saiónji Sanekane - séc. XIII
"Lily, aime-moi..."
Apelo do velho filme invade
o curso vário da lembrança
e altera-lhe o fluxo.
Agora és tu Lily.
E sou eu quem cruza o mar na tua sede eu
sou a aguadeira que desce ao fundo do poço
e recolhe a água num açafate.
Soledade Santos
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São curiosos, embora simples, os festejos nas noites de S. João e S. Pedro. Quinze dias antes, ranchos de rapazes e raparigas, aos domingos, vão colher rosmaninhos e bela-luz, pelos campos, quási sempre de noite, para que os donos dos prédios não ralhem.
Quinze dias antes não é muito para o rosmaninho e bela-luz secarem, mas é preciso também ensaiar os cantos e preparar os adufes, afiná-los bem para acertarem com os pífanos dos pastores e contar com rapazes que saibam notar (improvisar) para cantarem à viola, ao desafio, o que nalgumas aldeias dá mais realce à festa. |
Em quási todas as aldeias, mas principalmente na vila do Sabugal, há o costume de cravarem nas ruas ou largos principais altos pinheiros, que cobrem de rosmaninhos, dando-lhes o aspecto de ciprestes, deixando-lhes no cimo e dos lados muitos foguetes e bandeiras e por vezes um cântaro com um gato dentro. Perto do carvalho, nome dado ao pau revestido de rosmaninho, eleva-se um altar, bem ornamentado, improvisa-se um jardim e um repucho e ali se colocam muitos vasos com flores, craveiros, mangericos, cécias, melindres, etc. Em volta do altar, onde há estampas e imagens de S. João, estão muitas raparigas recebendo os visitantes, que de rua em rua percorrem todos os carvalhos, enquanto numa bandeja vão depondo o que querem, para ajuda das despesas, e perto do carvalho um grande rancho dança animadamente ou canta o S. João com acompanhamentos de pífanos e adufes ou executa jogos de roda.
Às dez da noite os ranchos de cada fogueira, ou, melhor diremos, de cada carvalho, visitam todos os outros, entoando o S. João e tocando adufes, pífanos e violas, num entusiasmo indescritível. Todas as famílias percorrem as ruas e visitam os carvalhos. Nessa noite as raparigas têm toda a liberdade, as mães confiam nelas, embora as vigiem mais ou menos; mas todas se enfeitam e nunca há razões de queixa.
Mal soa a meia noite lançam o fogo a um dos carvalhos, cujas labaredas se elevam a grande altura e, depois, aos outros, sucessivamente, ficando a vila iluminada como por encanto, por tantas fogueiras, estalando nos ares grande número de bombas e morteiros. Quando chega o fogo ao cimo do carvalho rebentam os morteiros e girândolas e, de vez em quando, raramente, despenha-se do alto o cântaro, de onde, ao cair na calçada, o gato foge espavorido e quási sempre incólume, desaparecendo do povoado, miando, açanhado, temível, ameaçador, ao som do alarido dos rapazes. É raro já tão bárbaro costume.
Mal o carvalho começa a arder, todos os ranchos cantam, entoando o S. João num verdadeiro delírio. São inumeráveis as cantigas que se ouvem e delas apenas copiaremos algumas:
O S. João embarcou
Eu bem no vi embarcar,
Embarcou para a Mourama
Aos mouros foi a pregar.
No altar do S. João
Nasceu uma cerejeira...
Quam seria o bem-ditoso
Que lhe comeu a primeira?...
S. João p'ra namorar
Fez uma fonte de prata;
As moças não vão a ela
S. João todo se mata.
Tanto na noite de S. João como na de S. Pedro, não há casa junto da qual não façam fogueiras de rosmaninho e bela-luz, pulando sôbre elas, defumando-se, homens e mulheres, numa verdadeira devoção e crença de que assim ficam livres de doenças (...).
Todos gostam de beber água em jejum; só os mandriões deixam de regar as hortas antes do nascer do sol; muitas pessoas expõem ovos à orvalhada da noite de S. João para descobrirem o futuro. Há muito quem creia que para curar sezões não há melhor remédio do que, na madrugada da noite de S. João, deitar-se sobre uma relva ou linho viçoso, cobertos de orvalho.
São curiosas as cantigas e os costumes nessa noite, em volta das fogueiras. Cada um que salta por cima destas vai sempre dizendo:
Sarna em vós
Saúde em nós
Sarna no Manel,
Saúde na Zabel...
Estas e outras parelhas improvisadas servem para provocar e estimular os versejadores populares, que vão sarnar-se, isto é, saltar as fogueiras para se livrarem de sarna e outras doenças...
Joaquim Manuel Correia, Terras de Riba-Côa, Memórias sobre o Concelho do Sabugal, Lisboa, 1946 (Ed. Fac-similada da Câmara Municipal do Sabugal)

Manuel Alvarez Bravo, 1931
Basta un instante
para saber onde hai un ser humano:
Alí onde haxa ternura
para unha debilidade.
Onde haxa para un frío, un acto de calor.
Onde haxa, pola vida, absoluto respecto.
Alí onde haxa un ser que sinta a humillación
dun semellante como a súa propia humillación.
Alí onde non se confunda humor con burla
nin hipocrisía con amor.
Basta un instante para entender a dor.
Ramón Sampedro, Cando eu Caia, Edicions Xerais de Galicia, Vigo, 1998
Giacometti
É aqui que eu quero chegar. O que é importante é orientar a atenção de um aluno para aquilo que, de início, excede a sua compreensão, mas cuja estatura e fascínio irresistíveis o atraem. A simplificação, o nivelamento que dominam agora toda a educação, salvo a mais privilegiada, são criminosos. Descuram fatalmente capacidades que permanecerão ocultas. Os ataques ao chamado elitismo escamoteiam uma condescendência vulgar para com todos aqueles que julgamos a priori serem incapazes de fazer melhor. Tanto o pensamento (o conhecimento, Wissenschaft, a imaginação a que se dá forma) como o amor exigem demasiado de nós. Tornam-nos humildes. Mas a humilhação e até o desespero face à dificuldade — depois de suarmos durante toda a noite, a equação ainda por resolver, a frase grega por compreender — podem irradiar com a luz do Sol.
George Steiner, Errata: Revisões de Uma Vida, Col. Antropos, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2001
* * *
Por outro lado, tanto quanto me é permitido perceber, as pessoas estão a tornar-se mais tolas de hora para hora. Todas essas universidades a organizarem programas de emergência para ensinarem aos alunos o que eles deviam ter aprendido no nono ano. No liceu de East Orange há muito deixaram de ler os clássicos antigos. Nunca ouviram sequer ouvir falar de Moby Dick, quanto mais lê-lo. (...) No tempo dos meus pais, e até em boa parte no seu e no meu, costumava ser a pessoa que ficava aquém. Agora é a disciplina. É muito difícil ler os clássicos; logo, a culpa é dos clássicos. Hoje o estudante faz valer a sua incapacidade como um privilégio. Eu não consigo aprender isto, portanto alguma coisa está errada nisto. E há especialmente alguma coisa errada no mau professor que quer ensinar tal matéria. Deixou de haver critérios, Mr. Zuckerman, para só haver opiniões.
Philip Roth, A Mancha Humana, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2004
Quando leio os teus versos acode-me a estranheza
das palavras conduzidas à brancura
pelo exercício difuso da beleza.
E assombrada vislumbro as flores
cujo aroma perdi há muito
despontando em mecanismos
que sempre desconheci.
E onde o verso se alonga sem pressa de pousar
ou a palavra se fixa
como esfera de luz rolando
no eixo da nostalgia -
é aí que coincidimos.
E então tudo vem à superfície
e tudo se hasteia ao vento e eu entendo
que estou de volta e já não preciso
de relógios nem calendários.
Soledade Santos
Que país será o meu? Este,
onde vivo e sou estrangeiro?
O da luz atravessada
pelos cisnes? Sem ti, como saber?
Eugénio de Andrade, excerto
A. Dürer
Oh! Como se me alonga, de ano em ano,
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!
Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.
Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece,
mil vezes caio, e perco a confiança.
Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
se os olhos ergo a ver se inda parece,
da vista se me perde e da esperança.
Luís de Camões, Rimas, texto estabelecido por A. J. Costa Pimpão, Livraria Almedina, Coimbra
ao toque terminante saímos todos
apagado o quadro limpa-se o pó de giz nas mãos
e percorrem-se diários corredores
das ternas tarefas sem glória
e lá fora o dia
que esmorece devagar no horário de verão
e uma proposta para sair
fica tão perto a foz é sexta-feira
podemos ver o sol ir-se no mar
através das vidraças tomar um vinho e conversar
há quantos anos nos encontramos
e partilhamos esta garrafa de vinho
sem acrimónia nem paixão
umas quantas simpatias discórdias várias
afluímos dos quatro cantos do país
e é certamente por acaso a nossa reunião
à beira-mar e da idade e de todos os projectos
que iniciámos e deixámos por metade
e também dos sonhos que perseguimos
sem pejo e longe
do fulgor fácil dos primeiros anos
e escurece a lagoa e de longe as ondas batem
para lá do areal do tinir de louças e talheres
se as cristas alcançam o dorso das dunas
brevemente acendem-se ao luar
Soledade Santos
A propósito de objectos tão diversos como o texto da Constituição Europeia, o programa de Português na revisão curricular do Ensino Básico e Secundário, ou simplesmente do que pode presidir à intenção de "épater le bourgeois":
Necessariamente, a divinização do Poder conduz à despolitização das populações, já que as dispensa de qualquer comparticipação activa nos destinos colectivos. Promove mesmo uma «zona zero» entre o ser comum (real) e o predestinado (irreal) que lhe garante o mito indispensável e o sentido providencialista do seu exercício. Esta distância (conveniente) reservada entre os governantes e o homem da rua é na comunicação circunstancial ou na análise dos problemas um fosso de «altos» conceitos expostos numa linguagem hermética, contrária, por exemplo, à dos liberais esclarecidos de Pombal que, numa época em que imperava uma medida universalista do progresso, utilizavam a expressão directa de quem se expõe de peito aberto e pretende convencer pela razão.
«As cousas», ditou um dia o Marquês, «não são boas por serem custosas e magníficas mas porque são próprias e adequadas ao uso que delas se deve fazer.»
Estilo funcional como o barroco e como todos os estilos, é certo. Só que este, na forma clara do édito público, procura fazer-se entender à escala do País e não somente à do reduzido grupo da Corte e dos protegidos. Os ditadores conhecem-se até pelo estilo: o estilo dos ditadores define o seu alcance popular.
(...)
Uma estilística (sociológica, porque não?) da língua portuguesa poderia certamente demonstrar o ponto de pureza da nossa expressão verbal (pureza=clareza) nas etapas de maior identidade dos governantes com os governados ou, pelo contrário, o divórcio entre ambos nas estapas de conflito nacional.
José Cardoso Pires, Cartilha do Marialva, 1960, Co-edição do Círculo de Leitores e de Publicações Dom Quixote, 7ª ed, 1989