distraída folheio o livro de poemas
a capa um pouco partida as folhas
envelhecidas das mãos descuidadas
que foram as minhas há anos atrás
numa das páginas onde secaram
flores de macela de que restam
as manchas amarelas e um vago
cheiro a rio alguns versos cintilam
e nas palavras um pouco ácidas
familiares de as ter entoado
tantas vezes acordam vindos
do passado sons cheiros emoções
tardes de verão no jardim acabado
de regar a caleira transbordando
uma criança a soluçar e a lua
pendurada na janela da cozinha
mas o que busquei no poema
ou as respostas que encontrei não
descubro agora pois das águas fundas
da memória irrompem e rebentam
como bolhas de ar o jardim
o choro a chuva a lua mas quem
os sentiu perdeu-se e eu já não sei
o que me disseram os versos do poema
Soledade Santos
na corrente, respondo ao repto da Linha de Cabotagem e das Musas Esqueléticas .
Não podendo sair do "Fahrenheit 451", que livro quererias ser?
Os que já sou: alguns poemas de Eugénio de Andrade, Camões, Pessanha, Pessoa, Cesário, Manuel Bandeira, Leonard Cohen, René Char...; fragmentos de "Os Lusíadas", "Menina e Moça", "Dune". Talvez houvesse lugar, no universo do "Fahrenheit 451", para um livro não especializado.
Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?
Sim. Por todas as personagens que me interpelam, ou me comovem, ou me batem familiarmente no ombro. Tantas... Ao acaso da memória: Quióaqui, de Mishima; Alexandre Magno, de Mary Renault; João da Ega, de "Os Maias"; Lazarus Long, da "História do Futuro", do Heinlein; o protagonista de "Os Despojados", da Ursula K Le Guin; Mersault, de Camus; o próprio Camus, nos seus "Cadernos"; Zenon, Adriano e Dona Anna, de "Anna Soror", da Yourcenar. Em tempos mais remotos, o herói, cujo nome já não recordo, de "Uma Aventura na Escócia" e "Catriona". Mais recentemente, encantei-me com o jardineiro de "Três Cavalos".
Qual foi o último livro que compraste?
"Poemas de Mário de Sá-Carneiro", em edição de Teresa Sobral Cunha; "Duelo", de Luís Quintais; e "Don Quijote de la Mancha" (9,5 euros, edição da Real Academia Española).
Qual o último livro que leste?
Excepção à poesia, cuja leitura vou fazendo em permanência e intercaladamente, o último livro que li de uma assentada foi "As Lições dos Mestres", de George Steiner.
Que livros estás a ler?
"A Mancha Humana", de Roth, "À Procura da Língua Perfeita", de Umberto Eco e "Aventuras de Tom Bombadil", de Tolkien, estão aqui, juntamente com vários livros de poesia, a Bíblia, e umas quantas e díspares gramáticas da língua portuguesa.
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Nenhum. Incapaz de escolher entre tantos, ficaria como o burro entre os dois fardos de palha. Por outro lado, a leitura, ainda que actividade a sós connosco, é uma prática cultural. Sozinha, numa ilha deserta, sem a referência do Outro, não teria sentido ler.
A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Ao Rogério Santos - pelo seu interesse específico nos fenómenos da blogolândia.
Ao Sete Sóis - porque temos cruzado leituras e para passar testemunho à geração mais jovem (e porque ele está a preparar-se para me bombardear, em breve, com muitas e difíceis perguntas, vingança antecipada).
Ao Adair - porque é poeta, meu amigo e está do outro lado do mar, no Brasil.
Água e terra tomam-se
na fúria do princípio,
morre-se escondidamente algures
em silêncios que ninguém deplora
e o tempo é de risadas
ígneas sem pudor.
Aqui nada – silêncio da manhã que nasce
como as outras:
doçura envenenada dos dias
e tudo tão quieto excepto
o peito
e o ensaio de um poema.
Não serve para nada o poema:
não resgata não limpa não sara.
Antes um vidro quebrado e o corte
limpo da aresta suja
no centro do peito
ou do mundo.
Soledade Santos

Caminhando na praia
olho para trás -
nem uma só pegada.
Hosai Ozaka (1885 - 1926)
* * *
Crisântemo de Inverno -
apenas visitado pela sua
fatigada luz.
Shuoshi Mizuhara (1892-1981)
O Haicai no Século XX - Antologia, selecção e tradução de Casimiro de Brito e Ban'ya Natsuishi
Há dentro de mim uma cidade de avenidas monótonas
onde podes perder-te
que nenhuma se percorre duas vezes igual.
Cobre-a, aos olhos sitiados de angústia,
devagar uma patine ―
escamas cor de rosa, sonhos erodidos, torres
cerces ao chão.
Houve um rio? Jardins? Chuva estival? Uma vontade?
Lua e estrelas desenharam o ciclo das estações?
Esta cidade onde nada contraria a força da gravidade.
Soledade Santos