Chagall
Se descalzan los días
para pasar de largo sin que nos demos cuenta.
Son casi despedidas, casi encuentros
– felices pero incómodos –
de cuerpos que se miran
y que aplazan la cita.
Aunque detrás,
suelen quedarnos huellas que no son los recuerdos.
De aquel jardín inculto yo conservo
el hombre que venía a desearte,
a caminar sin ti,
silvestre y solo.
Porque de ti le hablaban las adelfas,
con sus ramas difíciles como muchachas jóvenes,
y las palmeras altas igual que tu desnudo,
y aquel cielo corrido
que buscaba
la luz con que el amor te distingue los ojos.
No envejecemos nunca. Tal vez no envejecemos.
Y ahora puedo decírtelo,
cuando tú me recuerdas las adelfas,
y tu desnudo en arco dibuja una palmera,
y los ojos se nublan
sobre el jardín silvestre de los enamorados.
Tal vez no envejecemos. O es acaso que el tiempo
se quitó los tacones para no molestarnos.
O es acaso el deseo
que camina en los labios todavía descalzo.
Luis García Montero
Encontrámos o alicerce
a pedra do lar e o poço
no espaço improvável
onde os sonhos se tecem
e construímos a casa
palafita aberta
aos rumores do mundo
e julgámo-nos seguros
Deslizou mansamente
sobre traves minadas
a cobertura do tempo
e eram só palavras
armas incapazes
contra as cerejas de Junho
pequenos punhos rubros
da realidade
Soledade Santos
Nos comentários ao poema anterior falou-se, naturalmente, de palavras. Às vezes, "umas chatas", disse o Paulo; um "círculo de luz", disse o Jorge; "perigosas ou inocentes e ambas as coisas", citou o Zef; e a mb ocorreu que um dia eu lhe dissera serem os melros os goliardos entre as aves.
Lembrei-me assim de Heloísa e Pedro Abelardo, de quem alguns dizem ter sido o percursor dos goliardos. Lembrei-me em particular das cartas que trocaram, sobretudo a primeira que, do convento de Paraclet, Heloísa envia a Abelardo - espécie de gatilho da comunicação. Lendo-a, quem poderá dizer que as palavras são inermes?
Encontrei há tempos, na revista online da Faculdade de Filosofia e Humanidades da Universidade do Chile, um ensaio acerca dessa primeira carta, ensaio que percorri com agrado e alguma malícia: porque Heloísa foi mulher e viveu há novecentos anos. E como argumenta bem com o mestre da Lógica - e o persuade! O ensaio é longo. Reproduzo aqui, traduzindo-os livremente, apenas alguns excertos sobre a natureza e o alcance do discurso amoroso.
HELOÍSA E ABELARDO: PALAVRAS DE AMOR
María del Pilar Jarpa Manzur
Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación
(...)
A primeira carta de Heloísa a Abelardo confessa uma petição de palavra. Através de argumentos que deslizam e se cruzam no texto, Heloísa implora traços da boca ou da mão do seu amado. Como numa ode, enaltece o poder da palavra. As suas cartas não contêm apenas um discurso acerca do amor, mas também o discurso do amor.
(...)
No entanto, que podia esperar Heloísa de Abelardo, se todo o contexto da sua relação se tinha desvanecido? Se todos os prazeres lhes tinham sido arrebatados? Se Abelardo era agora mudo para a linguagem erótica dos amantes?
Surgia então a palavra como possibilidade - talvez a única - do reencontro amoroso; como um antídoto contra a saudade e a melancolia; como um espelho em cujo reflexo regressaria - intacto - o ser amado.
(...)
A linguagem, forjada em cartas, concede-lhes a oportunidade de se contemplarem, de se tentarem, de regressarem um ao outro. «É como se tivesse palavras à maneira de dedos, ou dedos na extremidade das minhas palavras.» (Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso).
(...)
Desta perspectiva, a do amor, [as palavras] não podem ser vistas como meras etiquetas, meras instruções desvinculadas do real. Ancoradas no profundo do mundo, ligam-se 'realmente' ao que significam, e também a quem as profere e a quem as acolhe. E de tal maneira se tornam imprescindíveis, pois sustentam a alma.
Assim, a linguagem é erigida a lugar primordial da comunicação, do encontro e da consolidação. O desvelar do ser que se efectua através delas é também sustento para o enamorado. Aos que se encontram a mundos de distância, aos que se amam a contratempo, as palavras oferecem sortilégios.
No último vaivém da agonia, a ausência do outro torna-se intransigente, devastadora. Sem palavras tudo é queda, tudo é esquecimento, e perguntar-se-á como podem elas suster a alma. Responderemos que quando o amor já se não pode escrever na pele, talvez as palavras confiram um refúgio onde a fusão seja possível, onde o amor torne a dizer-se a duas vozes.
(...)
Abelardo dedicará até ao fim dos seus dias muitas palavras a Heloísa: cartas, tratados e até a sua controversa declaração de Fé. Mas nunca mais, nem dos seus lábios nem da sua pena, Heloísa voltou a ouvir palavras de amor... Pelo menos é isso que nos contam os vazios que o tempo costuma deixar.
em: http://www.uchile.cl/facultades/filosofia/publicaciones/cyber/cyber10/mjarpa.html#13
as palavras brilham
mas furtam-se
ficam impassíveis
se as toco
e não vibram se as trago
aos lábios
como folhas vermelhas
dispostas num jardim de areia
reluzem de malícia
Soledade Santos
Em agradecimento a todos os amigos, em especial ao Zef, que animaram o Nocturno com Gatos por ocasião da 20.000ª visita, e pedindo desculpas pela ausência da anfitriã, ofereço uma casa que canta e umas flores de Van Gogh.
ramo de amendoeira
ESTA CASA
Gosto dela assim: ainda vibrante dos passos
que a deixaram a sós comigo
desobrigada
de abrigar seus moradores
Comigo é
diferente:
não me limito a usá-la
a habitá-la:
namoro com ela
Comigo
abandona-se a seus mais íntimos rumores
e cheiros
e aliviada do dever de ser útil
em silêncio
canta
Teresa Rita Lopes, Afectos, Editorial Presença, Lisboa, 2000
Canta o granizo na janela
e os fios de água constelam
olhos de vento e de inverno
que jardins breves invadem;
depois somem-se na lembrança – que represo.
Fica esta sala agora aqui:
a janela a mesa livros o esfumado
auto-retrato de um pintor. Muito frio.
E do rádio na cozinha uma cantiga
Santa María, váleme, ai Señor!
de Afonso Dez de Castela.
Soledade Santos