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E ouvimos dizer que são eróticos. Ah, sim, são eróticos; mas quem diz da noite de Junho que é «erótica», saturada pelo canto dos rouxinóis, num anseio quase ameaçador sob as estrelas febris? Ou quem chama «erótica» à sabedoria profunda e abençoada que tudo abarca e torna fértil, ou à alegria ou à morte ou ao dobrar dos sinos?...
Uma palavra regressa aqui à sua grandeza, ao terror e à glória: ao incomensurável.
Nestas folhas, nestas coisas, Eros, o deus, regressou para junto de nós — o Eros de Sócrates, talvez, que apesar de Fedro e do Banquete se perdera —: este tão doce e leve Eros, este espírito profundo, este amante grandioso e imodesto...
Ele tinha de tornar-se corpo; pois de que outro modo podem as artes plásticas tomar posse do espírito se todos os seus meios dependem dos sentidos, do palpável! — E quanto mais desenvolvem estes meios, quanto maior a paixão com que de si mesmas ganham consciência, tanto mais sensuais têm de tornar-se, mais é forçoso que mostrem o espírito através do corpo.
Para o criador vale ainda o que para Dante valia:
O corpo... é para ele a alma.
Rilke, sobre os desenhos de Rodin (1905), in Auguste Rodin e Rainer Maria Rilke, Momentos de Paixão, Relógio D'Água, Lisboa, 2004
Inspira e fixa-te ao lume familiar:
a planta que junto da mesa se alçou
arbusto em anos de fixidez
à terra exígua do pote
e ao silêncio rosado na casa;
o Modigliani ao alcance dos olhos,
as mãos de Alice vê um dia foram as tuas
assim pousadas sobre um vestido
intemporalmente azul;
o vale flutuante para lá das vidraças
e os sobreiros que podes ouvir
ao vento mas daqui não vês.
E cobrindo tudo
a abóbada da música.
Essa é a moldura estás em casa
agora senta-te e escreve.
Pode ser que o poema venha de soslaio,
rumor meditativo de palavras soltas
chamadas pela ondulação da música
e do vale ao longe. E pode ser
consigas evitar o ponto
em que não deves tocar, esse
onde outras palavras jazem
cheias de fúria e perplexidade.
Soledade Santos
Nevou na minha terra. Eu não estive na minha terra.
Perdida a conjunção que um dia fez delas uma única, complexa, permanecem simples, as duas pequenas frases. Desgarradas, e possivelmente sem esperança de encontrar conector.
Contudo (sempre se arranja uma adversativa, e sem queixumes) há outras terras que são minhas.
Não sei se nevou em Salamanca, já não resta ninguém que mo possa dizer, a avó, os tios, os primos, nem a velha casa com janelas de sacada existe mais. Mas a Praça sim.
Salamanca, Plaza Mayor - a mais bela de Espanha. Com os meus agradecimentos a Rogério Santos, por partilhar esta fotografia onde a pedra se faz luz, e o mesmo encantamento pela velha Praça.
Tantas horas as palavras afloram
os dedos e a comissura dos lábios
e se afogam inseguras no silêncio.
E o tempo vai. Fogachos brilham
e extinguem-se. Extingo-os. Memórias
acutilam a decisão. Repito gestos –
refaço o perímetro do mundo.
Soledade Santos
à blogolândia um amigo que é um poeta admirável, e cujos poemas me movem desde o primeiro, lido na internet há quase seis anos, e foi então como um reconhecimento.
No Nocturmo com Gatos há dois poemas do Adair - um deles do seu último livro, Desencontrados Ventos, título que deu também ao blogue.
Quis celebrar a sua vinda, mas o Weblog não mo permitiu. E hoje que finalmente acedo ao menu de edição, dou por mim a agradecer-lhe um gesto de afecto. E a lembrar. Por exemplo, este é um poema de que muito gosto. E que "vi" nascer.

Perecimentos
Não sei se o rio
que banhava minha cidade
ainda corre
para o mar.
Nem se as paredes
da casa onde vivi ainda
estão coloridas.
Não sei se o asfalto já
ocultou as pedras
onde viajou o primeiro fusca
de meu pai.
Nem se cresceu mato
ou edifícios brilhantes
no lote vago onde brincávamos.
Faz tempo esqueci
de quais tios sobrinhos e primos
nasceram ou morreram.
E minha cidade não é
mais sequer um retrato
na parede.
Longe cada ano mais
me distancia
dos meus primeiros dias
da mamadeira no chão da sala
dos canarinhos amarelos
das goiabas e do limoeiro.
Longe cada dia mais
me distancio do que
fui ou poderia
e vou me esquecendo
pelos corredores cada vez mais vazios
deste meu minúsculo mundo.
Adair Carvalhais Júnior

Da Vinci, Testa di Giovinetta
Quand nous en serons au temps des cerises
Et gai rossignol et merle moqueur
Seront tous en fête
Les belles auront la folie en tête
Et les amoureux du soleil au cœur.
Quand nous en seront au temps des cerises
Sifflera bien mieux le merle moqueur.
Mais il est bien court le temps des cerises
Où l'on s'en va deux cueillir en rêvant
Des pendants d'oreilles
Cerises d'amour aux robes pareilles
Tombant sous la feuille en gouttes de sang.
Mais il est bien court le temps des cerises
Pendants de corail qu'on cueille en rêvant.
Quand vous en serez au temps des cerises
Si vous avez peur des chagrins d'amour
Evitez les belles
Moi qui ne crains pas les peines cruelles
Je ne vivrai pas sans souffrir un jour.
Quand vous en serez au temps des cerises
Vous aurez aussi des chagrins d'amour.
J'aimerai toujours le temps des cerises
C'est de ce temps là que je garde au cœur
Une plaie ouverte
Et dame Fortune en m'étant offerte
Ne saura jamais calmer ma douleur.
J'aimerai toujours le temps des cerises
Et le souvenir que je garde au cœur.
Canção de Jean-Baptiste Clément e Antoine Renard (1867)