novembro 30, 2004

Talvez amanhã

amanhã talvez amanhã
eu volte a dizer amo-te

e os sons inaugurem
na escassez permitida
o arco voltaico
a insígnia da vida –

um arranhão apenas
de bordas azuis


          Soledade Santos

Publicado por sol em 02:31 PM | Comentários (7)

novembro 28, 2004

O último poema

estrela-bandeira.jpg


Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira, Libertinagem, in Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993

Publicado por sol em 07:27 PM | Comentários (12)

novembro 20, 2004

Alguma coisa

Abrimos caminho para as velhas casas
tal como para as pessoas.
Algumas aceitam-nos e deixam
que desvelemos esconsos
os murmúrios de vida
e a argamassa do tempo.
Quietas por trás das roseiras
parecem dormir.
Mas podem ser os acidentes
visíveis nos caminhos
de quem nunca regressou.

Assim a casa do cimo.
Em volta da mesa da cozinha
sentam-se só mulheres.
E no cheiro da salsa que picamos
miudinha para os ovos verdes
alguma coisa ali se aquieta,
alguma coisa que tem raízes
numa parte ignorada,
numa outra casa onde imperava
sobre um bando de rapazes
uma rapariga que não tinha
mãe irmãs nem primas.

Não se pode mudar de luz
nem outros espelhos além dos primeiros
nos aceitam o rosto.
Mas há casas assim densas
de um calor de estábulo onde os cheiros
e a vibração das madeiras
e a gota que pinga
da torneira mal fechada
nos vestem
contra as injúrias do tempo e o frio
que nem sabíamos sentir.


          Soledade Santos

Publicado por sol em 11:08 PM | Comentários (29)

novembro 12, 2004

São Martinho

Uma bela prenda de aniversário substitui a anterior edição. Mantêm-se o poema, a fotografia e os comentários. Mas agora o texto projecta-se, tendo em fundo o pinhal que evoca.


sabugal_texto.jpg


          Soledade Santos

Publicado por sol em 12:58 AM | Comentários (24)

novembro 11, 2004

Porque faz hoje um ano

que o Nocturno com Gatos se mudou para o Weblog e se tornou público, depois de duas atribuladas e sigilosas semanas no Sapo.

Para os amigos e para os companheiros do universo virtual que me têm visitado e ajudado a transformar o Nocturno num espaço de afectos e aconchegos, Nuit sur La Mer, de um pintor que me acompanha há muitos anos.

nuit sur la mer.jpg
Paul Delvaux, Nuit sur la mer - 1976



Publicado por sol em 11:59 PM | Comentários (17)

novembro 10, 2004

um dia de semana

o amor chegou na madrugada de um dia de semana
veio não de todo imprevisto na crista da insónia
e começou por afectar a disciplina respiratória

depois mudou gestos que a rotina ritmara
e inaugurando silêncios novas escalas de som
hasteou-me no ponto mais alto da levitação

agora tão perfeitamente quanto posso vê-lo
o meu amor é uma transparência incandescente
ou uma nascente e ninguém sabe como começou


          Soledade Santos

Publicado por sol em 01:55 PM | Comentários (18)

novembro 05, 2004

Advertencia

Si alguna vez sufres — y lo harás —
por alguien que te amó y que te abandona,
no le guardes rencor ni le perdones:
deforma su memoria el rencoroso
y en amor el perdón es sólo una palabra
que no se aviene nunca a un sentimiento.
Soporta tu dolor en soledad,
porque el merecimiento aun de la adversidad mayor
está justificado si fuiste
desleal a tu conciencia, no apostando
sólo por el amor que te entregaba
su esplendor inocente, sus intocados mundos.

Así que cuando sufras — y lo harás —
por alguien que te amó, procura siempre
acusarte a ti mismo de su olvido
porque fuiste cobarde o quizá fuiste ingrato.
Y aprende que la vida tiene un precio
que no puedes pagar continuamente.
Y aprende dignidad en tu derrota,
agradeciendo a quien te quiso
el regalo fugaz de su hermosura.


Felipe Benítez Reyes, Los Vanos Mundos, in Trama de Niebla, Poesia Reunida 1978-2002, Tusquets Editores, Barcelona, 2003

Publicado por sol em 10:04 AM | Comentários (11)

novembro 02, 2004

Because of

Os primeiros cinco discos de Leonard Cohen, até New Skin For The Old Ceremony (1974), foram e permanecem para mim - todos eles - objecto de veneração. Depois, só com Recent Songs, em 1979, reatámos a velha magia. E, a partir daí, se a minha relação com o poeta e o músico continuou apaixonada, é porque lhe sou fiel de um modo difícil de explicar a quem não for coheniano.





Dear Heather acaba de sair neste Outubro de 2004. À primeira audição não gostei do cd. Agora enternece-me, tal como os 70 anos do músico. A voz, mais rouca, apoia-se nas das acompanhantes e nos arranjos. Mas em todo o cd uma melancolia suave e reconciliada e, sobretudo, alguns pequenos maravilhosos poemas. Como este que transcrevo. Quem, além de Cohen, falaria assim das mulheres, com essa terna, irónica cumplicidade, que se percebe mútua? Este é um jogo muito antigo.


Because Of

Because of a few songs
Wherein I spoke of their mystery,
Women have been
Exceptionally kind
To my old age.
They make a secret place
In their busy lives
And they take me there.
They become naked
In their different ways
And they say,
"Look at me, Leonard,
Look at me one last time."
Then they bend over the bed
And cover me up
Like a baby that is shivering.

Leonard Cohen

Publicado por sol em 02:35 PM | Comentários (9)

novembro 01, 2004

Outono

Acores.jpg
foto de Miguel Costa

Os ciclos do tempo e a órbita dos planetas trazem
de novo o outono e é como todos os outros —
os da infância seus ventos seus cheiros
a terra úbere, e os da cidade
embaciados lentos.

Os corvos crocitam de novo
ao fim do dia sobre o pinhal as cores
em pastel morno e tudo está
diante da minha expectativa um pouco triste.
Um paladar menos nítido
no saborear dos dias nos compassos
de espera e conjunção
em poemas que já não escrevo
ou raramente.

A doçura de outonos idos é uma cesta de castanhas
para lá do vidro na montra
de uma loja que se enche de poeira
e o desejo mesmo de as comer
vive na lembrança, sobretudo não chega às mãos.


          Soledade Santos

Publicado por sol em 06:50 PM | Comentários (8)