O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e se consome, é a sua moral. E não há outra. Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. [...] Palavra de aflição, mesmo quando luminosa, de desejo, apesar de serena, rumorosa até quando nos diz o silêncio, pois esse ser sedento de ser, que é o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura é uma reconciliação, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência. Essa revelação do poeta, e dos outros com ele, essa descida ao coração da alma, de que Heraclito encontrou a fórmula, essa coragem de mostrar o que achou no caminho – e nunca é fácil, nem alegre, nem irresponsável revelar o que se encontrou ou sonhou nas galerias da alma – é o que chamarei agora dignidade do poeta, e com ele a do homem. Porque é sempre de dignidade que se trata quando alguém dá a ver o que viu, por mais fascinante ou intolerável que seja o achado.
[...]
Eis o homem, eis o seu efémero rosto, feito de milhares e milhares de rostos, todos eles respirando na terra, nenhum superior a outro, separados por mil e uma diferenças, unidos por mil e uma coisas comuns, semelhantes e distintos, parecidos todos e contudo cada um deles único, solitário, desamparado. É a tal rosto que cada poeta está religado. A sua rebeldia é em nome dessa fidelidade. Fidelidade ao homem e à sua lúcida esperança de sê-lo inteiramente; fidelidade à terra onde mergulha as raízes mais fundas; fidelidade à palavra que no homem é capaz da verdade última do sangue, que é também verdade da alma.
Eugénio de Andrade, Os Afluentes do Silêncio, Editorial Inova, Porto, 1974
Havia uma coisa que doía e eu não podia contar-ta.
Não era a distância que a voz sabe enganar.
Nem, perdidas as folhas, os ramos do choupo,
frágeis gumes de outono, golpes no meu olhar.
Nem céu e serra chamarem-me e ser em vão.
Uma nuvem pousada nos cumes, a mesma nuvem
há dois anos - isso custa. Ouvir rinchar e surgir
o cavalo pigarço, delícia fortuita para o olhar.
As ermas oliveiras, o prado, os pinheiros, tudo o que vejo.
E os jardins também que aqui não há.
Tu sabes, eu tenho este modo costuro padrões,
ligo os fios do tempo e de coisas pequenas,
emolduro o céu, a serra, uma colina de areia,
os dois cavalos que descem o prado, aquele
que relincha e parece puxar a lua atrás.
Eu olho e vejo e digo-te estas coisas. E rimos,
animaizinhos, crianças lascivas desabrigadas
(não são inclinados à melancolia os nossos jardins).
Mas há uma coisa que dói e eu não sei contar-ta:
o baralho está marcado - não temos como ganhar.
Soledade Santos

acordo sem saber o que me despertou
um som é improvável talvez o silêncio
quente da casa talvez o frio buscando
frinchas os dedos aguçados do Inverno
não encontro motivo para ficar desperta
nem razão para voltar
ao aconchego da cama oscilo assim
sonolenta à beira de uma revelação
nos sobreiros lá fora levanta-se o vento
é a voz do desamparo quantas vezes
o dissemos nenhum som
é mais triste na noite do que o vento
soprando lembranças das viagens
sem regresso quase todas as que fiz
caminhos que já não sei
lá fora o vento sopra pudesse eu dormir
Soledade Santos
Ao Astrophil, ao Groze e ao Sete Sóis, com carinho e admiração.
Pela terna insistência do Sete Sóis.
Pela verve brilhante do Groze.
Pela apaixonada serenidade do Astrophil.
Pelas palavras e pelo riso.
Pela poesia. Pela música.
Pela noite que se fez navegável.
Um poema de que gosto, palavras ou «relâmpagos/que hão-de chegar saltando de uma ilha para outra ilha». Como as conversas. E as cerejas:-)
Em torno do Imponderável
O mais seguro abrigo
é o que oscila um pouco
como se oscilássemos
sobre a matéria viva
ou no coração do espaço.
Ramos Rosa, Uma Rã que Salta, Ed. Limiar, 1995
a casa é uma aguarela
no clarão do crepúsculo
a casa e eu dentro dela
vagando na calma grande
de não estar à tua espera
Soledade Santos
à volta de Álvaro de Campos
Um sol claro chegou hoje à minha varanda
e trouxe os gatos dos buracos onde entretêm o tédio.
Fitam-me e os olhos alaranjam.
Ah, os gatos reconhecem-me clandestina-pessoa
e predar-me-iam
se eu não fosse tão maior que eles.
Agora estiram-se, enroscam-se, estilizações kitsch
como em postais ilustrados de Grécia e Malta
de onde o Mediterrâneo inteiro se escapou
vertendo a saudade cor de vinho de Odisseu
e um barco entristece, levemente imóvel,
no porto inútil de sermos aqui.
Pensando nisto, parece-me que faço versos realmente confortáveis,
destes em que nada se tem para dizer,
destes que melhor seria escrever no dia seguinte,
na vida seguinte,
e a verdade está toda fora deles.
Pois na verdade não há gatos,
não há sol, não há varanda,
na verdade, e para lá dela,
só Eu,
filha trânsfuga da ausência,
e o pavor frio nas entranhas, de que o universo seja a criação loquaz
de mim
de mim
de mim…
Plop!
Como um placebo que não alivia senão por não sabermos que é placebo,
a gata cinzenta salta do telhado
e desenha, em torno dos meus pés, a certeza de que existe
sem que eu lhe seja necessária à evidência.