«Si, la tierra está sola, bien sola con sus muertos»
Luis Cernuda
escolheste morrer em setembro
e a terra dava ainda frutos
dizias não era má escolha
para ti que a encontrarias macia
mas é um ofício triste o da terra
e nunca encontrei palavra
que resgate dessa asfixia
nesse ano partiram tantos
da tua geração e eu tardei
em lamentá-los parecia que iam
porque tinhas ido nada mais natural
uma revoada de pardais
fartos das rédeas dos dias
encabritados para voar
mas não foi de todo assim
só para mim e poucos mais
se mudou o curso do universo
nesse verão e bem vês que ainda
estou aqui e em velhos vícios
componho o poema uma atitude
enterro mesmo as mãos no chão
Soledade Santos

Nenhum outro poeta-músico me acompanha há tantos anos e tão intimamente. Nenhum foi tão central na construção da minha mundividência.
Hoje faz 70 anos. Field Commander Cohen.

Esta entrada é-lhe ternamente dedicada. E a um amigo comum - outro pássaro no arame.
I'D LIKE TO READ
I'd like to read
one of the poems
that drove me into poetry
I can't remember one line
or where to look
The same thing
happened with money
girls and late evenings of talk
Where are the poems
that led me away
from everything I loved
to stand here
naked with the thought of finding thee
Leonard Cohen, The Energy of Slaves

Um pedaço de pão, um copo de água fresca,
a sombra de uma árvore e os teus olhos!
Nenhum sultão é mais feliz do que eu.
E nenhum mendigo é mais triste.
* * *
Escuta este grande segredo:
Quando a primeira aurora iluminou o Mundo,
Adão já não era mais que uma criatura dolorida
que invocava a noite e a morte.
* * *
Não se pode incendiar o mar
nem convencer o homem de que a felicidade é perigosa.
Ele sabe, todavia, que o menor choque é fatal à ânfora cheia
e deixa intacta a ânfora vazia.
Omar Khayyam, Rubaiyat, Odes ao Vinho, Moraes Editores, Lisboa, 1981
Parece inverno chove – a terra triste
como as aves pobres que não migram
como a gamela das ceias comunais
garfos de estanho
o fumo a candeia a pedra negra a casa
de telha vã
Soledade Santos
Sítios de onde olhei estrelas
e foram tantos se os lembrasse –
meridianos da minha vida
um mapa o fio
de Ariane
à primeira das terríveis alegrias.
Desta falésia quantas vezes
barca branca apontada ao sul
estrelas que convocámos
e na proa o braço erguido -
claridade
de um deus gentil meu irmão.
Que é voltar?
Verões foram, arderam
estrelas em mar e céu
extraviou-se a via láctea
e o deus partiu.
Como se nunca houvera existido.
Apelo silente dos fundos do mar
longas plácidas ondas, fosforescências
da vida breve.
Colho o vento o tempo o riso
agudo
de outras crianças pequenas lanças de alegria.
Soledade Santos
eternas são as tardes
em que o cheiro da maresia
encrespa os cabelos molhados
pelo suor amável do dia
e a doçura de alfarrobas
no verniz escuro da vagem
trincada nos lábios é como
outra boca selvagem
Soledade Santos