Nocturno com Gatos vai a banhos.
Noah Grey
Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.
Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.
Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.
Manuel Bandeira, Estrela da Manhã
nos afectos da manhã
nos encontramos
e desvendamos lumes
e arranhões que podem
voltar a sangrar
uma inflexão de voz
o trajecto breve da íris
a mão em volteio de ave
tudo significa e abre
portões ou escassas frestas
e enquanto o sol vai trepando
aos lençóis com a preguiça
de um felino mimado
nas pegadas amarelas
é a voz que reverbera
Soledade Santos
«Aconteça o que acontecer, não chegueis nunca a odiar-vos.» Esta sua suprema admonição põe-nos em guarda contra o pecado mortal da paixão levada ao extremo, depressa virada contra si própria e transformada em ódio, em rancor, ou, o que é pior, em irritada indiferença. A felicidade alcançada e a dor aceite salvam-nos desse desastre.
Marguerite Yourcenar, Anna Soror, em Como a Água que Corre, Difel, 1983
O amor é um castigo. Somos punidos por não termos podido permanecer sós.
Marguerite Yourcenar, Fogos, Relógio D'Água, 1988
James Pitts
I
monólogo
para Soledade
4 ou 5 versos sem
destino o vão
resvalar dos lábios no
nada
minha ternura toda
desperdiçada
Adair Carvalhais Júnior
II
trégua
para Adair
direi outra vez do vazio
dia cheio de amorosa luz
e o silêncio
onde dissonância
nenhuma rompe
a seda altera
a respiração
do mundo o caos
mas hoje
não
fictício
equilíbrio em que me fixo
só
Soledade Santos