
Vida que morre e que subsiste
Vária, absurda, sórdida, ávida,
Má!
Se me indagar um qualquer
Repórter:
«Que há de mais bonito
No ingrato mundo?»
Não hesito;
Responderei:
«De mais bonito
Não sei dizer. Mas de mais triste,
– De mais triste é uma mulher
Grávida. Qualquer mulher grávida.»
Manuel Bandeira, Estrela da Vida Inteira , Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993
K. H. de Josselin de Jong
Nossa Senhora da Ternura,
Abre a ele tua alma pura.
Dissipa a sua noite, e ele veja
Onde estás. Tua mão o proteja.
Afasta-o, Mãe, da gente má,
Para que a ti, puro, ele vá.
Guarda-o da dor, dá-lhe a alegria,
Para que, junto a ti, sorria.
Dá-lhe aos olhos pudor bastante
Para visão de teu semblante.
Dá-lhe compreensão maior,
Para que entenda o que é o amor.
E além da morte, em teu regaço
Descanse enfim seu corpo lasso.
Nossa Senhora da Ternura,
Bendita sejas, Virgem pura.
tradução de Manuel Bandeira, em Poemas Traduzidos
No se descarta que al salir del cine
una pareja cuente con nuevos enemigos.
La pelicula es mala,
las sombras buscan cuerpos para encontrar deseos,
se oyen voces de actores,
imágenes dudosas,
pero los labios son materia viva
en las butacas observadas
y los botones pierden su vergüenza.
Suena un disparo inútil,
la camisa deshecha,
la mano que naufraga entre los muslos.
Se persiguen dos coches por tus hombros
y estalla un edificio,
una lengua de fuego en la ventana,
llamas que desesperan vientre abajo,
el pelo negro por la mano abierta,
negro como la vida en la pantalla,
como el silencio del actor que mira,
del acomodador,
del público encendido.
Ya no tienen edad para estas cosas,
comienta el matrimonio da la última fila.
Y pienso que es verdad. No se descarta,
no se descarta que al salir del cine
una pareja cuente con nuevos enemigos.
Luis Garcia Montero, Completamente Viernes, Tusquets Editores, Barcelona, 1998
Querido amigo gostava de enviar-te
o canto lavado dos pássaros
nos plátanos de Alcobaça
do mosteiro o silêncio coalhado
no sono púrpura de Inês e Pedro
da luz a mais desvelada, a da Foz
por onde o mar regressa
chapinhado de infância e sal
enviar-te enfim o pequeno país íntimo
adjacente ao litoral do coração
porque um dia entraste na minha casa
e inesperadamente
todas as janelas se abriram
Soledade Santos

«Há quase setenta e três anos que te conheço, vida louca, e parece-me que tenho ainda de te descobrir. Ainda não te encontrei, morte danada, mas parece-me que te conheço de cor. (...)
Il faut vivre d'amour, d'amitié, de défaites.
Donner à perte d'âme, éclater de passion
Pour que l'on puisse écrire à la fin de la fête:
Quelque chose a changé pendant que nous passions.»
(Serge Reggiani, Último Correio Antes da Noite, Campo das Letras, Porto, 1996)
Para que possamos dizer que algo mudou quando nós passávamos, diz ele. E mudou. Tantas canções na voz de Reggiani, ouvidas ao longo de tantos anos, e que se tornaram, com a maravilhosa voz, uma parte do meu imaginário e da minha construção do mundo. Canções como esta, por exemplo, pela qual tenho um particular carinho:
LE PETIT GARÇON
Ce soir, mon petit garçon
Mon enfant, mon amour
Ce soir, il pleut sur la maison
Mon garçon, mon amour
Comme tu lui ressembles!
On reste tous les deux
On va bien jouer ensemble
On est là tous les deux
Seuls
Ce soir elle ne rentre pas
Je n'sais plus, je n'sais pas
Elle écrira demain peut-être
Nous aurons une lettre
Il pleut sur le jardin
Je vais faire du feu
Je n'ai pas de chagrin
On est là tous les deux
Seuls
Attends, je sais des histoires
Il était une fois
Il pleut dans ma mémoire
Je crois, ne pleure pas
Attends, je sais des histoires
Mais il fait un peu froid, ce soir
Une histoire de gens qui s'aiment
Une histoire de gens qui s'aiment
Tu vas voir
Ne t'en vas pas
Ne me laisse pas
Je ne sais plus faire du feu
Mon enfant, mon amour
Je ne peux plus grand-chose
Mon garçon, mon amour
Comme tu lui ressembles!
On est là tous les deux
Perdus parmi les choses
Dans cette grande chambre
Seuls
On va jouer à la guerre
Et tu t'endormiras
Ce soir, elle ne sera pas là
Je n'sais plus, je n'sais pas
Je n'aime pas l'hiver
Il n'y a plus de feu
Il n'y a plus rien à faire
Qu'à jouer tous les deux
Seuls
Attends, je sais des histoires
Il était une fois
Je n'ai plus de mémoire
Je crois, ne pleure pas
Attends, je sais des histoires
Mais il est un peu tard, ce soir
L'histoire des gens qui s'aimèrent
Et qui jouèrent à la guerre
Écoute-moi
Elle n'est plus là
Non... ne pleure pas...
Letra de Jean-Loup Dabadie, música de Jacques Datin, 1967
226
Mon corps était plus immense que la terre et je n’en connaissais qu’une toute
petite parcelle. J’accueille des promesses de félicité si innombrables, du fond
de mon âme, que je te supplie de garder pour nous seuls ton nom.
René Char, Fureur et Mystère, Éditions Gallimard, 1962
Linda Connor
na casa desabitada tua
voz silenciosa preenche
meus vazios invade meus
ocos venta na minha
insensatez
e me intima a amar-te na tua
cidade sem causa ou
efeito feito uma
calamidade
pública
mas os aeroportos estão todos fechados
Adair Carvalhais Júnior, Desencontrados Ventos, Outras Letras Editora, Rio de Janeiro, 2002
Política
Da História encarrega-se o tempo.
Mas quem se encarrega das pessoas?
***
A experiência diz-me: estou longe
e estou sozinha.
***
Moral?
Não é Deus, é o homem
que está cheio de zonas interditas
I. K. Centeno, Irreflexões, Edições Ática, Lisboa, 1974
Trazemos-te da quinta uma cesta de amoras
aninhadas nos pedúnculos folhas-espinhos.
Sorris da túrgida perfeição e antecipas
com prazer o suco que há-de tingir-te
de roxo os lábios e as mãos vorazes.
Mas as amoras logo te aborrecem,
não te apetecem e o entusiasmo foi breve,
já não podes ir à quinta e nem te alegram
as notícias das árvores transplantadas.
Começaste a falar menos, cansas-te e talvez
já não te interesse o que virá depois,
até a curiosidade pela lavoura do teu corpo cessou.
Ultimamente dei-me conta de que todos falamos menos,
é difícil falar sem projectar o futuro,
para o ano, dizíamos, ou neste Inverno vamos,
mas agora sabemos que te irás com o Verão
e por um pudor desajeitado quase deixámos de falar
como se o mundo se fosse acabar nestas três semanas
que o teu prognóstico desenha.
Ainda disseste precisava de mais um ano,
mas aceitaste o tempo contado sem protestos
e começaste logo a desabitar a casa,
o lugar no topo da mesa,
como um inquilino bem comportado.
Enquanto isso florescem
as árvores que plantaste,
as crianças que geraste dão fruto também
e no silêncio em que te acolhes eu começo a confundir-te
com a terra vermelha do teu último Verão.
Soledade Santos
Eu vi a luz em um país perdido.
Camilo Pessanha, Clepsidra
Na minha meninice, ouvi falar destes costumes que permaneciam, de forma diluída e folclórica, apenas nas aldeias mais remotas, não já na sede do concelho. O que não impediu que um dos meus irmãos tivesse tido de pagar o vinho, para gáudio do resto da frátria, eu incluída.
***
«Na maior parte, se não na totalidade das povoações do Riba-Côa, existe ainda a Confraria dos Solteiros, cujas raízes históricas mergulham em épocas muito recuadas. Solteiro não é, na linguagem típica da zona, todo o indivíduo que ainda não casou, mas simplesmente aquele que, atingida certa idade, foi julgado apto a pagar o vinho à rapaziada.
"O nosso Zé já é um solteiro" é uma expressão muitas vezes invejosamente repetida pelos irmãos mais novos do felizardo, que já se antevêem, como ele, circulando livremente, altas horas da noite, pelas ruas do povoado; entrando nos serões; participando nas rusgas e nas romagens nocturnas às aldeias vizinhas (...).
Cria-se assim, na mente dos mais pequenos, uma atmosfera de lenda a respeito da vida nocturna do povoado e, consequentemente, a primeira ambição do rapazola que já fez dezassete anos, tem corpo e arte para dar e levar duas cacetadas, e discrição suficiente para calar o que entre a rapaziada se passa, é pagar o vinho. Mas a entrada na confraria não é fácil e tem o seu cerimonial.
(...)
A Confraria dos Solteiros tem a seu cargo «importantes missões» que tradicionalmente lhe competem. Primacial é a de vigiar a intromissão dos rapazes de fora na conquista dos corações femininos da aldeia. Também são os Solteiros que se encarregam, durante a quaresma, de entoar as ladainhas e os martírios do Senhor. Compete-lhes, igualmente, velar pela grandeza da fogueira do Natal e pela manutenção de certos rituais, na festa do orago.
Por via de regra, são amistosas as relações entre as confrarias dos vários povoados vizinhos. Mesmo assim, rapazes de fora só poderão percorrer afoitamente, pela calada da noite, as ruas da povoação, se acompanhados por um membro da confraria da terra.
Duas ou três vezes por ano, sempre na época das grandes seroadas - de 8 de Setembro ao Carnaval - há intercâmbio com as aldeias das redondezas. Os moços, de bengala ou bordão, acompanhados de tocador de harmónia e viola, correspondendo a um amável convite que é de brio pagar com juros, vão aos povoados mais próximos, onde são recebidos festivamente. Os visitados são pródigos em oferecer carne e vinho e em mostrar-lhes os serões onde as raparigas, avisadas a tempo da visita dos forasteiros, se apresentam envergando os seus trajos de ver a Deus. (...)
Todavia o namoro em terra alheia não é coisa fácil. Os rapazes do burgo, por mais amigos que sejam, têm por obrigação fazer a vida cara a quem quer que pretenda roubar-lhes as beldades. E assim, na primeira visita que fizer à conversada, para assentar ideias e receber dela o sim (o que só acontecerá algum tempo depois, visto que parece mal responder logo afirmativamente, ainda que se esteja morrendo de amores) o nosso homem tem de ir preparado. (...)
O mais novo dos rapazes tem de aprisioná-lo e combinar com ele o pagamento de uma quantia de resgate, quantia que varia segundo a fortuna e beleza da moça, mas que nunca será tão pequena que não dê para a compra de um chibarro e de uma coluna de pães de trigo (eles dizem carrola) da altura de quem não teve pejo de vir colher uma das mais lindas flores do jardim da terra (...). O rapaz, complacente e gostoso, paga, depois de interrogar a rapariga sobre se vale a pena pagar, isto é, depois de uma resposta que equivale a uma confissão de amor eterno. Rapariga que se negue depois de um rapaz ter pago o vinho por ela, é rapariga desconceituada, videira, na terminologia dos moços da terra, que esperam que um outro forasteiro venha pagar nova cantarada, pois para eles já não serve.
E o rapaz que, depois de pagar o vinho, abandona a rapariga, é também pecador caído no índex das moçoilas de sete léguas em volta e dificilmente poderá aspirar à mão de rapariga de vergonha.
Manuel Leal Freire, Por Terras do Sabugal, Quadros Etnográficos, Porto, 1969
Joan Miró
Voltei aos jardins mas nem sombra
de nós vi na face das coisas –
somos filhos do instante. E no entanto
que longos me vão os dias.
Por aqui tudo arde. Secretamente.
E uma raposa desceu
das terras altas.
Morde-me os dedos se tento afagá-la.
Soledade Santos

Rêver un impossible rêve
Porter le chagrin des départs
Brûler d'une possible fièvre
Partir où personne ne part
Aimer jusqu'à la déchirure
Aimer, même trop, même mal,
Tenter, sans force et sans armure,
D'atteindre l'inaccessible étoile
Telle est ma quête,
Suivre l'étoile
Peu m'importent mes chances
Peu m'importe le temps
Ou ma désespérance
Et puis lutter toujours
Sans questions ni repos
Se damner
Pour l'or d'un mot d'amour
Je ne sais si je serai ce héros
Mais mon cœur serait tranquille
Et les villes s'éclabousseraient de bleu
Parce qu'un malheureux
Brûle encore, bien qu'ayant tout brûlé
Brûle encore, même trop, même mal
Pour atteindre à s'en écarteler
Pour atteindre l'inaccessible étoile.
Jacques Brel
O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê
O poema alguém o dirá
Às searas
Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento
O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento
No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas
(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)
Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, 1962