Toda me entreguei, sem fim,
e de tal sorte hei trocado,
que é meu Amado para mim,
e eu sou para meu Amado.
Quando o doce Caçador
me atirou, fiquei rendida,
entre os braços do amor
ficou minha alma caída.
E ganhando nova vida,
de tal maneira hei trocado,
que é meu Amado para mim,
e eu sou para meu Amado.
Atirou-me com uma seta
envenenada de amor,
e minha alma ficou feita
una com seu Criador.
Eu já não quero outro amor,
que a meu Deus me hei entregado,
meu Amado é para mim,
e eu sou para meu Amado.
Santa Teresa de Ávila, Seta de Fogo, trad. de José Bento, Assírio & Alvim, 1989
Como se houvesse um incêndio de giestas para atravessar, eu não dormia.
Eugénio de Andrade, Limiar dos Pássaros, Ed Limiar, Porto, 1976

«Desculpem - mas jogar futebol assim é também poesia :)
Feliz, após jogo impróprio para cardíacos...»
Amélia Pais dixit.
Eu concordo
La poesía, a la que yo llegué siendo muy niño por una inevitable atracción fatal, es un veneno íntimo en el que yo he logrado alojar mi vida o parte de mi vida, sin que hasta ahora haya podido explicarme de donde me vino tal lujo o tal esclavitud y digo una cosa y otra porque en la poesía encuentras uno de los más impagables placeres y una de las más ingratas compensaciones de esta vida. Como expresión artística la poesía es ilógica, indefinible.
(...)
Lo que empezó siendo, para mí, una temeridad de adolescencia, acabó por convertirse en la disciplinada mesura del buscador de un grial en una tierra incógnita de la que emana siempre una extraña e irrepetible música que seduce a los naúfragos. En esta isla de la poesía cada cual sobrevive como puede, cubriendo su identidad con palabras de procedencia ilusoria que son como la espuma o como los pájaros que siempre sobrevuelan el territorio oscuro del poema como un eterno simulacro.
Carlos Rivera, A modo de poética o mi experiencia sensible, 2004

Turner - Pôr do sol sobre um lago, 1840 - Tate Gallery, Londres
cravei os pés na terra dei fruto
e alimento sonhos alheios:
cada dia devorada.
agora tão exaurida
súbito novembro chega –
passa o vento e é frio.
acenam do sobreiro as miúdas folhas
e só eu as vejo – trama de horas de longes da falta
que um amigo me faz. elas voam
perto as rolas.
e fita-me do parapeito um pardal singular.
Soledade Santos
Também lá se ouviu a cotovia
em manhãs claras e os corvos
à tarde quando sentada
no muro de xisto o calor se casava
aos cheiros da vinha e do milharal.
Era a mesma cotovia estou certa
de antigamente. Os corvos não sei,
presto-lhes agora mais atenção
pois agradei-me da labareda
retinta das penas
entre o verde dos pinheiros e a arruaça
de quem tem o papo cheio.
E à noite chegavam os pirilampos
tão brilhantes como dantes
e o coaxar das rãs na ribeira,
clamores da terra ou de versos
na materna língua que acende o Verão.
Soledade Santos
Talvez precisasses da luz oblíqua
e da esperança incumprida
como outrora da escassa janela
para as divagações nocturnas.
Nada agora diz grande coisa.
Prazer morno encurta os dias
laçados na ciência estrita
dos anos turbulentos idos.
Soledade Santos
As fontes regressam
de que incêndio cativas?
Eugénio de Andrade, Véspera de Água, Editorial Inova, Porto, 1973
porque
«a pátria (...) está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dua austera, apagada e vil tristeza.»
E porque Camões é «um esplendor» - como diz a minha amiga Amélia Pais, referindo-se ao Poeta que ao longo de anos vem divulgando. Há relações assim felizes e frutíferas. Como muitos, sou-lhe devedora no que respeita a um melhor entendimento de Camões. Fica aqui o público registo dessa dívida. E o convite para uma festa.

Soledade Santos

Manuel Bandeira, dos meus afectos – a poesia requintada e fraterna, a sábia candura.
Um poema para começar a semana a sorrir.
Brisa
Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.
Manuel Bandeira, Belo Belo, em Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993
Não sei como será o poema
que começo a escrever.
Não há intenção definida no gesto
da mão sobre a folha. Há um silêncio
e no corpo da noite a monotonia da espera.
Enquanto demoro o vento chega
enfola a rede na janela e leva
em espiral descendente a folha o poema
começado que fica no chão.
Com o vento vem também a gata os olhos cheios
de mistério viu a lua e perseguiu
na varanda os pirilampos. São coisas assim –
a lua cheia no céu de Junho
um tremor de rio no pulsar
gelado dos pirilampos
a mão em concha e um cheiro
a musgo seco e à pedra que liberta
no frescor da noite o calor
acumulado durante o dia
são essas coisas dizia
vindas dos confins da infância com seu gosto
a lágrimas e a azul talvez feliz
que as mãos do poema anseiam.
Soledade Santos
À Rita, João, Afonso, Catarina, Rafi e Júlia – pela sua ordem de chegada às nossas vidas.

uma criança trepa aos rochedos
para ver o mar
os olhos
não sei que vêem
das cores
a que lhe pinta a bochecha
é a única que eu vejo
inteira
como qualquer coisa
verde um fio
de cabelo
um filho –
será breve
que não seja só
Soledade Santos