O horizonte abre-se na cal que maio lava
e no entanto o dia é fundo
de armários, invernos e cheiros
a madeira encerada.
No côncavo de maio existem
antigos sons de respiração,
crianças perdidas no escuro
procurando saídas que não encontram
nunca mais. Lembro-me –
eu brincava no vão da escada
e vieram dizer (seria maio
ou julho talvez) a mãe morreu.
Soledade Santos
As palavras são navios e a respiração lhes dá corpo.
Elas florescem nas amarras dos dias tranquilos
e laceram pequenas certezas.
As palavras, à tarde: morno rebanho branco
cintilando na sombra das encostas da serra
– e os olhos passam e desfalecem no velo dócil.
Arde baixo a voz, o dia dividiu-se em antes e depois.
Soledade Santos

Rodin, Cupido e Psique
À force de parler d'amour, l'on devient amoureux.
***
L'amour donne de l'esprit, et il se soutient par l'esprit. Il faut de l'adresse pour aimer.
***
À mesure que l'on a plus d'esprit, les passions sont plus grandes, parce que les passions n'étant que des sentiments et des pensées, qui appartiennent purement à l'esprit, quoiqu'elles soient occasionnées par le corps, il est visible qu'elles ne sont plus que l'esprit même, et qu'ainsi elles remplissent toute sa capacité.
***
Un amour ferme et solide commence toujours par l'éloquence d'action; les yeux y ont la meilleure part.
***
N'excluons (...) point la raison de l'amour, puisqu'elle en est inséparable. Les poètes n'ont donc pas eu raison de nous dépeindre l'amour comme un aveugle; il faut lui ôter son bandeau, et lui rendre désormais la jouissance de ses yeux.
***
Les grandes âmes ne sont pas celles qui aiment le plus souvent; c'est d'un amour violent que je parle: il faut une inondation de passion pour les ébranler et pour les remplir. Mais quand elles commencent à aimer, elles aiment beaucoup mieux.
Blaise Pascal, Discours sur les Passions de l'Amour, Association de Bibliophiles Universels
Cheira a mar esta manhã,
no céu branco vogam brisas de sal
e lembranças de uma pureza,
de um estar ininterrupto.
Por instantes o sol assoma –
coado por brumas altas revela
traços de cor, marcas de jogos
no alcatrão da praceta.
Todas as janelas estão quietas;
no céu volteiam muito alto pássaros
que planam; do quintal vizinho nem
um pio: as galinhas os perus
os patos e as pombas, esses outros
habitantes do meu bairro
que em tardes morosas embalam ecos
de sestas e dias coloridos, silenciosos
também eles e submersos
na breve eternidade da manhã marítima.
A espaços um crocitar distante.
São os corvos. Perfuram assim
a quietude e centram-me outra vez
no meu destino. Vejo-me
habitante casual, consciência
iluminada por pontes que só
eu atravesso. Que faço aqui?
Tão perto das coisas que as tornei
humildemente minhas: sobreiros,
linha do pinhal que se alteia
sobre a intimidade do vale,
buganvília do jardim projectando-se
para novo esplendor de Abril, e as aves.
Mas de verdade eu não sou daqui.
Nem de sítio nenhum que reste.
A minha rua, esta manhã,
é uma marinha –
fragor e ásperos aromas encrespam
de humidade os cabelos e de ânsias
melancólicas o coração. Mas aqui não chega
o som. Só a neblina
que cheira a sal que lava a rua e empalidece
se o sol desponta. Longe longe
duas crianças sobem a rua, somem-se
na distância. Vão ver o mar
e flutua por instantes o azul
das camisolas iguais –
eram de lã caseira, lembro-me,
e picavam na pele do Verão.
Soledade Santos
CANTO DÉCIMO PRIMEIRO
Anteontem primeiro domingo de Novembro
a névoa podia-se cortar à faca.
As árvores brancas da geada e as estradas e planícies
apareciam cobertas por lençóis. Depois apareceu o sol
enxugando o universo e somente as sombras
permaneceram banhadas.
Pinela, o camponês, atava as cepas
com ervas secas
que segurava entre as orelhas.
Enquanto trabalhava falei-lhe da cidade,
da minha vida que passara num relâmpago
do meu terror à morte.
Aí silenciou todos os rumores que fazia com as mãos
e só então se ouviu um pequeno pardal cantando ao longe.
Disse-me: medo porquê? A morte nem sequer é maçadora,
apenas vem uma vez.
Tonino Guerra, O Mel, tradução de Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004
Agora sei que houve um só lugar onde acendi o lume.

fotografia de Larry Towell
primeiro os amigos mudaram de rosto
alguns vieram connosco mas distraídos
e no esporádico da esquina
os filhos cresceram e reproduzem
tão fielmente os rostos que tivemos
de outros mal recordo o nome
e custa quando me ocorre
que um deles foi o primeiro rapaz
que beijei e nem sei já
de que cor tinha os olhos
fútil querer saber de que cor os terá agora
primeiro foram os amigos a mudar de rosto
mas depois as folhas dos sabugueiros
tornaram-se indiferentes também
sobre o rio pendem como dantes
mas pouca aspereza lhes resta
do acre odor a verão
assim se esfarelaram os dias
enquanto nos olhos bebíamos
a seiva que não reverdece
e quase nada acontece agora
se atravessamos a ponte e afundamos
os pés na terra negra dos lameiros
mas nada se perdeu digo-vos
onde havia um muro e um rio
e uma canção de vidro escuro
como rasgões cada pedra ostenta
ecos de risos ímpetos os sulcos
empoeirados do crescimento
e tudo é como foi – imperfeito
e a seu modo permanece
Soledade Santos
De Louvada Seja, porque é um dos livros mais comoventes que li. Este excerto onde o verbo cria a essencialidade e a ânsia de infinito; e onde tudo é novo e escasso – como o pássaro bleu et gris.

Odisséas Elytis, Louvada Seja, tradução de Manuel Resende, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004
A estrada conduz a esta bacia,
o ponto mais baixo da geografia
que abraçam as encostas da serra.
Daqui partem rotas de ascensão
aridez onde inscrevi
pinheiros e rios imaginários,
falsificação de outra natureza.
Mas hoje não subo aos cumes.
Sento-me à beira da lagoa
no cheiro doce que o vento empurra
e toco a água com os dedos,
gesto que é só esse gesto,
não a renda melancólica
de querer estar em outro sítio.
Pois o que há de melhor no mundo –
estar aqui e haver cabelos
e um vento que os ensarilha
soprando sobre eles?
Soledade Santos
Vinha de terras altas, conhecera a sede e
a água dos trigos de março, os pés habituados
à poeira lentíssima da eternidade.
O rigor da neve veio vindo depois.
Eugénio de Andrade, Memória Doutro Rio, Limiar, Porto, 1978
Toquei incertamente a brandura
e o que ardia na placidez da tarde – o olhar.
Ah, como Bandeira, minha grande ternura,
mesmo que ninguém precise dela.
Soledade Santos
Assim se falava, popularmente, em terras de Riba-Côa, há muitos anos. Usei (e uso ainda, embora muito intencionalmente e em contextos precisos) algumas destas expressões. Aprendi-as na rua e amplieei depois o meu léxico pitoresco com os colegas, na escola primária. Hoje, excepto entre os mais velhos, é apenas memória linguística.
A maior parte das expressões confirmei-as na edição facsimilada de Terras de Riba-Côa, Memórias Sobre o Concelho do Sabugal, de Joaquim Manuel Correia, 1ª edição de 1946. Outras não constam ali, mas eram usadas por mim e pelos meus amigos.
Lembrei-me, sem grande esforço, destas:
amuxar - amuar
arrechinado - apertado
arreganhado - cheio de frio
arremangar - arregaçar as mangas
arrenegar-se - zangar-se
bachicar - borrifar com água
barranhão - grande alguidar de barro
búzio - embaciado
calhandra - pedra usada no jogo do descanso (macaca)
canalha - pequenada
concho - contente
conduto ou peguilho - alimento para acompanhar o pão (queijo, carne, azeitonas, chouriço...)
chinas - cada uma das pedras redondas e polidas usadas no jogo das cinco pedrinhas
dondinho - macio, brando
esnocar - quebrar alguma coisa com as mãos
estavanado - estouvado
fanfar - gabar-se
esfarraixar - ferir
gaifonas - palhaçadas
grencho - com o cabelo encaracolado
lapacheiro - lodaçal
morinhar - cair chuva miúda
Lá onde acaba a montanha,
nos cimos, nem eu sei onde,
vagueei por onde a minha cabeça e o meu coração pareciam perdidos,
vagueei ao longe.
América do Norte, Papagos, versão de Herberto Helder em Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001
deram-me o nome
da mãe
da avó
e de outras ancestrais que não conheci
a avó fez jus ao nome
e de Andaluzia onde foi menina
trouxe a espantosa solidão
da cama desabitada
dos filhos
perdidos
na guerra
a mãe foi artesã
da alegria
(da minha – não da sua)
e passou breve
cisne ao sol
sacrificado
e agora
eu herança
no longe dos seus olhos
Soledade Santos