em louvor de Bernardim Ribeiro
a única verdade é a linha que puxo na extremidade da agulha
ponto a ponto desenho
a paciência refaço os gestos
das minhas avós
quantas coisas se passavam na cabeça das mulheres em seu estrado
em seus olhos dobrados
e eu que nunca tive
paciência
mas quem fui bem vedes que o não sou já
e pois que não tenho armas para ofender
faço desenhos de flores brilhantes com linhas
de seda paciente
é tudo o que posso fazer
com os olhos dobrados
na noite
que não pára de crescer
Soledade Santos
vamos deixar que esta chuva caia
tal como chegou em pleno verão
a gata desce do telhado bate a gateira
e o aguaceiro que se atrasava em cheiros
crepita agora em cortina densa
sentada no chão de pernas cruzadas
junto às vidraças riscadas de chuva
instala-se uma dor de cabeça vaga
e nos pés o lucilar
da lixa molhada da língua
a mão repousa no pelo
e os olhos de jade reflectem
a calma tamborilante
das vidraças e a distância
reverente que a chuva impõe
os sons induzem à meditação
regulares e opacos compõem
o contracanto da respiração
e começo a fechar os olhos
dou início ao relaxamento
mas na têmpora a dissonância
um nó de angústia encravado
regressa digo-me ao canto
da chuva segue o cordão
inútil já perdi
a concentração e há demasiadas coisas
no limiar dos olhos virados para dentro
voltemos então ao princípio:
o céu escureceu e ouviu-se o vento nos sobreiros
depois vieram as gotas os cheiros
a dor de cabeça e por fim
os sons embaciados
do aguaceiro que já passou
Soledade Santos
El sentimiento de la desposesión radical – no poseer lo que se tiene, no vivir la vida sino su remedo o aparencia –, la percepción del tiempo como una amenaza destructiva, la experiencia de lo que podríamos llamar ajenidad – percibir la existencia como algo lejano que nunca será nuestro del todo; ni siquiera nuestros cuerpos y almas los sentiremos como proprios.
Ángel Rupérez, El Mundo como Meditación, Introduccion a Luis Cernuda, Antología Poética, Espasa Calpe, Madrid, 2002
O rigor do verão quase
extinguiu os pequenos
oásis do coração:
nenhum
de nós conseguiu dobrar
o lume, acariciar
o tigre, desviar a sombra
dos lábios - arder
era afinal a nossa vocação.
Eugénio de Andrade, Rente ao Dizer , 2ª ed, 1992

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Para os meus amigos Amélia Pais e Daniel Francoy.
Au bois d'Clamart y'a des petit's fleurs
Y'a des petit's fleurs
Y'a des copains au, au bois d'mon coeur
Au, au bois d'mon coeur
Au fond de ma cour j'suis renommé
J'suis renommé
Pour avoir le coeur mal famé
Le coeur mal famé
Au bois d'Vincenn's y'a des petit's fleurs
Y'a des petit's fleurs
Y'a des copains au, au bois d'mon coeur
Au, au bois d'mon coeur
Quand y'a plus d'vin dans mon tonneau
Dans mon tonneau
Ils n'ont pas peur de boir' mon eau
De boire mon eau
Au bois d'Meudon y'a des petit's fleurs
Y'a des petit's fleurs
Y'a des copains au, au bois d'mon coeur
Au, au bois d'mon coeur
Ils m'accompagn'nt à la mairie
A la mairie
Chaque fois que je me marie
Que je me marie
Au bois d'Saint-Cloud y'a des petit's fleurs
Y'a des petit's fleurs
Y'a des copains au, au bois d'mon coeur
Au, au bois d'mon coeur
Chaqu' fois qu'je meurs fidèlement
Fidèlement
Ils suivent mon enterrement
Mon enterrement
...des petites fleurs...
Au, au bois d'mon coeur...
Georges Brassens
«Tantos nomes que não há para dizer o silêncio»
Herberto Hélder
Às vezes quando estou só
acendem-se na lembrança
ao fim do dia
as luzes dos autocarros –
paciência de cidade grande
na estreita melancolia
de um autocarro de dois andares, verde
como então eram os da Carris.
Acendem-se
pois as luzes ao fim do dia,
e todas as ruas todos os rios
ficam repletos de solidão.
Soledade Santos

Pesadas cortinas duplas no quarto de Mo-Ch'ou.
Deitada, o frio do anoitecer, pouco a pouco cresce.
A vida que partilhou com a deusa foi apenas um sonho:
Nenhum jovem visita a casa da donzela.
O vento e as ondas não se apiedam das folhas frágeis do castanheiro do lago.
Quem adoçará, ao luar e no orvalho, as folhas da acácia, já sem cheiro?
Repetimo-nos que o amor é sempre insensato -
E ainda que o desgosto é uma loucura lúcida.
Li Shang-Yin, Chuva na Primavera e Outros Poemas, Selecção e tradução de José Alberto Oliveira, Colecção Gato Maltês, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001
E se a tarde assim fica
nevoenta parada
e de mim ausente não encontro
urdidas teiazinhas
que me seguram aos dias,
pode acontecer
que sarça escura ou fogo me cerquem
o olhar. Porque é tarde.
E ondula descompassado o ar que expiro
e são ocos todos os sons.
Então ela vem, asas, a gata
de borboleta no fundo
da pupila de ouro, vem
cravando no silêncio opaco os passos
e entra
no círculo da minha aflição.
Nenhum abrigo. Mas o toque
na palma da mão perdida -
E o vento sopra para longe as nuvens
e da noite ladram ao longe os cães.
Soledade Santos

Queria dizer-te do primeiro rio
água escura do açude
onde aprendi a nadar
cheiro acre dos sabugueiros
e a carícia de ervas na pele dos ombros deitada
olhando folhas secas e cobras de água levadas
pela corrente do verão sonhando
os sonhos sem espessura do paraíso da infância.
Queria dizer-te dos pequenos encontros
nos gestos do quotidiano
quando o cheiro por exemplo
da pimenta adere às mãos e no seu côncavo
percute um solo de piano.
Mas a distância existe.
De quanto me acende os dias
tão pouco posso contar. E mingua
no silêncio com o tempo.
Soledade Santos