«Para fazer uma campina
basta um só trevo e uma abelha»
Emily Dickinson
Com pouco me satisfaço:
em ver uma papoila,
por ser só e ser vermelha
no verde tenro de maio;
em ler três ou quatro versos
de um poeta morto
e numa folha de trevo
encontrar o meu rosto;
na lua subindo a serra,
nem tanto pela velha lua,
mas por eu desejar vê-la.
Pouco? Talvez nada me contente
e nunca nada me complete.
Por isso canto os dias planos.
Ah bolhinhas de ar, plops de nada —
espuma de ondas em redor dos meus pés.
Soledade Santos
Vestir de novo a velha roupa
que impensados gestos
repetidos moldaram
macia sem graça e ser essa
a maneira de entrar nos dias
compridos inclinados ao poente.
Olhar recantos na casa grande
e enchê-los
da vibração minúscula
de sílabas de velas - um sítio
para a chuva e os olhos
outra vez lentos lavados
e outra vez
a branca porcelana do vazio.
Soledade Santos

© Zoe Zimmerman
Não pedi para viver.
Esforço-me por aceitar sem espanto e sem cólera
tudo o que a vida me oferece.
Partirei sem ter interrogado ninguém
sobre a minha estranha estada na terra.
Omar Khayyam, Rubaiyat, Odes ao Vinho, Trad. de Fernando Couto, Moraes Editores, Lisboa, sd

Suzanne
Suzanne takes you down
to her place near the river
you can hear the boats go by
you can spend the night beside her
And you know that she's half crazy
but that's why you want to be there
and she feeds you tea and oranges
that come all the way from China
And just when you mean to tell her
that you have no love to give her
then she gets you on her wavelength
and she lets the river answer
that you've always been her lover
And you want to travel with her
you want to travel blind
and you know that she can trust you
for you've touched her perfect body
with your mind
And Jesus was a sailor
when he walked upon the water
and he spent a long time watching
from his lonely wooden tower
and when he knew for certain
only drowning men could see him
he said All men will be sailors then
until the sea shall free them
but he himself was broken
long before the sky would open
forsaken, almost human
he sank beneath your wisdom like a stone
And you want to travel with him
you want to travel blind
and you think maybe you 'II trust him
for he's touched your perfect body
with his mind
Now Suzanne takes your hand
and she leads you to the river
she is wearing rags and feathers
from Salvation Army counters
And the sun pours down like honey
on our lady of the harbour
And she shows you where to look
among the garbage and the flowers
There are heroes in the seaweed
there are children in the morning
they are leaning out for love
they will lean that way forever
while Suzanne holds the mirror
And you want to travel with her
you want to travel blind
and you know that you can trust her
for she's touched your perfect body
with her mind
Leonard Cohen, Stranger Music - Selected Poems and Songs, 1993
Alta se arqueia a abóbada celeste,
Onde há um brilho de flores (e são mundos!),
Vagueiam sombras afanosamente.
Misteriosa a voz que assim me chama
A subir. Escalada interminável,
Áspera e ansiosa. Em vão, em vão procuro
O meu céu (tão longínquo!). Em vão, perdida
A terra para mim, clamo por entre
Aqueles mundos. Só, minha voz perde-se
Nos profundos silêncios desta noite.
Luigi Fiorentino, tradução de Manuel Bandeira
Durante anos perdi o hábito de escrever
ou dizer das águas
que um dia correram em mim
como se a nascente fosse eterna.
Agora regresso
não a essas, mas a outras
suas parentes e mais fundas que levam
na corrente lenta o sabor
do instante e nenhuma promessa.
São espessas
de mágoas alegrias breves e perdidas
transparências.
Se as saboreio encontro
muito mais que antigos odores
da chuva caindo na terra. Encontro
todas as ilhas que não descobri
todos os mundos que por medo ou ira afundei
todos os linhos
(ensopados nos fluxos da agonia e júbilo)
que tive de espremer à mão.
E no entanto sentada
como outros antes de mim
à beira do rio triste que vai num só sentido
se estendo as mãos é para alguma coisa
de inocente ainda e desprotegida
que nunca se perdeu.
Soledade Santos

de Luchino Visconti
«Perguntou-me baixinho o que me matara:
- A beleza, respondi.»
Emily Dickinson, trad. de Manuel Bandeira (excerto de poema)
lá fora o vento e tudo dança
mundo vivo sussurrante
de pólen aves e ramadas
em casa luz inocente
da manhã cortina branca
que leve se agita e lenta
é a imagem do silêncio
oh minha inóspita primavera!
marulho de choros antigos
zumbido de moscas gordas
e negras tacteando os vidros
Soledade Santos
Pequena razão, pequena
claridade:
fraterna voz que não esconde
a rouquidão,
a brusca
sombra da garganta:
fechada flor da tarde,
também ela rouca.
Eugénio de Andrade, Rente ao Dizer
La tarde de la cólera,
qué triste!
Quisiéramos morir,
sin desaparecer; morir de pena,
por espiar
com la angustia más grande
la sangre vengativa;
morir, la parte
nuestra que és mala y torpe;
hacer aquí la division
de tierra y cielo.
- ... Sube, grande, la luna
sobre el oscuro sollozar.
Juan Ramón Jiménez, Segunda Antolojía Poética, (1898-1918), Edición Javier Blasco,
Madrid, 2000
Como entrar num quarto
que pintámos de amarelo
e encontrá-lo desse azul
a que os ingleses chamam blue.
E suspenso do tecto
em silêncios de prata um móbil
no espaço quieto.
Soledade Santos