
Mosteiro de Alcobaça - nave central
Que tudo o mais se esqueça na presença do mosteiro de santa maria de alcobaça]
(...)
É a maior igreja portuguesa e alicerça essa grandeza
nas três naves que no silêncio talha com a precisão de uma navalha
e na grande desproporção entre a pouca largura e a altura
(...)
No túmulo deitada inês parece a própria placidez
ela que em vida ouvindo alguém chamar
julgava respirar esse cheiro envolvente português
dos laranjais e jamais o da nave donde nunca mais
havia de sair não já para criança inaugurar
o dia a dia o vasto espaço onde cada folha
dos plátanos a até canas e oliveiras
valem humidamente mais do que a melhor palavra minha
mas sim ver só o sol inevitável renascer
da morte e vir tal como ela de castela com o vento
(...)
Que sei pergunta ela para sempre imóvel
no túmulo de pedra inamovível que sei eu desse homem tão instável
mais triste e mais sozinho quanto mais alegre e rodeado
que ao dar-me um outro nome como que me deu um novo ser
e a quem toda me dei como se dá em parte na arte alguém mais que no amor]
(...)
Eu canto os amores e a morte a apoteose e a sorte
dessa que tão horizontal em pedra jaz e esse pedro neto desse trovador de quem se diz]
que sempre dom dinis fez o que quis
(...)
Na igreja abacial de santa maria de alcobaça
os que em vida se amaram para sempre se juntaram
No cruzeiro de pedra poisam hoje os dois moimentos
dois poemas em pedra onde em quarenta e seis edículas se narra
a história desse amor às vezes alegria quase sempre dor
amor pétreo de pedro que prepara para inês esse alvo leito em pedra
pois morta a sua amada mais não pôde já por ela
e assim o seu moimento fez poer acerca do seu dela
em tudo semelhável para dela sempre se membrar
quando se aqueecesse de morrer
E na dureza desses dois sarcófagos escreveu o escopro
o que somente a agulha pode pôr no bastidor
ou um buril pode imprimir no ouro
para que na memória dos mortais reinasse
aquela que do ânimo de pedro fora
dominadora dama absoluta senhora
(...)
Ruy Belo, A Margem da Alegria, Editorial Presença, Lisboa, 4ª ed, 1998
Muitas vezes caminhei no areal inóspito
troçando dos voadores em parapent eu
que lá de baixo os via e me sabia
tão mais aérea e disponível ao voo
quanto mais presa à terra e às pegadas
que mal deixava e logo se enchiam
outra vez de areia soprada pelo vento.
Voltei aos Salgados esta tarde.
Não vi velas nem paraquedas só gaivotas
afrontavam o cinzento e nem os pios
se ouviam na turbulência do vento.
Em vão busquei as Berlengas no horizonte
afortunadas ilhas afogadas
onde Pedro se escondia para fugir de Inês.
Hoje também eu preferia esquecer Inês
(e as arcas de pedra e o particular silêncio
daquele edifício de que se disse
tudo o mais dever calar-se em presença
do mosteiro de santa maria de alcobaça)
e bastar-me este vento e o fragor
das vagas tombando na areia da praia.
Mas não é um mês fácil o de Outubro.
Soledade Santos
Juan Ramón Jiménez, Platero e Eu
Os ameados terraços brancos recortam-se secamente sobre o alegre céu azul, gélido e estrelado. O norte silencioso acaricia, vivo, com a sua pura grandeza.
Todos julgam que têm frio e escondem-se nas casas, fechando-as. Nós, Platero, vamos devagar, tu com a tua lã e com a minha manta, eu com a minha alma, pela límpida aldeia solitária.
Que força interior me eleva, como se eu fosse uma torre de pedra tosca com cúpula de prata! Olha quantas estrelas! De tantas que são, dão-nos tonturas. Dir-se-ia que o céu reza à terra um rosário aceso de amor ideal.
Platero, Platero! Daria toda a minha vida, e ansiaria que tu quisesses dar a tua, pela pureza desta alta noite de Janeiro erma, clara e dura!

Papilionidae Ulysses - foto de Jo Whaley
Leonard Cohen, Stranger Music - Selected Poems and Songs, 1993
Que fazer em dia de tranquilas inspirações,
dia de brumas cálidas e horizontes próximos?
Entre a mão e o objecto permanecem
inexcedíveis cumes do tempo e da distância.
Levei pelas noites uma ânsia côncava
que a manhã alisou. Agora plana de vazio,
não me acha ocupação o gume desta quilha
a que as águas do sono anularam o fio.
Procuro a beleza das agonias na manhã baça,
responde-me um eco de verões extintos e o harpejo
das fissuras geladas do inverno, um eco
que as brumas adormecem como algodão em rama.
Soledade Santos
Entrava em casa, numa destas raras noites sem brumas. Cassiopeia abria os braços do outro lado do horizonte. Da Ursa, só a carreta, cauda perdida atrás dos prédios. Não sei por onde andaria a Lua, quase cheia, que subira a serra horas antes, ainda o céu desmaiava. Mas acima do telhado, em glória, o cinturão de Orion. Acode-me o Mattina de Ungaretti. Por segundos, ensaia-se um regresso.

em que a terra exala
cheiros de outono sem resolução –
brancos na quadrícula do calendário
Soledade Santos