É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações.
Eugénio de Andrade, Sulcos da Sede

Não consigo publicar comentários no Nocturno, há uma falha qualquer no weblog, respondo-vos aqui.
Lembram-se do filme "Esplendor sobre a relva"? Assim se tornaram para mim os sobreiros: os ícones de um irrepetível fulgor. Essas árvores que eu via na planície alentejana, no Algarve, mas distraidamente, pois que não eram as minhas, as que julgava ancestrais.
Quem me havia de dizer que anos depois, olhando-os da minha janela, de dois sobreiritos haveria de fazer uma floresta inteira - para alegria e sobrevivência do olhar?
Agradeço a todos os que me leram. E hoje destaco o Groze pela sua gentileza e por nos encontrarmos assim, contra todas as probabilidades, excepto a que um querido amigo comum representa nestes jogos de acaso.
E ao Carlos, à Márcia, ao António, à Amélia, à Adelaide, ao Nuno, à Louise, ao Wilson, à Eugênia, à Sara, ao Fernando, ao Manuel, ao Mário, ao Rui, à Joana, à Diana, à Eduarda, ao Sete Sóis, ao NorMal... a quem por aqui passa e volta, ou não, um beijo.

Quando é tudo o que resta a calidez do tronco
onde nenhum par de namorados
deixou gravados os sinais
do fulgor suposto eterno, e a folhagem
acesa de pardais ao sol de inverno -
chamam por nós os sobreiros.
Que estrangeiras árvores
puderam lançar raízes no meu olhar.
Soledade Santos
Partes, o céu demora-se
a entardecer e a lassidão flutua
como as volutas do incenso a arder.
Saio à varanda, regresso
aos gestos que me fixam
e a gata no telhado
seguindo-me com o olhar.
Estamos bem assim, eu sozinha
no azul da quase noite, ela em cima
no fulgor do dia que se esvai.
Soledade Santos
o Nocturno com Gatos, o meu muito obrigada a Rogério Santos de Indústrias Culturais.
Como bem nota, afinidades e ternura são os elementos centrais deste salão semi-público onde recebo os amigos, nem todos virtuais.
E também eu existo :-)
Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede

Ardendo de amor, as cigarras
cantam: mais belos porém são
os pirilampos, cujo mudo amor
lhes queima o corpo!
Canções de camponeses do Japão, poemas mudados para o português por Herberto Helder, em Poesia Toda, Assírio & Alvim, Lisboa, 1990
Jorge de Sena, deste lado do Atlântico. Muito me alegra, por isso, que a minha amiga Márcia Maia, lá do seu longínquo Recife, afirme a sua paixão por este escritor. E que me atribua alguma responsabilidade nessa paixão. Obrigada, Márcia. O prazer foi meu :-)
Nunca encontrei um homem que me quisesse
tal como sou e que não tentasse de algum modo
moldar-me na anti imagem da mãe, da primeira
namorada ou do melhor amigo.
Será uma acusação injusta esta que faço, mas
nem por isso menos verdadeira (que justiça e
verdade não se equivalem) e dos homens
que conheci todos a merecem.
Rasguei por isso as fotografias e as cartas de
amor, deitei fora bilhetes de concertos em que
entrelacei iniciais, sinais que já não decifro
e sobretudo não guardei poemas.
Haverá um homem que embarcasse avisado
neste navio por fabricar e que tinisse sombras
quando tivesse nos braços o meu espaço deserto
de sentir e nunca ser?
Não há, bem me parecia, então não me aborreçam,
como outros eu também nunca fui de companhia
e está um bonito sol para escrever poemas e para
plantar uns bolbos de tulipa.

Devastador
o vento - e a angústia.
tradução de Eugénio de Andrade
***
Quando o sono de uma noite inteira
cai sobre os olhos...
tradução de Eugénio de Andrade
***
Mãe, sobre a teia,
não mais me dobro,
não mais a teço. Por um rapaz
de amor me dobra
a tecelã Afrodite.
tradução de Pedro Alvim
a chuva voltou esta noite
no lamento do vento nos vidros
nos meus olhos a chuva voltou
é tudo quanto soa
e sabe bem ouvi-la
ter um pretexto
para o silêncio dizer apenas
ouve como canta nas telhas
e desagua
no pó
Soledade Santos
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas . . .
- O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.
Manuel Bandeira, Antologia de Poesia Brasileira
Outra vez o abutre, o abutre
da tristeza, cai-nos em cima,
crava as garras, rasga,
retalha: - Oh irmão
do deserto, breve
oásis de sol
neste inverno: não há terra
de promissão
fora do corpo; ou da palavra.
Eugénio de Andrade, Rente ao Dizer
O afecto atravessa
a planura do quotidiano
e eriça-o de estrelas.
Os seus picos deixam
sulcos na pele e nas águas
lentas um sabor
a ressacas e rebentações.
Os dias ficam desiguais
escurece
talvez mais cedo entramos
nessa noite quente de um só ponto
milimétrico – lume
de uma vela decompondo
prismas
no veludo da íris.
E o vento a lua tudo o que
lá fora existe
chama.
Soledade Santos
não precisamos de muita coisa
um pouco de sol e as Berlengas no horizonte
a tarde escorrendo na cafetaria
os nossos olhos lentos e as vidraças
subitamente acesas no esplendor das bátegas
um bando de patos selvagens erguendo-se da lagoa
quando sairmos e ao vento frio ofertarmos
a transparência dos lábios cercados
pela melancolia da tarde que se nos finda
e à noite talvez as mãos
ardidas de saudade e em surdina
uma canção de Ella e Louis Armstrong
Soledade Santos