dezembro 30, 2003

Filmes

que não esquecem.

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Au hasard Balthazar

Robert Bresson




Une austérité intense, fervente, passionnée [...]. Il y avait chez ce catholique qu’on a appelé un «janséniste de la mise en scène» quelque chose de racinien. Dans ses Notes sur le Cinématographe, il cite d’ailleurs la préface de Bérénice: «Ils pensent que cette simplicité est une marque de peu d’invention.»
cinema

En "écrivant" ses films contre vents et marées, Robert Bresson a porté à leur maximum d'intensité les moyens propres au cinéma. Pour ce faire, il a séparé le septième art de tous les autres, de la peinture, de la photographie, de la musique, du théâtre. Pas d'acteurs, pas d'études de rôles, mais des "modèles" et une quête de leur "substance".[...] "Cinématographe, art, avec des images, de ne rien représenter". Cette remarque nous plonge au cœur du mystère bressonnien. S'il fuit la représentation, c'est que toute idée de spectacle nie ce qu'il cherche: filmer l'énigme, ce que nous ignorons de nous-mêmes, l'appartenance à ce qui nous dépasse. [...] Comment filmer ce qui dépasse? Comment communiquer ce qui relève de l'esprit par ce qui relève de la perception? En ne filmant que ce dont il a absolument besoin.
célébrations

There is nothing even remotely ordinary about Bresson's films: Every choice, from the sound effects to the transitions between scenes, feels like a brush stroke. Bresson began as a painter, and much to the consternation of his exasperated crews and producers, he carried that private mode of creation into the most industrially tainted of all art forms.
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Os 13 filmes de Robert Bresson:

Les Anges du péché (1943)
Les Dames du bois de Boulogne (1945)
Journal d'un curé de campagne (1951)
Un condamné à mort s'est échappé (1956)
Pickpocket (1959)
Le Procès de Jeanne d'Arc (1962)
Au hasard Balthazar (1966)
Mouchette (1967)
Une femme douce (1969)
Quatre nuits d'un rêveur (1972)
Lancelot du Lac (1974)
Le diable probablement (1977)
L'Argent (1983)

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dezembro 29, 2003

Carta

Hoje abri gavetas que há muito mantinha fechadas
folheei cadernos procurei nas prateleiras até mesmo
na caixa de cedro onde guardo os meus tesouros raros -
um dente de leite engastado em ouro dois caracóis
entrelaçados os búzios que apanhei nos Açores e as bagas
colhidas há vinte anos no parque do Campo Grande
em tudo remexi buscando algo especial uma prenda para ti
e tudo o que encontro é outra carta que te escrevo

O que guardo na caixa de cedro na polpa dos dedos
não é novo foi escrito
milhares de vezes antes e outras tantas apagado
e no entanto ao escrever não sei
em que língua te hei-de explicar
a dormência das lombadas
nas estantes de domingo
uma criança de vento
com olhos da cor dos meus
e esta impressão que eu tenho
do lado errado do tempo
e se dissolve às vezes
quando vens estar comigo

É coisa pouca bem sei o capital que juntei
e pousou nele a poeira
ainda assim a luz não cessa de nascer
por isso escrevo
mas afecta-me a transparência essa vaga moléstia
chamada distância e nem sequer
é de boa qualidade este papel em que a caneta arranha

          Soledade Santos

Publicado por sol em 06:07 PM | Comentários (7)

dezembro 28, 2003

De regresso

após um breve interregno natalício, agradeço aos amigos e visitantes que passaram pelo Nocturno com Gatos, e a todos desejo um excelente ano novo.

E se 2004 não for o que desejamos, para nós e para o mundo, que ao menos conservemos esse olhar "à Eugénio de Andrade", capaz de aquecer-se ao sol da esperança, na contemplação das coisas mais elementares.

Publicado por sol em 05:01 PM | Comentários (2)

dezembro 19, 2003

Último poema

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É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os diospiros ardendo na sombra.
Quem tem assim o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.


Eugénio de Andrade, Rente ao Dizer

Publicado por sol em 11:42 PM | Comentários (11)

dezembro 18, 2003

Quando apago

«O melhor que escrevo é quando apago»
          Casimiro de Brito


De que hei-de falar se o que me vem à ideia
é a cor ridícula das minhas botas vermelhas?

Já nem sei porque as comprei - o goretex
suponho o made in italy e a cedência
desmiolada à conversa do vendedor.

Mas agora cansada do osso das palavras
nem o vermelho me parece tão inconveniente.
Estão velhas as botas e as palavras também
têm terra no rasto da última vez que as usei.

          Soledade Santos

Publicado por sol em 11:33 AM | Comentários (4)

dezembro 15, 2003

Cuarentena

Con qué ferocidad y a qué hora importuna
salen tus veinte años de la fotografía
para exigirme cuentas.
En los ojos heridos por la luz
sostienes la mirada de mis sombras,
en el descaro de tus profecías
desdeñas la lealtad de mis recuerdos,
en la piel transparente
anegas el cansancio de mi piel
y defines mis años por traiciones.

No escandalices más,
hablemos si tú quieres,
elige tú las armas y el paisaje
de la conversación,
y espera a que se vayan
los invitados a la cena fría
de mis cuarenta años.
Por evaporaciones,
como las aguas sucias de los charcos
se acercan a las nubes,
caminaré contigo
hasta la plaza de tu juventud.
Allí están los magníficos
árboles de las ciencias y las letras
con sus palabras en el mes de mayo,
y el orden de los números
a la orilla del tiempo,
más cerca de las sumas que de las divisiones.

Imagino tu voz, supongo el aire
- porque a veces regresa hasta mis labios
en noches de espesura -
con el que afirmarás
que toda libertad es una roca,
que no faltan el viento y las razones,
sino la voluntad en el timón,
para gritar después que mi conciencia
es ya ropa tendida,
palabras puestas a secar.

Tendrás razón. No digo
ni la mitad de lo que siento.
Pero recuerda que mi soledad,
la que arde en mi lámpara de desaparecido,
es el silencio de las causas públicas.
Y puedes comprenderme:
mis mujeres dormidas,
el cajón de los barcos indefensos,
un teléfono antiguo...,
todas las tachaduras se parecen
a la inquietud que sufres
ante la vida en blanco.

Ya que fuerzas mis sombras con tu luz
comprende mi silencio en tus exclamaciones.
Porque sabes que sé
el lado frágil de la impertinencia,
lo que hay de imitación en tu seguridad,
la certeza que llega de los otros
para empujarte
por el afán de ser el elegido,
por el deseo de gustar,
hasta vivir de oídas en muchas ocasiones.

Aceptaré las quejas, si tú me reconoces
la legitimidad de la impostura.

Ahora que necesito
meditar lo que creo
en busca de un destino soportable,
me acerco a ti,
porque sabías meditar tus dudas.
Cuando tengas la edad que se avecina,
admitirás el tiempo de los encajadores,
la piel gastada y resistente,
el tono bajo de la voz
y el corazón cansado de elegir
sombras de pie o luz arrodillada.

Después de lo que he visto y lo que tú verás,
no es un mal resultado, te lo juro.
Baja conmigo al día,
ven hasta los paisajes verdaderos
en los que discutimos,
y me agradecerás
la difícil tarea de tu supervivencia.


Luis García Montero, La Intimidad de la Serpiente, Tusquets Editores, Barcelona, 2003


ouvir o poeta

Publicado por sol em 11:00 AM | Comentários (7)

dezembro 14, 2003

Inventário

a minha boca dei ao Côa
é outra maneira acredito
de estar viva
quando de todos os meus rios
perdi o montante
e a jusante se espraiam olhos
digo águas sem norte

tenho o linho desta terra óssea
tenho um cavalo que nas margens da noite
me chama e escarva doido
e um castelo nesse lugar
onde os castelos se escondem para levitar

– é pouca coisa eu sei mas arde

          Soledade Santos


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O passado é um país estrangeiro

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Publicado por sol em 10:55 AM | Comentários (2)

dezembro 13, 2003

As amoras

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O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.


Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra


Publicado por sol em 10:02 PM | Comentários (6)

dezembro 12, 2003

Swing para manhã de sol

na casa vazia
eu deus o mundo por fazer
e danço

swingo com pano
do pó aspirador
cadeira e canto
swing enche a minha casa
e roupa suja espalhada
no chão misturada
com lápis legos ferraris

ó sol tão amarelo
na janela
a roupa fumega
varal colorido manhã de 6ªfeira
swingo com ella oh baby
sing me a swing song and let me
dance

que a vizinha de baixo é surda creio
pois não se queixou nunca nem
dos gritos à noite
dos gatos


          Soledade Santos

Publicado por sol em 10:33 AM | Comentários (6)

dezembro 11, 2003

Celebração

O outono chega e a lentidão
da luz caindo é água lustral
sarando dos olhos da boca
os clarões acerados do verão.
Também os corvos regressaram
enchendo de gritos as tardes
e o esparso pinhal minado de eucaliptos.
Amo nos corvos esta persistência
em celebrar os ciclos do tempo
em afirmar a luz sombria das asas
e a estridência da voz. Ei-los que voam
e nos auges reflectem relâmpagos negros.

Vagueio longe apesar dos corvos
ou por causa deles não sei
pois cada pássaro que passa é ponte também.

E houve em tempos outro pinhal
e nele crianças que riam alto julgando
desenhar no bafo branco da sua respiração
um círculo perfeito ou uma linha
recta sem fim. De todas as tardes da minha vida
escolho essa. Esse pinhal essa luz transvessa
esse frio essa ilusão de perenidade
esse palpitar sem indagações
de um mesmo sangue. Escolho
celebrá-la hoje e antes que de mim deserte
como tudo o mais – quando o outono começa
e os corvos são velas.

          Soledade Santos

Publicado por sol em 12:45 AM | Comentários (4)

dezembro 08, 2003

Havia uma certa

sobrinha-neta de Álvaro de Campos


A VARANDA

Devia pôr a máquina da roupa a lavar,
regar as sardinheiras,
fazer uma refeição decente, enfim,
alguma coisa útil ou sensata.
Mas estou sentada na varanda
a pensar em nada. Na varanda,
a querer ser o lá fora, o dia
que desliza em mágoas de partida.

Choveu há pouco. Os charcos
povoam-se de estridência
quando as crianças
da vizinhança saem
em bandos de humanidade voraz.

Também havia charcos na minha infância.
Com salamandras.
Se lhes abríamos os ventres, revelavam
as crias em transparências cegas
e movimentos débeis.
Crocantes como arroz tufado sob o calcanhar da sandália.

E a noite cai lenta,
padece da minha imobilidade,
do meu desejo oblíquo. Espero-a
na varanda, entre charcos e brumas
e jogos agudos de crianças crocantes.

Ó noite, vem trazer-me o silêncio,
o cansaço insone,
a angústia confortável de saber
o amanhã igual a hoje, na varanda,
cais aberto a não partir.

         Eugénia de Campos

Publicado por sol em 02:31 PM | Comentários (8)

dezembro 07, 2003

Tudo, absolutamente

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O homem merece tudo; toda a alegria, toda a beleza, toda a maravilha da terra o homem merece. Pela morte inalienável, pela tristeza sem remédio, a miséria, a solidão, a traição ao que mais ama, o exílio na própria pátria, o homem merece tudo, absolutamente.


Eugénio de Andrade, Os Afluentes do Silêncio

Publicado por sol em 11:50 PM | Comentários (4)

dezembro 06, 2003

Axis Mundi

carvalho2.jpg


Em: www.cm-sabugal.pt/

Publicado por sol em 11:05 AM | Comentários (12)

dezembro 05, 2003

Alarme

Deixamos que o tempo nos leve
na curva quente dos dias sem história
e uma canção de Cohen
ou a terra clara dos versos amados
adormeçam o sobressalto das madrugadas.
E adiamos. E dizemos amanhã,
talvez amanhã haja palavras e um gesto novo
ou antigo trazido à luz,
e algo se rasgue e instaure
não a inquietude
mas as suas possibilidades. E adiamos
e temos tudo resolvido. Subitamente
a pua de um início.

          Soledade Santos

Publicado por sol em 12:19 AM | Comentários (4)

dezembro 02, 2003

Tudo está certo

Tudo está certo. O amor não mudará o mundo
nem a nós. O silêncio quando a música
se recusa tem a espessura
de todos os anos em que o tecemos
de esperanças ou nem isso,
pois tu sabes como eu sei
que no silêncio (ou na música) respondem
os ecos de um vento mudo
e do tempo passado às vezes
perdido. Mas tudo é vida.
Tudo está certo.
"Que importa o nome da primeira namorada?"
perguntou Bashô – "Nuvens de primavera."

Assim é o tempo. Assim somos nós.
Não estejas triste.

          Soledade Santos

Publicado por sol em 07:39 PM | Comentários (8)

dezembro 01, 2003

Não ter outro rosto

esfinge4.jpg

Em face da sua imagem ou da sua sombra, o homem realiza um dia o encontro decisivo com os seus limites. A aventura misteriosa de Narciso repete-se desde a infância em frente de cada espelho. Gostaríamos de nos tocar do lado de lá sem quebrar o vidro nem turvar a água. [...]

A aventura é impossível, pois a imagem e a sombra são reais. Isso significa que um mundo nos cerca, nos divide e nos limita. Jamais seremos esse que pode ver-se face a face. Mas o jogo é demasiado sério para o perdermos ao primeiro gesto. Se não nos podemos olhar procuremos entre os monstros, os demónios e os deuses que criámos, esse rosto impassível que o vento e a chuva de cada dia não nos consentem. [...]

É impossível reconhecer um homem em Anúbis de focinho de chacal, ou uma mulher em Ísis, a virgem-mãe de face de lua. Mas é fácil reconhecê-lo nesse ser ambíguo que os antigos Egípcios talharam na rocha do deserto e os Gregos ágeis deixaram errar perigosamente pelos caminhos de Tebas a Corinto. Espírito da Terra capaz de romper através da vida obscura da inércia animal para oferecer uma face de Deus ao apelo universal da luz, a Esfinge é encarnação perfeita da ambiguidade radical da situação humana. E ao mesmo tempo a realização plástica mais concreta do acto original do homem: a poesia.[...] No espírito do seu criador, a Esfinge é uma resposta. A poesia é expressão de origens. Solicitado pela noite animal e a plenitude solar, um poeta talhou na rocha uma forma visível da sua condição. [...]

É humano sentir-se cansado ao fim duma obra. O nosso poeta cansou-se e adormeceu entre as patas poderosas da sua criatura. Durante a noite o vento do deserto (e todos os criadores serão conduzidos ao deserto em certas horas, como o Cristo) arrastou a areia e cobriu com ela as raízes da criatura e o seu criador. Quando veio a manhã, foi assim, sem autor e desfigurada, que a obra apareceu aos outros que por acaso a encontraram no caminho. Então puseram-se a interrogá-la longamente pelo dia adiante. A interrogar o silêncio. Como admirarmo-nos se o silêncio não respondeu?[...]

A segunda história, a da esfinge grega, é mais estranha. [...] O enigma é agora real e os jovens mortos testemunham da seriedade do mistério. Os poetas oficiais de Tebas (e os sacerdotes) não compreendiam como a poesia se pudera tornar mortal. Como o deus silencioso do antigo Egipto adquirira poderes para devorar o seu criador. Cada poeta sabia que se repetisse novamente o gesto original da criação, o monstro se tornaria humano, mas esquecera-se dele. [...] Impotentes, imaginaram dominar o monstro repetindo os antigos encantamentos, fazendo poesia da poesia. [...] Assim o seu passado os alcançou, mineralizando-os como à mulher bíblica. Os seus poemas, a esfinge criada, vinham novamente ter com eles. Não podiam renovar-se.

Quem afrontaria o monstro, o deus da inércia, do hábito, da Morte? Um poeta novo, capaz de recordar ao deus as suas origens. [...] Édipo só sabia uma única coisa: é que todos os enigmas são enigmas do homem. Logo, o HOMEM devia ser a resposta a todos os enigmas. [...] Édipo pensou que uma fórmula era uma solução. E ela era só uma dificuldade. Que bastava dizer uma só vez HOMEM e o terror e os monstros se sumiriam para sempre. Foi o primeiro humanista sincero, mas abstracto. A verdade é que os monstros voltam sempre. O combate com o anjo é de todas as horas. Servirmo-nos do escudo do homem é assumir a sua ambiguidade. É saber que nada existe à nossa frente senão o que consentimos criar com as nossas mãos. A cada hora o mundo é o que fazemos dele. A história o que fizermos dela. E os valores. E os encontros. Impossível aceitar como Édipo que tudo está feito só porque descobrimos a fórmula que permite que tudo se faça. [...]

Como na hora em que concebemos a Esfinge para nos tocarmos melhor, continuamos sendo aqueles que procuram danadamente uma autêntica face de homem, uma existência de si-mesma buscando-se entre possibilidades múltiplas de existir. Por isso sabemos hoje que não teremos uma face diferente daquilo que fizermos. Mas fazer de novo é continuar a criação e criar é ser poeta. O que significa finalmente não ter outro rosto senão o que a Poesia nos modelar.

Eduardo Lourenço, Tempo e Poesia, Relógio d'Água

Publicado por sol em 03:40 PM | Comentários (4)