«Ce que j'ai aimé, que je l'aie gardé ou non, je l'aimerai toujours»
André Breton
A cidade no claro escuro de néon
inverno de há tantos anos lembras-te
como descíamos a Avenida de Roma
no cheiro dos cafés nas capas
brilhantes dos lançamentos
e parávamos na Sinfonia tu ouvias
jazz eu preferia os franceses
Pairava uma doçura no ar nevoento
eriçado de pequenas ansiedades
quando ao cimo da Alameda
junto ao mural do Poder Popular
esperávamos entre beijos o início
do comício e os amigos
que viriam do Técnico
Havia uma inocência então que
não sei se era nossa se da cidade
tão nova nesses anos da revolução
e nós que nada sabíamos
porque em tudo era o nosso princípio
destrinçávamos labirintos e ágeis
nos subtraíamos à prisão do mundo
Consumimo-nos como tantos
como os outros
mas as tuas mãos ainda se detêm
nos ombros da lembrança onde nos vejo
eternos sonhadores da terra
prometida iluminando
recantos de uma Lisboa que já não há
Soledade Santos
comecemos pela ternura das mãos
pela minúcia dos dedos
pelas magnólias verdes dos teus olhos castanhos
contemplemos todas as batalhas
efémeras que perdeste
e os arroios que então se abriram
na espessura do teu corpo
e a boca lavrada pela sede incessante
e a glória da voz em vitral lento
consideremos também o teu nome
e para ele haverá que achar metáforas
estrelas em céu de agosto
por fim busquemos no fundo
da memória a chave
para o texto que ainda não decifrámos
enquanto isso
a ninguém direi dos pássaros
que moram na tua cintura
Soledade Santos
Quando te acuerde de mi cuerpo,
y no puedas dormir
y te levantes medio desnuda
y camines a tientas por tus habitaciones
borracha de estupor y de rabia,
en algún lugar de la tierra
yo andaré insomne por algún pasillo
careciendo de ti toda la noche
oyéndote ulular muy lejos y escribiendo
estos versos degenerados.
Felix Grande, España
Na casa fechada pelas frestas da persiana
ouvimos-te respirar. Estia sobre o teu rosto
e o pó de junho cai.
Cai nas uvas da latada, no tanque,
nas sardinheiras do quintal.
Na sala grande os retratos esmaecem
e os nomes
que ninguém mais chamará.
Soledade Santos
ouves o vento o lamento
da noite transida no berço
da lua nova?
Soledade Santos
gritam os gatos todo o serão estridências
de cio que não pressionam mas despertam
a minha gata levantamos as duas o olhar
eu do livro ela do sono redondo e olfactamos
uníssonas correntes de ar gotículas nas vidraças
não sei que cheiros lhe fazem fremir o negro nariz
fecho as cortinas espevito o lume domesticado
volto ao livro de vez em quando
os gritos trespassam a noite e pela incisão
começam a entrar cães de inverno e potros azuis
Soledade Santos
Canção Malgaxe
Subiu a rapariga para cima da amoreira,
e ao cimo do limoeiro subiu o homem também.
Uma aranha os enlaçou, e tudo aquilo que é belo
não deixa que se separem.
Poema mudado para o português por Herberto Hélder
que nos acompanham a vida toda.
Famous Blue Raincoat
It's four in the morning, the end of December. I'm writing you now just to see if you're better. New York is cold but I like where I'm living. There's music on Clinton Street all through the evening. I hear that you're building your little house deep in the desert. You're living for nothing now. I hope you're keeping some kind of record. Yes, and Jane came by with a lock of your hair. She said that you gave it to her the night that you planned to go clear. Did you ever go clear?
The last time we saw you you looked so much older. Your famous blue raincoat was torn at the shoulder. You'd been to the station to meet every train but then you came home without Lili Marlene. And you treated my woman to a flake of your life. And when she came back she was nobody's wife. I see you there with a rose in your teeth, one more thin gypsy thief. Well I see Jane's awake. She sends her regards.
And what can I tell you, my brother my killer? What can I possibly say? I guess that I miss you. I guess I forgive you. I'm glad that you stood in my way. If you ever come by here, for Jane or for me, I want you to know that your enemy is sleeping. I want you to know that his woman is free. Yes, and thanks for the trouble you took from her eyes. I thought it was there for good, so I never tried.
And Jane came by with a lock of your hair. She said that you gave it to her that night that you planned to go clear.
Sincerely, L. Cohen.
Leonard Cohen, Songs of Love and Hate
O amor chegou-te como um vento
dizes tu
um sopro cálido na pele um arrepio
incauto
depois giraste sobre o teu eixo
e originaste o tornado só
do epicentro ergueste as vagas
e salpicaste de espuma e sal
as folhas
sonolentas do teu largo
e dos teus sonhos magoados
Mas eu
que tenho a ver com tudo isso
eu nunca soprei para o teu lado
Soledade Santos
«To be alone is one of life's greatest delights»
uma chávena de chá sobre a mesa
um gato de barro um castiçal
algumas flores conchas livros
um caderno dois novelos
de lã e uma revista de tricot –
espólio de uma tarde à chuva
nessas delícias da solidão
que D H Lawrence cantou
Soledade Santos
vem chegando o outono
volta a fixar-se
nas cores do país solar
sobem do vale as neblinas
e abre rasgões o crocitar
dos corvos na tarde
uma ânsia qualquer detém o vento
Soledade Santos