blog*spot

Quinta-feira, Julho 31, 2003

O acaso e a necessidade (2) 

A tradução portuguesa de “Le hasard et la nécessité” (1970) saiu em Fevereiro de 1972 na Europa-América .
Monod começa por defender que existem três propriedades que caracterizam os seres vivos e os distinguem do resto do universo: teleonomia (são dotados de um projecto), morfogénese autónoma (são máquinas que se constroem a si mesmas) e invariância reprodutiva (capacidade de reproduzir uma estrutura de elevado grau de ordem).
Chamando a atenção em seguida para que «… a pedra angular do método científico é o postulado da objectividade da natureza, isto é, a recusa sistemática em considerar como podendo conduzir a um “verdadeiro” conhecimento toda a interpretação dos fenómenos, dada em termos de causas finais, quer dizer, de projecto», conclui que a invariância precede necessariamente a teleonomia, pelo que a evolução darwiniana resulta de perturbações ocorridas numa estrutura possuindo já a propriedade de invariância, capaz, portanto, de “conservar o acaso”. Assim a evolução ocorre não por obediência a uma finalidade ou a um projecto pré-existente, mas resulta de alterações aleatórias fixadas num sistema que tem a capacidade ou a propriedade de as reproduzir.
Nas palavras de Jacques Monod : «Todas as demais concepções … quer estejam implicitamente envolvidas pelas ideologias religiosas, quer pela maioria dos grandes sistemas filosóficos, pressupõem a hipótese inversa, isto é, que a invariância é protegida, a ontogenia guiada, a evolução orientada, por um princípio teleonómico inicial, do qual todos estes fenómenos seriam manifestações». O livro parte depois para uma breve exposição e análise da lógica das teorias ou concepções que defendem o primado da teleonomia, agrupando-as em teorias vitalistas e concepções animistas. É aqui que surge a minha primeira surpresa.
O animismo considera que, à semelhança dos seres vivos, também «os fenómenos naturais podem e devem explicar-se, em definitivo, da mesma maneira e pelas mesmas “leis” que a actividade humana subjectiva, consciente e projectiva». O homem primitivo, perante o mistério dos fenómenos da natureza (os rios, as montanhas, o céu, as tempestades, os corpos celestes) acabou por atribuir-lhes uma alma, um sentido, uma finalidade. E, inesperadamente para mim, Monod, depois de referências a Teilhard de Chardin e Spencer, ataca o materialismo dialéctico de Marx e Engels considerando que estes, ao querer «fundar nas leis da própria natureza o edifício das suas doutrinas sociais (recorreram), muito mais clara e deliberadamente que Spencer à “projecção animista”.»
Ainda retomando o texto de Monod: « … fazer da contradição dialéctica a “lei fundamental” de todo o movimento, de toda a evolução, significa, do mesmo modo, tentar sistematizar uma interpretação subjectiva da natureza que permita descobrir na mesma natureza um projecto ascendente, construtivo, criador: torná-la enfim decifrável e moralmente significante ..».

«Os acontecimentos elementares iniciais que abrem a via da evolução a estes sistemas intensamente conservadores que são os seres vivos são microscópicos, fortuitos e sem relação alguma com os efeitos que podem produzir no funcionamento teleonómico.
Mas, uma vez inscrito na estrutura do ADN, o acidente singular, e como tal essencialmente imprevisível, vai ser mecânica e fielmente replicado e traduzido, isto é, simultaneamente multiplicado e transposto para milhões ou biliões de exemplares. Subtraído ao reino do puro acaso, ele entra no da necessidade, das certezas mais implacáveis.»

A tese fundamental do livro é exposta de uma maneira forte logo no segundo capítulo, « ,,, a biosfera não contém uma classe previsível de objectos ou de fenómenos, mas constitui um acontecimento particular, certamente compatível com os primeiros princípios, , mas não deduzível desses princípios. Portanto, essencialmente imprevisível.»

E mais à frente : «Nós queremo-nos necessários, inevitáveis, ordenados desde sempre. Todas as religiões, quase todas as filosofias, uma parte da própria ciência, testemunham o incansável e heróico esforço da humanidade, negando desesperadamente a sua própria contingência.»

Tudo isto foi, naquela altura, um enorme abalo. Não tanto porque constituísse a revelação de uma verdade, mas sobretudo porque confirmava os meus mais íntimos pressentimentos, trazia à superfície o rio profundo das convicções mais entranhadas, soava-me fresco, corajoso e altivo, retirava-me de algum modo a segunda linha de fuga que o marxismo constituía após a religião, esta abandonada muito cedo. Poderá dizer-se: este pequeno texto de um biólogo vale mais que todos os brilhantes ensaios de outros tantos brilhantes filósofos e ensaístas que reflectiram sobre a obra de Marx e Engels? Provavelmente não, mas teve a frescura do beijo inesperado e inesquecível de uma rapariga num baile de São João.

No último capítulo do livro, significativamente intitulado «O Reino e as trevas”, Monod acaba por postular uma ideia orientadora, que me iria influenciar durante muitos anos, aquilo que designou como ética do conhecimento. Embora a vida, ou a leitura que consigo fazer da vida, tenha aprofundado o meu cepticismo acerca da condição humana e do valor ou perenidade das grandes ideias e proclamações, passados trinta anos, ao reler este livro para completar a memória, muito emocional, da sua primeira leitura, ainda sinto a mesma vibração, pureza e generosidade que a meu ver resistiram à passagem do tempo:

«Se é verdade, como creio, que a angústia da solidão e a exigência de uma explicação total e constrangedora são inatas; que esta herança vinda do fundo das idades não é apenas cultural, mas, sem dúvida, também genética, pode-se pensar que esta ética austera, abstracta, orgulhosa, possa acalmar a angústia, satisfazer a exigência? Não sei. (…) A ética do conhecimento é, enfim, a meu ver, a única atitude simultaneamente racional e deliberadamente idealista sobre a qual poderia ser edificado um verdadeiro socialismo. Esse grande sonho do século XIX vive sempre, nas almas jovens, com uma intensidade dolorosa. Dolorosa por causa das traições sofridas por esse ideal e dos crimes cometidos em seu nome (…) É fácil ver que o profetismo historicista fundado no materialismo dialéctico vinha, desde os seus começos, carregado de todas as ameaças que, com efeito, se realizaram. Mais ainda, talvez, que os outros animismos, o materialismo histórico repousa sobre uma confusão total de categorias de valor e de conhecimento. Foi esta mesma confusão que lhe permitiu, num discurso profundamente inautêntico, proclamar que estabelecera “cientificamente” as leis da história, às quais o homem não teria outro recurso nem outro dever senão prestar obediência, ou desaparecer no nada.»

E o livro termina:

« A antiga aliança rompeu-se. O homem sabe, finalmente, que está só na imensidade indiferente do universo, donde emergiu por acaso. Nem o seu destino nem o seu dever estão escritos em parte alguma. A ele cabe escolher entre o Reino (transcendente das ideias, do conhecimento, da criação) e as trevas.»


Infância (2) 

Desde pequeno que me habituara a andar com os pés descalços, apesar das reprimendas de todos lá em casa. Logo que podia saía sem dizer água vai, e mal passava a igreja e ficava fora da vista do pai ou das criadas, tirava o que trazia calçado e corria como um louco a ter com os amigos do Lameirão e da Borralheira. Assim, eram todos iguais. Lá estavam o Pedro, o Ananias, o Xico, o Tó, o Filipe e outros, especialistas em ninhos, fumar barbas de milho e encontrar tanques de quintas para tomar banho. Quando ficámos um pouco mais crescidos, e ultrapassadas as brincadeiras de ver quem mijava mais longe ou mais alto, vinham as histórias fantasiosas do sexo contadas em grupo, que terminavam da minha parte por me isolar junto ao ribeiro, encostado a uma rocha onde o Sol batesse com toda a força e onde me acariciava longamente até vir aquela explosão que toldava a vista.
Andar descalço tornar-se-ia com o tempo a memória mais exacta da infância, a conversa mais íntima com a terra, a aspereza forte das amizades feitas de rixas e brincadeiras ousadas, a comunhão com os mais belos companheiros de toda a vida, e também a memória daquelas raparigas cujo corpo apenas era adivinhado, apesar das escapadelas furtivas a certas janelas da vizinhança ou quando levantava os toldos na praia da Figueira onde as amigas de Verão e as primas se vestiam.
Foi num desses verões que me disseram que não podia ler “Olhai os lírios do campo” de que as primas tanto falavam, porque não era para a minha idade. Teria doze ou treze anos e ainda não sabia que havia livros que revelavam um mundo muito diferente daquele que me mostravam na escola, na igreja ou à mesa à hora do jantar. Que um livro podia rasgar o universo, revelar um mundo novo, abrir-nos de alto a abaixo e deixar-nos por vezes deslumbrados outras vezes desamparados outras ainda convencidos que logo ali, ao virar da esquina, estava a “Primavera que eu esperava”, que um livro podia ser a nossa bússola, a estrela polar, o sol e a lua.
E também a inquietude, o desassossego, a angústia e a esperança, a viagem interminável de Ulisses.

O acaso e a necessidade (1) 

Foi-me sempre difícil compreender ou encontrar um sentido para a vida, para a existência, fora do seu curso normal, contingente, vivencial, fora do que as circunstâncias em cada momento iam desenhando.

As teorias ou visões deterministas, finalistas, teleológicas, escatológicas causavam-me uma enorme estranheza, não eram compatíveis com o meu enraizado cepticismo, a sensação permanente de precariedade ou aleatoriedade ou de efémero. Este sentimento, esta incomodidade criavam a todo o momento uma barreira natural, uma fronteira, a consciência de um isolamento, que num primeiro momento minaram a minha crença religiosa e posteriormente impediram uma adesão completa ao marxismo quer em termos teóricos quer na praxis quotidiana.
Estas minhas dúvidas ou inquietações mereceram frequentemente, dalguns companheiros de lides políticas, o maior sarcasmo, de tal modo que um amigo de então, o Henrique, várias vezes nos corredores de Económicas me interpelava com o seu grito: -- Estás bom, ó pré-científico! Esta de me chamarem pré-científico apareceu numa aula de Teoria Económica II, se a memória não me falha, quando fiz uma pequena intervenção dizendo, no calor de uma acesa discussão, que ciências exactas só conhecia a Física, a Química ou a Biologia, enquanto a inevitável construção da sociedade socialista ou comunista me parecia um acto de vontade, uma possibilidade entre outras, ou uma crença baseada em pressupostos que careciam de demonstração.Vários foram os caminhos que conduziram ao meu progressivo afastamento do marxismo como concepção global do mundo, explicação final, orientação geral para a vida. Tive um amigo que me dizia: Se não fosse o marxismo, eu não era nada, já me tinha matado.
Um dos que textos que mais me abalou, na minha tardia incursão pela biologia, foi o livro de Jacques Monod, ?O acaso e a necessidade. Ensaio sobre a filosofia natural da biologia moderna?. Antes desta sua obra eu tinha tido um primeiro contacto com Monod quando juntamente com François Jacob e Andre Lwoff recebeu o Prémio Nobel da Medicina em 1965. Estou a vê-los numa capa de um ?Paris Match? .
Monod e François Jacob contribuiram para elucidar de que forma os genes regulavam o metabolismo celular, ao dirigirem a biosíntese das enzimas.


Terça-feira, Julho 29, 2003

Infância (1) 

Fiz a escola primária nos Penedos Altos, mesmo ao lado da nossa casa. O Zé e o Carlos subiam o muro do quintal e entravam directamente na escola através do pátio das meninas. Mais tarde o Carlos e o Zélito (filho do director) realizaram aquela extraordinária façanha de partir todos os vidros da escola : eram oito salas de aula, de uma escola ao estilo salazarista. Tirando as brincadeiras do recreio nada retive da minha passagem pela primária (aprendi obviamente a ler, escrever e contar), a não ser aquela ameaça dos burros. Se não estudas ficas burro. E havia muitos que eram presenteados com o castigo das orelhas, humilhados perante a risota geral dos colegas. Naquela altura os Penedos Altos ficavam na transição entre a cidade e o campo. Passavam rebanhos, ciganos, mulheres que paravam e abriam as pernas para urinar, e também burros. Eu olhava da varanda os burros, sempre com um ar triste e resignado, escanzelados, e ficava presa de uma enorme angústia ao lembrar as advertências na escola. Quem teria sido aquele burro? Por que não teria estudado? Saía da varanda, aproximava-me e fixava aqueles olhos imensamente tristes e tentava adivinhar o menino que estaria escondido por dentro daquele pobre animal. É que eu levava a sério aquilo que me diziam na escola e não conseguia compreender tanta maldade.




Segunda-feira, Julho 28, 2003

A sétima esquadra 

O Sr. Carvalho olhava para mim com os olhos brilhantes e um sorriso rasgado, e não parava de dizer:
- Estás a ver, Manelinho , a Sétima Esquadra ? É maior que a Sétima Esquadra. Não tem comparação.
Sem saber que dizer fixava os olhos ora no Sr. Carvalho ora no Fernando Miraldes. E não compreendia nada.
- A Sétima Esquadra, balbuciei, mas qual?
- A Sétima Esquadra americana, que diabo. O estádio do Sporting é maior que a Sétima Esquadra americana, dizia o Sr. Carvalho, cada vez mais excitado. Tu não consegues imaginar. Aquilo não tem fim.
Fiquei espantado. Tinha 13 anos e nunca tinha estado no Estádio de Alvalade. E embora na minha cabeça todas as fantasias fossem possíveis, não estava a ver como era possível o estádio ser maior que ... No entanto, havia aqueles nomes mágicos, os cinco violinos: Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano. E se eles existiam não podia haver limites. Pobre Sétima Esquadra, comparada com o Olimpo verde e branco. Era nas traseiras do café do Parrana que todos se reuniam a ouvir os relatos ao domingo ou nas quartas-feiras europeias. No dia seguinte corria-se até ao Pelourinho disputar A Bola. Os exemplares não chegavam e o Leal saltava para cima da pilha dos jornais e gritava : -- Aqui ninguém mexe! Um de cada vez e devagarinho. Se não levo os jornais de volta.
Nesse ano o Sporting ganharia a Taça das Taças, com o famoso golo de canto directo do Morais. Mas o sentimento que me ficava é que o Sporting ganhava tudo ou era sempre o melhor.
Quando se ia ao Estádio Santos Pinto, o grande problema era o Fernando Miraldes. Inquieto, não conseguia estar parado. Ora de pé ora sentado acompanhava os jogos com todo o corpo, avançando ou recuando com os movimentos do Sporting da Covilhã. Arrastava toda a fila da bancada lateral atrás dele, surdo aos protestos dos outros espectadores que se estatelavam na fila de baixo. E havia também os pontapés no ar ou nas costas dos outros, substituindo ou imitando os remates decisivos.
A memória que guardo desse ano inesquecível é daqueles dois loucos pelo Sporting arrastando-me atrás de si naquela febre, naquela exaltação, naquela embriaguez por uma camisola às riscas verdes e brancas. De tal modo que, quando no Natal me ofereceram uma camisola lindíssima para o inverno, recusei-me a vesti-la porque era vermelha. Para mim seria uma traição aos meus amigos, negar aquela epopeia que se escrevia nos estádios, escarnecer da Sétima Esquadra, violar um pacto de sangue. Era como trair Aquiles, Ajax, Heitor, Ulisses, Eneias, os heróis, os mitos da transição da minha infância para a adolescência que nessa altura davam pelo nome de Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano. Já não jogavam, mas estavam sempre presentes em todas as conversas. Como se discutíssemos a origem do mundo, os deuses criadores, os heróis eternos. Nesse ano, em toda esta confusão exaltada, acabei por me esquecer das aulas e chumbei no 4º. ano do Liceu.



Domingo, Julho 27, 2003

et le temps se fit aimant (1) 

Un mystère plus fort que leur malédiction innocentant leur coeur, ils plantèrent un arbre dans le temps, s'endormirent au pied, et le temps se fit aimant.

René Char

Le temps est le sens de la vie.
Paul Claudel

A eternidade está enamorada das obras do tempo.
Blake

O tempo passa mas eu espero por ti.
Lao Tse

Fosse a tua vida três mil anos e até mesmo dez mil, lembra-te sempre que ninguém perde outra vida que aquela que lhe tocou viver e que só se vive aquela que se perde. Assim a mais longa e a mais curta vida se equivalem. O presente é igual para todos, o que se perde é, por isso mesmo, igual, e o que se perde surge como a perda de um segundo. Com efeito, não é o passado ou o futuro que perdemos; como poderia alguém arrebatar-nos o que não temos?

Marco Aurélio

O que é o tempo é algo que eu não ouso tentar definir. Fico pela definição de Santo Agostinho quando ele diz que julga saber o que é o tempo mas quando lhe perguntam não é capaz de dizer. De qualquer forma, posso dizer que é algo de fundamental da nossa própria experiência que certos fenómenos se produzem na mesma direcção em que envelhecemos. Outros fenómenos produzem-se independentemente dessa direcção. Um pêndulo, por exemplo, tanto pode ir da esquerda para a direita enquanto envelheço, como pode ir da direita para a esquerda. Mas se coloco um líquido quente em contacto com um líquido frio e os misturo, uniformizam-se na direcção em que me torno mais velho. O inverso não se produz no meu futuro. O tempo é pois uma coordenação cosmológica do conjunto de fenómenos que se produzem. Por que é que existe uma flecha-tempo? Para mim é um problema cosmológico. Penso que o Universo nasceu sob o signo de uma flecha do tempo. O Universo é uma temporalidade. O tempo é a coerência do Universo.

Ilya Prigogine


O conceito de tempo não tem qualquer significado antes do começo do Universo ... Quando lhe perguntaram "Que fazia Deus antes de criar o Mundo?" [Santo] Agostinho respondeu que o tempo era uma propriedade do Universo que Deus tinha criado, e que não existia antes do começo do Universo.
Stephen W.Hawking


O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, em si mesmo e por sua própria natureza, decorre uniformemente sem relação a algo exterior e, com outro nome, é chamado duração.
Newton


O tempo é invenção, ou não é absolutamente nada.
Bergson


Cada vez que el Tiempo me martiriza, me digo que uno de los dos va a estallar, que no es posible continuar indefinidamente en ese cruel enfrentamiento.
E.M.Cioran





Quinta-feira, Julho 24, 2003

Antoine Bloyé 

·
«Ce livre raconte la vie d’un homme. Un homme qui a un métier, une femme, des enfants et qui finit par mourir ... Antoine Bloyé est un homme qui est constamment rongé par la mort, parce qu’il n’accomplit pas les gestes qui l’annulent. Il n’accomplit rien: il existe comme tout le monde, comme tous les hommes de la bourgeoisie, il vit d’une manière imaginaire dans un monde de fantômes : les fantômes du devoir, de l’amour, du travail, de l’ambition, du succès. Sa vie n’a pas de sens, pas d’espoir. Il connait l’angoisse de la mort à cause de ce vide radical. »

Paul Nizan, prefácio à edição de 1933
·

Quarta-feira, Julho 23, 2003

Gramáticas da Criação 



Na sua Gramáticas da Criação [2001] refere George Steiner que « ... Embora as possibilidades materiais, as circunstâncias sociais e económicas as aberturas históricas exerçam a sua influência sobre a criação estética, a composição do poema, da tela ou da sonata continua a ser contingente. Em cada caso, teria podido não ser (e lembram-nos da irresistível interrogação de Leibniz). A obra de arte, ou a obra poética, traz sempre consigo, por assim dizer, o escândalo do seu aleatório, a percepção do seu capricho ontológico. A sua necessidade não corresponde a lógica alguma, por mais imperativos que sejam os motivos psíquicos e íntimos da sua génese. Os que fazem arte, música e literatura, experimentam esta ausência de necessidade como uma ameaça ou uma libertação. Há sensibilidades e formas dotadas do “dur désir de durer” (“duro desejo de durar”) caro a Paul Éluard (com o seu jogo de palavras em torno do nome sortílego de Dürer). Há compositores, escritores, escultores, arquitectos a quem a ideia do efémero obsidia o medo de verem o opus votado a um esquecimento próximo ou distante. Há outros, em contrapartida, que acham estranhamente reconfortante a consciência de que a sua obra “poderia não ter sido”. Na verdade, a estética conhece um sentimento de culpa, de radical mal-estar, frente ao inacabado ...»

Várzea Grande 



No ano em que comprámos a Várzea Grande o século aproximava-se do fim. O que mais nos agradou foi a simplicidade e a escala da casa, a sábia utilização dos materiais tradicionais, o cheiro do campo envolvente, o pequeno poço rodeado de castanheiros e loureiros, os simpáticos velhotes nossos vizinhos (a Francisca e a Alzira). Era Primavera.

Nessa altura estava tomando forma a vontade de dar corpo, de um modo sistematizado, a uma reflexão sobre os anos passados, revisitando memórias, acontecimentos, pessoas, leituras que marcaram um caminho errático, por vezes doloroso, quase sempre inquieto, frequentemente estranho, um percurso de certa forma circular, que partindo da incomodidade da descrença passou pela procura de diversos absolutos como a revolução e a ciência, foi possuído pela exigência do amor, evoluindo depois para uma forma de cepticismo benevolente.

Nós somos o produto de diversos sedimentos que se vão depositando, alterando, consolidando, sedimentos muitas vezes dispersos pelo vento forte da emoção ou da dúvida, mas sempre deixando a sua marca e cuja importância emerge quando menos esperamos. O vento da emoção também nos confunde, esbate as fronteiras entre a realidade e ilusão, traz-nos a fantasia, esse alimento essencial da vida.

O exercício da memória, o abrir de portas que se julgava para sempre fechadas, o espanto por aquilo que se é ou se foi ou se julga ser, o ir lá atrás ao princípio do mundo que é, para todos os efeitos, o princípio de nós próprios, foi despertado pela Várzea Grande.

A Várzea Grande ainda está em construção. Olho as obras que se vão concretizando, os novos projectos, os afectos que vão nascendo, e penso às vezes que todo os caminhos se dirigiam para aqui.

Esta compreensão da incompreensão do mundo ou do seu mistério descubro-a também na Várzea Grande ao ver crescer as árvores que plantámos, as alterações da paisagem com as estações do ano, a amizade da Francisca e da Alzira, o silêncio do campo à noite.

E como homenagem a esta descoberta plantei um carvalho do outro lado do pequeno ribeiro, com a esperança que venha a crescer alto e robusto, em memória dos meus avós e da Aldeia do Carvalho, a ilha do tesouro da nossa infância.

O que aqui se procura contar são os tropeções, as quedas, as ilusões, os medos e as cobardias, os raros momentos de lucidez e coragem de uma vida obscura, apenas iluminada pelo obstinado esforço de compreender o mundo e o desejo de ser amado.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?