maio 07, 2008
Inigi

Eugène Delacroix
Um corpo tem a lembrança excessiva de outro corpo
um corpo já não tem imaginação
não tem paciência com nenhum outro corpo
Henri Michaux, Inigi, em A Rosa do Mundo, Assírio & Alvim, 2000
maio 05, 2008
maio 04, 2008
still life with cat
passa uma musiquinha triste
na rádio a gata dorme o aconchego
da melodia casa vazia
uma cesta e o girassol amarelo
é quanto lhe basta para ser feliz
eu não me contento com tão pouco
um girassol amarelo a musiquinha
uma cesta tem mais do que eu
a gata não espera nada e tem
me a mim também
Soledade Santos
abril 17, 2008
Flow, my tears
Andreas Scholl canta Flow my tears de John Dowland.
Flow, my tears, fall from your springs!
Exiled for ever, let me mourn;
Where night's black bird her sad infamy sings,
There let me live forlorn.
Dawn vain lights, shine you no more!
No nights are dark enough for those
That in despair their lost fortunes deplore.
Light doth but shame disclose.
Never may my woes be relieved,
Since pity is fled;
And tears and sighs and groans my weary days
Of all joys have deprived.
From the highest spire of contentment
My fortune is thrown;
And fear and grief and pain for my deserts
Are my hopes, since hope is gone.
Hark! you shadows that in darkness dwell,
Learn to contemn light
Happy, happy they that in hell
Feel not the world's despite.
abril 15, 2008
tudo começa

Roteiros ― Escrever, Viajar e Morrer com os Gregos
«Tudo começa na margem do continente de onde vão partindo os filhos com o fogo materno, onde esperam regressar um dia ainda que, por vezes, mal amados e acolhidos. Tróia, os excelentes heróis, o cansado Ulisses com um roteiro de regresso imenso, mapa imaginário das primeiras aventuras pelo Egeu, Mediterrâneo ou Atlântico e, contudo, uma recepção fria. Tróia, ainda, dos poetas sem escrita e sem sono, de prodigiosa memória, bastidor de imaginação, cédula essencial do passado, relato urgente e conciso das origens, a requisitar, no dealbar da época arcaica. E os outros sábios, parentes dos xamanes mais antigos, não gregos...
Ainda o tema da viagem, excursão da alma numa flecha, numa ave, e o regresso excelente, prestigiado, pelo desvelar do passado, do presente ou do futuro. Sempre através do aforismo, da poesia, um relato-mistérico.»
José Augusto C. Ribeiro Graça - Biblioteca Digital, FLUP
março 21, 2008
Vespertino
A tarde cai num silêncio de cansaços
do sul as nuvens chegam
como flâmulas
e sobre nós respiram
leves as folhas
de sobreiros e acácias
que perduram
sobre o muro
esquecido
aberto o livro:
«não conheci o desvario do amor senão quando me esforcei
de todas as maneiras por curar-me dele»
eu amava estes lugares onde as sílabas fulgem a floração do corpo
mas as palavras já não têm tal rosto
na tarde que finda
compõem ainda uma gramática –
a do silêncio
Soledade Santos
março 20, 2008
Olhar por dentro
Foi no Bioterra que encontrei a chamada de atenção para a entrevista a Mário Nogueira.
março 19, 2008
Qu'est-ce que tu voulais que je lui dise?

Bénabar: Reprise des négocitions, 2005
[Grata à Ana que me deu a conhecer Bénabar]
março 18, 2008
março 12, 2008
março 11, 2008
Magistrados públicos em solidariedade com os professores
Muitos textos têm circulado nos últimos tempos acerca do *problema* da Educação e do confronto entre os professores e as políticas ministeriais. Citam-se autoridades, discute-se filosofia da educação, divulgam-se posições, teorias, números. O debate acerca da escola, da sua finalidade, natureza e história, faz-se activamente, com maior ou menor serenidade, em blogues e fóruns dedicados e dinamizados por grupos de professores. Esta reflexão conjunta é já um ganho, como me fazia notar uma amiga brasileira.
O texto que reproduzo abaixo não mereceu grande divulgação, ou então fui eu que não dei por isso. E no entanto parece-me importante tomá-lo em consideração ― pela sua proveniência, pela solidariedade expressa e pelos argumentos que aduz. Reproduzo-o, por isso, e expresso a minha gratidão, enquanto professora, aos Magistrados do Ministério Público do meu país.
* * * * * * * * * * * *
Os magistrados públicos manifestaram hoje «total solidariedade» com os professores, justificando que as reformas educativas do Governo são «apenas uma das faces de uma política que visa destruir o aparelho de Estado».
Cerca de 100 mil professores, segundo os sindicatos, participaram hoje na «Marcha da Indignação», exigindo a demissão da ministra da Educação, a renegociação do Estatuto da Carreira Docente e a suspensão do processo de avaliação de desempenho.
Numa moção, hoje aprovada em Assembleia-Geral, o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público defendeu que «a prática do Governo ao atentar contra a escola pública é apenas uma das faces de uma política que visa destruir o aparelho de Estado e privilegiar os interesses económicos dominantes».
Os magistrados públicos argumentaram, no mesmo documento, que «a sistemática atitude do Governo de falta de diálogo e de respeito para com os professores não se diferencia de idêntica atitude que tem vindo a assumir perante os magistrados».
O sindicato reforçou mesmo que tal atitude «mais não reflecte que a tentativa de condicionar a autonomia e a liberdade de pensamento de corpos sociais capazes de reflectir».
Como tal, os magistrados do Ministério Público decidiram «saudar a grandiosa manifestação dos professores de Portugal, e manifestar-lhes total solidariedade».
Diário Digital - 08-03-2008